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Rave de ativistas digitais em SP fica sem convidado principal após prisão

Divulgação
Participantes da CryptoRave em São Paulo dançam na pista depois de horas e horas de palestra sobre segurança digital Imagem: Divulgação

Bianca Borges

Colaboração para TAB, em São Paulo

2019-05-08T04:02:00

08/05/2019 04h02

Teve música eletrônica com DJ usando colar de luzes de LED. Teve público de cabelo colorido balançando na pista. A animação contrastava com a seriedade das palestras, como o controle de Estados e corporações sobre as pessoas nos ambientes digitais.

Tamanha vigilância que até o principal convidado da CryptoRave, em São Paulo, não pode participar porque foi preso pelo governo do Equador. Na madrugada do dia 6 de abril deste ano, o desenvolvedor de software sueco Ola Bini comemorou, em uma tuitada, que dali a um mês estaria no Brasil para dar uma palestra no evento sobre segurança digital, realizado anualmente, em São Paulo. "[Estou] Realmente ansioso por isso."

Alguns dias depois, o ativista de direito à privacidade na web foi detido pela polícia local no aeroporto de Quito, onde morava, quando estava indo para o Japão, participar de simpósio, três dias após o fundador do Wikileaks, o australiano Julian Assange, ser preso pela polícia inglesa após o Equador retirar seu asilo na embaixada do país sul-americano em Londres.

O programador sueco vivia no Equador há cinco anos, onde trabalhava na construção de ferramentas de softwares livres para uso global - o país seria o "paraíso da segurança" para desenvolver ferramentas de privacidade, mas com a mudança do governo do presidente Rafael Correa, para Lenín Moreno, esse cenário foi alterado.

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Apesar de ter permissão para viver e trabalhar no país sul-americano, Ola Bini foi acusado de colaborar com Assange e tramar contra o atual governo do Equador. Foi realizada uma busca na casa do suspeito e, apesar de nada ter sido encontrado, ele foi acusado sem provas. Pesaram contra o ativista a existência de "muitos equipamentos" em sua residência.

Por ter participado de edições anteriores e ser o mais novo símbolo da luta global travada por ciberativistas, ao lado de Edward Snowden, Chelsea Manning e o próprio Assange-, o programador sueco foi escolhido como destaque na abertura da CryptoRave, deste ano.

Os organizadores do evento leram uma carta escrita pelo ciberativista em que ele afirma que as "autoridades se atreveram a encarcerar sem provas" e "confundir o trabalho de privacidade e segurança com uma atividade criminosa".

Cripto o quê?

A criptografia é um mecanismo usado em softwares para cifrar, isto é, embaralhar uma mensagem. É o que utilizam o aplicativo Whatsapp e o navegador Tor, considerado um software "livre" e de código aberto, por possibilitar uma comunicação segura e anônima para o usuário.

"A privacidade na rede tem um aspecto político muito importante. Quando uma pessoa comum usa criptografia, significa que um poderoso não poderá acessar o conteúdo que ela está trocando ou de que forma está se organizando", exemplifica Gustavo Gus, um dos organizadores do evento.

De acordo com ele, a prisão de Ola Bini explicita o fato de que vivemos hoje uma nova criptoguerra. "A criptografia é uma pauta política que nos remete às criptoguerras travadas nos anos 1990, pelo governo dos Estados Unidos, quando teve início a batalha entre o Estado e a sociedade, em que diversos profissionais de informática passaram a ser processados e perseguidos, sob a alegação de exportar tecnologia militar para outros países".

O evento atrai muitos profissionais de tecnologia da informação, interessados em participar dos debates sobre o uso massivo de criptografia como ferramenta para a garantia dos direitos civis, vigilância do Estado, oficina de senhas seguras, privacidade, hacking, bots, cyberintrusers, inteligência de dados e algumas piadinhas nerds.

A ideia da CryptoRave, que se encerrou no último domingo, é promover um evento ininterrupto que, ao longo de 36 horas, são apresentadas palestras e debates simultâneos, com a presença de profissionais e ativistas de segurança e privacidade digital, culminando em uma festa regada a música eletrônica e projeções visuais cuja estética sugere um futuro distópico.

A organização é feita por meio de coletivos e grupos que contam com a ajuda de diversos voluntários engajados na causa e interessados em ajudar a disseminar os valores do evento - a maioria deles participou de edições anteriores como público antes de se voluntariar.

Paranoia never ends

Além do uso da criptografia como uma pauta política, o evento atrai outras lideranças e representantes da sociedade civil, interessados na discussão de temas igualmente urgentes e relevantes, como a liberdade na web, o Marco Civil da Internet e a neutralidade de rede. São não apenas desenvolvedores de softwares e ferramentas, como também advogados, ativistas e jornalistas engajados na construção de uma esfera livre e segura para transmissão de informações e circulação de dados.

O que se sabe de definitivo, quando falamos de internet, é que não há nada em que se possa confiar totalmente. O que existe são níveis, uma escala crescente de mais ou menos seguro. Mas para organizações, ativistas e jornalistas que precisam proteger suas fontes e a própria identidade, pode fazer toda a diferença.

"Quais as vantagens de estar em um modo de navegação totalmente anônimo?", pergunta o palestrante da mesa "Usando tails para navegação anônima e armazenamento criptografado". Ora, você pode esconder de empresas e governos suas preferências e hábitos de consumo, evitando a comercialização de seus dados ou a revelação de que você gosta de panetone com passas, por exemplo. "Pode ser útil para que ninguém saiba que eu gosto de passas na comida", responde alguém na plateia. O palestrante concorda. "Ou para ninguém saber que eu leio livros considerados de esquerda, por exemplo", complementa.

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