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Michel Alcoforado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Os direitos de imagem da bebê-prodígio Alice Secco e o 'sharenting' digital

A bebê Alice Secco e a atriz Fernanda Montenegro - Divulgação
A bebê Alice Secco e a atriz Fernanda Montenegro Imagem: Divulgação
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Michel Alcoforado

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca, uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Colunista do TAB

15/01/2022 04h01

Não se fazem mais crianças como antigamente. Os pais, contudo, continuam iguais.

Alice Secco nasceu em Londres em 2019. Os pais se conheceram em um bar numa noite de verão calorenta no Rio de Janeiro, engataram um romance e, tempos depois, mudaram-se para a capital inglesa em busca de uma nova vida. Certo dia, Morgana se sentiu diferente e convocou Luiz para um veredito. Com um teste de gravidez nas mãos, correu para o banheiro e contou ao marido sobre os planos da cegonha para a vida do casal. Sonharam com o nascimento e já podiam imaginar cada singularidade da nova cria.

Pela cartilha dos especialistas, no sexto "mesversário" Alice já balbuciaria algum grunhido inteligível; com 1 ano, falaria palavras simples. Aos 18 meses, faria frases com duas ou três palavras. Morgana e Luiz, assim como seus pais, avós e bisavós, se divertiriam com as peripécias de Alice, dormiriam com a certeza de que tinham em casa um dos melhores exemplares da espécie e obrigariam todos a verem vídeos, fotos e a comentarem com entusiasmo o crescimento do bebê.

A exposição contínua dos feitos das crias funcionam como um duplo certificado. Aliviam a tensão dos pais, que olham os registros e ficam certos de que estão fazendo um bom trabalho, mas também prova para parentes, amigos e colegas de trabalho que aquele que gerou cumpre sua função com eficácia.

O comportamento é tão difundido que o jornal norte-americano The Wall Street Journal valeu-se de um neologismo para dar nome aos bois. Trata-se do sharenting: uma junção do verbo share em inglês, que significa compartilhar ou dividir, com parenting, usado para tratar das questões da paternidade/maternidade. Sharenting resume essa obsessão dos pais em compartilhar cada passo dos seus filhos com os outros. A hashtag #mybaby (ou #meubebe) tem milhões de compartilhamentos nas redes sociais.

A família Secco viveria essa tensão como qualquer outro núcleo familiar se Alice não tivesse nascido às vésperas da maior onda viral dos últimos 100 anos. E, como o mundo digitalizado nos ajuda a compartilhar informações e a reduzir distâncias, os dois fenômenos contribuíram para a menina virar uma celebridade da noite para o dia.

Apesar de viverem longe no Brasil, é certo que Morgana, fotógrafa, e Luiz, engenheiro, tiveram mais tempo para se dedicar ao desenvolvimento de Alice, que nunca assistiu à televisão ou mexeu no celular. Os resultados apareceram logo. Aqui no Brasil, segundo dados da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, 51% dos pais das classes A/B disseram ganharam mais tempo com os filhos com o confinamento.

Com menos de dois anos de vida, a menina conseguia falar com clareza invejável um conjunto de difícil pronúncia, até mesmo para os adultos. Dizia ela: oftalmologista. Tiranossaurus rex. Proparoxítona. Propositalmente. Fonoaudióloga.

A distância dos avós, parentes e amigos mais próximos (boa parte no Brasil) fez a mãe começar a compartilhar os vídeos da filha em um perfil no Instagram. Em pouco tempo, os vídeos de Alice viralizaram. Na sequência, alçada à categoria de celebridade digital, Alice participou de programas de televisão e reportagens. Morgana, a conta de Instagram da mãe que publica os vídeos, conta com mais de 3,4 milhões de seguidores no Instagram, 251 mil inscritos no YouTube e vídeos com mais de 1 milhão de visualizações.

De olho no sucesso, o banco Itaú contratou a menina Secco para fazer dupla com Fernanda Montenegro na campanha de final de ano. O vídeo bateu recorde de visualizações. Sem qualquer investimento de mídia nas redes sociais, em apenas três dias, mais de 4,5 milhões de pessoas assistiram ao comercial e o nome da grande dama da dramaturgia brasileira ficou no topo dos assuntos mais comentados no Twitter. Foi um estrondo!

A família Secco ficou feliz com o sucesso e o Natal de vacas gordas, alimentado pelo cachê da filha, mas esqueceu que na vida não há bônus sem ônus. Ficaram surpresos com a uso da imagem da menina em memes de política, de crítica ao governo Bolsonaro a questões religiosas. Semanas atrás, a mãe de Alice usou as redes sociais para reclamar do uso indevido de imagem de Alice.

Mas não há muitas saídas. O mundo marcado pela digitalização é também aquele com graves consequências para o hoje e para o amanhã das crianças. Em tempos de redes sociais, o sharenting desemboca em discussões sobre trabalho infantil, resvala no direito ao esquecimento e pode aprisionar as crianças em uma jaula identitária para o resto da vida.

Ao contrário do uso de crianças em apresentações no showbiz ou em campanhas publicitárias, a uso de crianças como influenciadores digitais passa ao largo do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). No primeiro caso, os contratantes precisam apresentar aos juízes antes da inclusão das crianças o roteiro de filmagem, o local de trabalho, as roupas utilizadas e o horário, com intervalos para descanso e alimentação, além de comprovar a matrícula da criança em uma escola. Os pais precisam aprovar a participação e a grana paga precisa ser depositada em conta poupança no qual a criança-prodígio é a titular e a principal beneficiária do dinheiro.

Diferente das propagandas do passado que marcavam época e eram completamente esquecidas, no digital o direito do esquecimento obedece a outras regras. Da mesma maneira que o que acontece em Las Vegas já não fica mais em Las Vegas, campanhas publicitárias ou virais da internet permanecerão para todo sempre no mundo digital, disponíveis para a busca, ainda que, quando adulto, o influencer negue as escolhas dos pais, a maneira como a própria identidade foi compartilhada. Assim, o apagamento dos rastros, memes e usos das imagens é quase impossível. Daqui até a eternidade, todas as vezes que jogarmos o nome de Alice nos buscadores virtuais aparecerão os milhares de links com sua carinha de bebê falando palavras de difícil pronúncia.

A dificuldade de sumir com os rastros, reinventar o passado e ressignificar a própria trajetória coloca as crianças famosas das redes sociais em uma prisão identitária. Se, como ensinam os historiadores e cientistas sociais, nós somos aquilo de que lembramos, Alice Secco terá sempre o peso daquilo que os outros lembram do seu nome e terá de carregar o fardo de mostrar que, com o tempo, é mais do que uma repetidora de frases.

Ainda não temos muita clareza sobre os riscos e impactos do digital sobre nossas vidas. Tampouco se sabe o impacto da comercialização excessiva de imagens para os influenciadores de ocasião. Com criança no meio, as coisas ficam ainda mais complicadas.