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Path: Cinema negro reivindica espaço negado na produção nacional

Palestra "Como o cinema negro vem se desenhando no Brasil?" no Festival Path - Iwi Onodera/UOL
Palestra "Como o cinema negro vem se desenhando no Brasil?" no Festival Path Imagem: Iwi Onodera/UOL

Bianca Borges

Colaboração para o TAB, em São Paulo

02/06/2019 23h30

Foi só no ano passado, após o lançamento do filme "O Caso do homem errado", de Camila de Moraes, que muita gente se deu conta da escassez de mulheres negras por trás das câmeras no setor audiovisual. Não bastasse o fato de ser este apenas o segundo longa-metragem dirigido por uma mulher negra em toda a história do cinema brasileiro, há ainda um intervalo de mais de três décadas entre o filme de Camila e "Amor Maldito" (1984), da pioneira Adélia Sampaio.

Os abismos sociais, raciais e de gênero da produção audiovisual nacional pautaram a discussão entre o produtor audiovisual Fábio Rodrigo, o cineasta Renato Cândido e diretora Day Rodrigues - que fez a medição da conversa - na mesa "Como o cinema negro vem se desenhando no Brasil?".

A cineasta, produtora e escritora Day Rodrigues - Iwi Onodera/UOL
A cineasta, produtora e escritora Day Rodrigues
Imagem: Iwi Onodera/UOL

A mesa foi uma das últimas deste domingo (2), na programação do Festival Path, o maior evento de inovação e criatividade do Brasil, realizado neste final de semana, na região da Avenida Paulista, em São Paulo. A edição deste ano teve apresentação do TAB.

Ainda na primeira parte da conversa, a mediadora apresentou uma pesquisa divulgada pela Ancine, em janeiro de 2018, com os números das produções brasileiras lançadas em 2016, segundo um recorte de raça e gênero. De acordo com os números, enquanto os diretores brancos concentram 75% das realizações, não houve um único longa-metragem lançado por uma diretora negra no período observado. As produções de mulheres brancas corresponderam a 19%, e as de homens negros, 2%.

Resistências e políticas culturais

Há algum tempo, a produção audiovisual brasileira vive uma fase crítica. Em meio ao temor dos profissionais do setor ante os cortes sistemáticos de verbas que vêm sendo aplicados à Ancine nos últimos anos e, em especial, após a eleição do presidente Jair Bolsonaro, surgiram alguns movimentos pontuais que reivindicam mais espaço e visibilidade. Dentro dessa luta, as redes sociais têm cumprido uma função aglutinadora importantíssima, que ainda pode ser mais explorada, na visão de Fábio Rodrigo.

"As redes sociais são ferramentas poderosíssimas de engajamento. É muito mais fácil entrar em contato com essas pessoas que a gente quer atingir por meio do YouTube do que por um ingresso de cinema, por exemplo", avalia ele, que define o cinema negro como um instrumento de comunicação de massa.

Fábio Rodrigo no Festival Path - Iwi Onodera/UOL
Fábio Rodrigo no Festival Path
Imagem: Iwi Onodera/UOL

"Apesar da dificuldade que ainda temos de encontrar o público, o cinema negro é uma ferramenta política e de caminho para a nossa comunidade. Acredito que fazer cinema ainda é muito complexo. Mas, a partir do momento que a gente conseguir se organizar, fazer da forma que já estamos fazendo e encontrar as pessoas que estão do nosso lado, falando uma linguagem direta, teremos em mãos o maior meio de falar com elas e exigir um posicionamento social e político", defende Rodrigo.

Outro esforço entre os realizadores é o de produzir narrativas que fujam de visões estereotipadas (e já consagradas no imaginário coletivo) da comunidade negra, em especial de mulheres. "No meu trabalho, sempre busco uma abordagem mais propositiva e acredito que é importante nós, negros, não nos restringirmos a narrativas de violência e de dor, porque para além disso, existimos e somos potência", aponta Day Rodrigues.

Cineasta Renato Cândido  - Iwi Onodera
Cineasta Renato Cândido
Imagem: Iwi Onodera

Outra preocupação é com os diferentes papéis exercidos por profissionais negros na formação das equipes. "Se a sociedade tenta reproduzir a segregação racial, o mesmo ocorre em um set de filmagem, em que há muito mais negros em funções como contrarregra, eletricista, carregadores, puxando cabos... Enquanto tornou-se 'natural', para a branquitude, olhar para o homem branco como a pessoa que pensa, de forma artística, a produção audiovisual", analisa Renato Cândido, membro da Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN).

Para Day, é importante fazer uma leitura cuidadosa da expressão "cinema negro", no sentido de não estabelecer uma divisão. "Que ele não seja lido como algo que quer se separar do cinema nacional ou das produções de brancos, mas como uma forma de reivindicar, de reforçar um lugar que nos é negado. Para pensarmos de um modo em que os brancos também se incluam, e possamos rever essa sociedade, que ainda é racializada".

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