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Abolição, política e direitos individuais: Carnaval vai muito além da farra

Marcelo Justo/UOL
Bloco Filhos de Gil arrasta foliões pela avenida Sena Madureira Imagem: Marcelo Justo/UOL

Tiago Dias

Do TAB, em São Paulo

2019-02-28T04:00:00

28/02/2019 04h00

Todo ano eles fazem tudo sempre igual. No caso, o discurso de que o Carnaval é uma "festa da perdição", um retrato fiel de um povo alienado, que prefere a vida fácil regada a samba, suor e cerveja do que a indignação em massa com desastres criminosos, sucessivas crises políticas ou mobilização por debates importantes, como a reforma da previdência, por exemplo.

Essas críticas são uma pequena amostra, pinçada apenas nas redes sociais, de como uma parcela da população reage quando se aproxima no calendário a manifestação cultural mais popular do Brasil. Mas essa retórica que simpatiza com uma vida espartana é antiga e conhecida do historiador Luiz Antônio Simas, que neste ano mandou um recado público em seu Twitter para quem repetiu o pensamento:

Pesquisador de cultura popular, samba e Carnaval, o autor de "Dicionário da História Social do Samba", vencedor do Prêmio Jabuti em 2016, afirma que o conceito da festa ser um símbolo de alienação é um senso comum sem lastro histórico. Segundo ele, não faltam exemplos de momentos em que as dores e as delícias da trajetória nacional são sintetizadas na folia.

Na Bahia dos 1940, estivadores fundaram o afoxé Filhos de Gandhy após sofrerem com o arrocho salarial do governo federal. No alvorecer do AI-5 (Ato Institucional 5), a escola de samba Império Serrano, no Rio, botou na avenida, em 1969, o samba-enredo "Heróis da Liberdade", com versos que pareciam direcionados ao regime militar (ouça abaixo). Em 2019, o bloco Acadêmicos da Ursal estreou em São Paulo pegando carona na sigla fictícia que viralizou na fala do ex-candidato à presidência Cabo Daciolo, fazendo versões de marchinhas clássicas, como "O Teu Discurso Não Nega Machista".

O poder de rir e satirizar os assuntos "sérios" vem da época da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando a marchinha "Quem é o tal?" (de Ubirajara Nesdan e Afonso Teixeira) caiu na boca dos foliões ao ironizar Adolf Hitler:

"Quem é que usa cabelinho na testa?
E um bigodinho que parece mosca?
Só cumprimenta levantando o braço
Ê, ê, ê, ê! Palhaço!"

"É uma festa engajada que satiriza o cotidiano, a política e os costumes, o atual momento. Os sambas e as marchinhas são muito adequados à caricatura. [Tem] esse papel de cutucar a onça com vara curta", explica Simas.

Uma tradição presente em momentos cruciais da história. "A campanha abolicionista teve nas agremiações carnavalescas um amparo importantíssimo", afirma.

Enquanto uma caravana grita para cancelar o Carnaval, as ruas já recebem fantasias de laranjas e políticos presos, além de canções como a "dancinha da tornozeleira", "marchinha da arminha" e "marchinha do foro privilegiado", que se multiplicam também nas redes sociais.

"Eu não tenho a menor dúvida de que os melhores carnavais - parece um paradoxo - costumam acontecer nos momentos mais complicados", diz Simas.

Fábio Teixeira/UOL
Bloco Cordão do Boitatá, no Rio de Janeiro, em 2018 Imagem: Fábio Teixeira/UOL

Lucíola Vilela/UOL
Bloco Céu na Terra no pré-Carnaval do Rio de Janeiro este ano Imagem: Lucíola Vilela/UOL

A cidade e o corpo

A expectativa para 2019 ter uma festa memorável é simples: a folia não é apenas o gás necessário para lidar com as notícias ruins, mas uma das principais formas de praticar o pertencimento à cidade, conceito distante diante da crise de representatividade em outras esferas públicas, desde as câmaras municipais ao Congresso Nacional.

"A festa no Brasil tem essa instância civilizatória de ser um espaço de exercício de cidadania, de expressão via anseios", diz Simas. "Tem várias pulsões ali que estão interagindo nessa disputa. Então é a maneira de construir um certo pertencimento à cidade, que institucionalmente você não tem", completa.

Encarar ou não multidões e som alto é uma questão de gosto, mas para a cientista social Olga Rodrigues de Moraes von Simson, uma das maiores pesquisadoras da festa no país, as críticas feitas ao Carnaval mostram preconceito e desconhecimento da história, além de trazer algo mais enraizado: "Uma incapacidade nossa de se entregar ao prazer da dança e da música".

Hoje, numa civilização como essa em que ter poder significa possuir, aprender a participar do Carnaval ensina a criança e até o adulto o quanto importante é saber se relacionar, saber se integrar a um grupo, saber participar em conjunto de uma festividade que faz bem não só ao corpo, mas como também a alma

Olga Von Simson, cientista social

Marcelo Justo/UOL
Bloco Tarado Ni Você, de São Paulo, em 2018 Imagem: Marcelo Justo/UOL
Não à toa, a festa teve partes de sua história mutilada, repetindo a perseguição que movimentos e celebrações com foco no êxtase e na dança sofreram na construção da nossa civilização. Para Simas, é um ataque que visa apenas uma coisa: o nosso corpo.

"A domesticação do corpo é uma característica muito marcante do projeto colonial", afirma. "É o corpo adequado à lógica do trabalho. É o corpo domesticado pela lógica masculina. É o corpo domesticado pela expectativa reprodutiva que a mulher coloca no corpo feminino. É o corpo como pecado", completa Simas.

Isso explica a liberdade vista na rua durante a festa. Como um raro portal aberto, esse tríduo de momo parece permitir experimentações e até discutir temas, como sexualidade e gêneros, que organicamente não encontram eco no resto do ano.

"O Carnaval é uma festa de corporeidade, é uma festa de expressão, de uma forma de lidar com o corpo de forma livre, não domesticada, não normalizada, que sempre incomodou, não tenha dúvida. Então isso gera uma tensão muito grande", explica Simas.

Luciola Villela/UOL
Bloco Vem Cá, Minha Flor, coloriu as ruas do Rio de Janeiro em 2018 Imagem: Luciola Villela/UOL

Festa da carne

A ideia da festa como resistência está na origem do Carnaval. Olga Von Simson conta que, durante a Antiguidade, nos países nórdicos as pessoas se abrigavam em cavernas ou cabanas isoladas por causa do inverno rigoroso, levando consigo uma grande quantidade de carne para ser consumida moderadamente nesse período.

Quando tudo voltava à vida, na primeira lua cheia do mês de fevereiro, a carne que sobrava servia de banquete em uma grande festa em honra à deusa da fertilidade. "Esse grande consumo de carne se transforma na festa que é chamada de Carnaval", afirma a cientista social.

Por aqui, o Carnaval surge como uma celebração de pulsão de rua e tem sua origem no Entrudo, uma festa muito popular no Carnaval de Portugal, trazida para cá no século 16. Era um evento em que os brancos jogavam água perfumada e pós coloridos uns nos outros. Os escravos tinham papel secundário, auxiliando seus senhores nas batalhas aquáticas. "Mas terminado o Carnaval branco, eles se divertem entre eles nos chafarizes", conta a pesquisadora.

Apenas no fim do século 19, com a influência dos carnavais italiano e francês, é que a folia ganha status de beleza e sofisticação - começava ali a separação entre o Carnaval de elite, com desfiles no centro das cidades, e o Carnaval popular em bairros de imigrantes italianos, portugueses, espanhóis e negros.

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Bloco Ilu Inã desfilou na segunda-feira (26) durante o pré-Carnaval de São Paulo Imagem: Edson Lopes Jr./UOL

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Bloco Havayanas Usadas, em 2018, no Carnaval de Belo Horizonte Imagem: Alexandre Mota/UOL

O País do Carnaval (negro)

Olga Von Simson estuda o Carnaval desde os anos 1980. Ela dedicou boa parte da sua pesquisa para entender o desenvolvimento do Carnaval popular em São Paulo, traçando uma divisão histórica em duas cores.

A força do Carnaval negro ficou gravada com mais força. Essa vertente tem sua origem no samba rural que acontecia nas fazendas do interior paulista, na época dos ciclos da cana de açúcar e do café, como ela explica em sua obra "O Carnaval em Branco e Negro: Carnaval Popular Paulistano: 1914-1988" (Editora Unicamp, 2007).

Nessa época, por exemplo, era proibido em Campinas o passo da umbigada, movimento no qual um homem e uma mulher dançavam colados pelos quadris. "A igreja de Campinas proibiu porque achava a dança muito libidinosa", conta Olga. O passo seria uma reverência à mesma deusa da fertilidade homenageada pelos nórdicos.

"Aqui no Brasil, como em Cuba, no Haiti e alguns países da América Central, esse Carnaval também ganha uma importância muito grande por causa da contribuição do negro. O negro vai trazer a musicalidade, a capacidade de dançar no ritmo que o Carnaval europeu não tinha", diz. "Por isso que a gente se torna o País do Carnaval", completa.

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Ensaio do bloco Tarado Ni Você, em São Paulo, no pré-Carnaval deste ano Imagem: Edson Lopes Jr/UOL

Boom no Sudeste

O Carnaval de rua sempre foi muito forte em cidades como Olinda e Recife, em Pernambuco, e em Salvador, na Bahia, mas é no Sudeste que os blocos vivem uma renovação. Esse movimento começou no Rio de Janeiro, nos anos 1980, em resposta à centralidade excessiva dos desfiles de escolas de samba. O boom ressoaria anos depois em São Paulo e Belo Horizonte - capitais que há dez anos eram tidas como mortas durante a festa, mas que hoje são destinos para quem gosta de Carnaval.

Segundo a Prefeitura de São Paulo, o número de foliões quase triplicou em apenas um ano. Em 2017, cerca de 3,5 milhões de pessoas pularam o Carnaval nas ruas da cidade. Já em 2018, foram quase nove milhões. O que esperar então de 2019? Uma projeção das subprefeituras apontava um aumento de 60% no número de blocos para este ano. As definições de folia devem ser atualizadas nos próximos dias.

"O que dá vivacidade a essa festa ainda é um grau de espontaneidade muito grande que ela tem. Precisa manter essa pulsão em ruas cada vez mais disciplinadas, em cidades cada vez mais pensadas como pontos de passagem, não como ponto de encontro. É preciso estar atento a isso", afirma Simas.

O historiador repete o que disse no Twitter semanas antes de o Carnaval começar. Segundo ele, foi o que ouviu quando pesquisava sobre os blocos de rua da década de 1920 no Rio de Janeiro. "Era muito constante o discurso de que a vida era tão complicada, mas tão complicada, que eles criaram instâncias de sociabilidade em torno da festa", afirma.

É como se fosse preciso dançar na rua para conseguir manter a vivacidade durante o resto do ano. "Com o sentido de respiro no meio do turbilhão, a festa é uma instância de sobrevivência", completa. Na Quarta-Feira de Cinzas, a vida continua.

Mariana Pekin/UOL
Foliões pegam ônibus na dispersão após desfilarem no Anhembi, em São Paulo, durante o Carnaval de 2018 Imagem: Mariana Pekin/UOL

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