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Michel Alcoforado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Lula casou e só se fala disso: como amor e política entram em jogo em 2022

Lula e Janja se casam em um buffet no Brooklin, zona sul de São Paulo, na quarta-feira (18) - Ricardo Stuckert/Divulgação
Lula e Janja se casam em um buffet no Brooklin, zona sul de São Paulo, na quarta-feira (18) Imagem: Ricardo Stuckert/Divulgação
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Michel Alcoforado

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca, uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Colunista do TAB

21/05/2022 04h01

Lula casou! Resta saber se foi o homem ou o político.

Tomo a ousadia de afirmar que foram os dois.

Já não é novidade para ninguém a oficialização da união do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com Rosângela Silva, a Janja, numa cerimônia na última quarta-feira (18) no Brooklin, na zona sul de São Paulo.

Depois da viuvez de dois casamentos, a narrativa vendida aos quatro cantos sobre o novo amor lembra os roteiros de cinema. O político vocacionado para melhorar a vida do seu povo, apesar da inocência, decide se entregar aos algozes. Preso injustamente, é posto em uma cela solitária numa cidade fria e cinzenta, longe dos grandes centros urbanos do país. Do outro lado da rua, uma multidão de fãs e apoiadores fiéis revezam-se numa vigília barulhenta. Com gritos de apoio, eles marcam a passagem do tempo durante os quase 580 dias de cadeia.

Lula recebe milhares de cartas vindas de todas as partes do mundo. Entre as missivas, começa a trocar mensagens com uma antiga militante do Partido dos Trabalhadores. Depois de se conhecerem pessoalmente, engatam um namoro publicado pela imprensa por um descuido de um amigo. A relação engrena, o preso é libertado, os processos anulados e o casal sai em revoada pelo país, numa campanha pelo retorno de Lula à Presidência da República, sob a melodia de um jingle das eleições de 1989.

Cena de filme. Não é por acaso.

Para além da visível felicidade dos noivos, é certo que a cerimônia foi um ato de amor, mas, sobretudo, foi um feito político. Um ato de campanha. A começar pelas circunstâncias do pedido e da celebração do casamento, a poucos meses da eleição.

O crescimento do conservadorismo do eleitorado e a enorme força do pentecostalismo pesou na decisão. Lula se vende como um homem comprometido com os valores da família, numa construção diferente e quase oposta a do concorrente, Jair Bolsonaro — casado e separado duas vezes, o atual presidente tem relação conturbada com as ex-mulheres e, quando deputado, contava com auxílio-moradia para pagar o aluguel de um apartamento usado para "comer gente".

Ainda jovem, Lula enviuvou da primeira mulher, Lourdes Maria da Silva, e casou-se com Marisa Letícia respeitando o sacramento da Igreja Católica. Também decidiu se juntar à nova companheira numa cerimônia religiosa realizada pelo bispo emérito de Blumenau, Dom Angélico Sândalo.

Janja entra no jogo por amor e pela razão. Como socióloga, deve ter se deparado com "Os dois corpos do Rei: um estudo sobre a teologia medieval", livro de Ernst Kantorowicz, ao longo da sua formação. O autor mostra que, na Idade Média, os reis tinham de lidar com duas dimensões do próprio corpo: a natural, pautada por efemeridade, dores, dilemas e desejos humanos; e a mística, apoiada na ideia da imortalidade, do perene e do representativo das lutas e das especificidades de um povo.

Apesar da leitura de Kantorowicz se aplicar aos dilemas do mundo medieval, não restam dúvidas de que a teoria ainda tem valia para o Brasil de 2022. Se, a cada 4 anos, ainda acreditamos que um novo Dom Sebastião voltará para resolver todos os problemas e nos salvar, fica claro que, quando o assunto é política, ainda não fomos capazes de entrar na modernidade.

Pouco antes de oficializar a relação, Janja entendeu que estava prestes a se casar com Luiz Inácio e com Lula — o de carne osso e o que sonha em ser mito —, e fez do casamento um momento íntimo e um ato político, no qual se esforça para mostrar a negociação, a mediação e o equilíbrio como valores centrais da narrativa do casal.

A começar pelo vestido. Em grandes eventos, a imagem das mulheres é sempre alvo de preocupação da audiência. Em uma sociedade marcada pelo machismo, é no controle do próprio corpo e da própria imagem que se espera que as mulheres mostrem quem são. Janja escolheu Helô Rocha, estilista aceita e consumida pelas elites urbanas, para desenhar seu vestido. No entanto, contou com o trabalho minucioso das bordadeiras da região do Seridó, no Rio Grande do Norte, para finalizar a peça com referências ao luar do sertão nordestino.

O convite era híbrido. Assim como acontece nas comemorações de artistas de grande reconhecimento, os presentes receberam um convite físico no nome dos noivos, mas o endereço do enlace só foi revelado poucas horas antes do casório.

O mesmo acontecera com a lista de convidados. A festa para quase 200 convidados deixou de fora os amigos antigos de Lula e cortou políticos tradicionais. Privilegiou artistas jovens, conectados às pautas identitárias. O ex-BBB Gil do Vigor e o ator Paulo Vieira, acompanhado da namorada, deixaram o local com uma caixa de doces, assim como fazemos nas festas de parentes próximos.

Celulares foram proibidos. Assim que chegavam, os convidados deixavam os telefones na porta para serem guardados em envelopes brancos e devolvidos no final da festa. Os únicos registros fotográficos da noite são do fotógrafo oficial do ex-presidente, Ricardo Stuckert, já acostumado à produção de imagens míticas de Lula e hábil no manejo dos dois corpos do ex-presidente.

Da noite, restam as memórias. Na calçada, os jornalistas conseguiam ouvir a playlist da festa. Entre pancadões e hits do momento, vez ou outra, entrava o jingle da campanha "Lula Lá". Os convidados ainda levaram para casa uma lembrancinha. Um bordado, com as iniciais do casal, embaixo de uma frase: O amor venceu!

Não se sabe se é um fato, um desejo ou o mote da campanha que se aproxima.

Para apoiadores do casal, a esperança venceu o medo em 2002. Quem sabe o amor vencerá em 2022?

Desejo sorte ao trisal.