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Por que faz sentido usar #PrayForAmazonia nas redes sociais?

Claudia Martini/Futura Press/Folha
Imagem: Claudia Martini/Futura Press/Folha

Kaluan Bernardo

Do TAB, em São Paulo

26/08/2019 13h19

Tal como um incêndio florestal, o debate digital sobre as queimadas na Amazônia alastrou-se rapidamente. Apenas entre as manhãs da última terça-feira (20) e da sexta-feira (23), a discussão foi tuitada em mais de 150 países, enquanto a Amazônia foi citada ao menos 15 milhões de vezes em português, inglês, francês e espanhol.

No centro desta discussão estava a hashtag #PrayForAmazonia (reze pela Amazônia, em tradução livre) que foi mencionada 3,65 milhões de vezes. Na sequência, vieram as hashtags #PrayForAmazonas (2,36 milhões de menções) e #AmazonRainForest (980 mil menções). Os números foram levantados pela DAPP-FGV (Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas).

Curiosamente, o Brasil não foi o país que mais comentou sobre o assunto. Os EUA foram os que mais mencionaram as florestas amazônicas, seguidos pelo Brasil, Reino Unido, Argentina e México. "Como os EUA têm uma atividade mais forte nas redes sociais em geral, além de grande força cultural, muito do debate brasileiro é alimentado pelo estadunidense e vice-versa. Qualquer debate internacional tem a presença dos EUA", comenta Lucas Calil, coordenador de linguística na DAPP-FGV e um dos responsáveis pelo levantamento.

O fato de uma hashtag ter sido usada em inglês também colaborou para a internacionalização da discussão. Deu resultado: entre os estrangeiros que comentaram sobre o tema, algumas personalidades se destacaram: Madonna, Cristiano Ronaldo, Kylian Mbappé, Lewis Hamilton, Leonardo DiCaprio e Gisele Bündchen, tuitaram sobre o assunto. O presidente francês, Emmanuel Macron, tuitou em inglês com uma hashtag mais incisiva: #ActForTheAmazon (aja pela Amazônia, em tradução livre).

De acordo com Calil, a hashtag ajuda a amplificar o debate justamente por conta da sua função de agregar posições. "Ela demarca de forma simples uma opinião. Você não precisa dissertar sua opinião no tuíte inteiro - a hashtag já te inclui naquele ponto de vista", diz. "A hashtag faz com que um viés na discussão ande e chegue a outras pessoas e lugares", comenta. No entanto, a discussão não acaba aí: ela circula por outras redes sociais, para fora da internet e expande a discussão.

Sinal disso são os protestos que acontecerem no Brasil e no mundo - em parte alimentados pela discussão online. Na sexta-feira (23), aconteceram manifestações em cidades como Londres (Reino Unido), Paris (França), Madri (Espanha), Dublin (Irlanda), Barcelona (Espanha), Lisboa (Portugal), Berlim (Alemanha), Genebra (Suíça), Nápoles (Itália), Amsterdã (Holanda). No mesmo dia, também aconteceram protestos em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. A capital carioca ainda teve uma segunda manifestação no domingo, reunindo políticos e artistas e com público estimado de 15 mil pessoas.

"Expressões como 'ativismo de sofá' apontam para uma dicotomia que não existe. Os fatos se dão em um contínuo, de forma que a internet não é usada apenas para marcar protestos, mas também para formar opinião", diz Mariana Valente, diretora da InternetLab, centro de pesquisa independente em direito e tecnologia.

No entanto, é necessário mais do que uma hashtag popular para que a discussão ganhe força - tanto na internet quanto fora. "Se a gente cria uma hashtag que viraliza, mas não tem lastro nas necessidades, angústias, preocupações e carências das pessoas, elas não vão para as ruas. Esta conexão tem que ser ponderada o tempo inteiro", diz Valente. "A internet não só tem o papel de organizar e dar informações sobre o protesto, mas também os cidadãos a utilizam para formar e dar uma voz ao seu descontentamento. Isto também é lastro", conclui.

Foco de incêndio na floresta amazônica, perto de Humaitá - Ueslei Marcelino - 17.ago.2019/Reuters
Foco de incêndio na floresta amazônica, perto de Humaitá
Imagem: Ueslei Marcelino - 17.ago.2019/Reuters

Hashtags também mostram polarizações

Diferente de redes como Facebook, Instagrarm, WhatsApp e LinkedIn, o Twitter tem uma estrutura voltada ao debate público. A maioria do conteúdo na rede é público e o dinamismo da plataforma favorece seguir desconhecidos. Por isso, mesmo que seja menos popular do que concorrentes, o Twitter funciona como termômetro de debates.

Na sexta-feira a hashtag #MacronLies (Macron mente, em tradução livre) estava nos trending topics mundiais. Usuários do Twitter acusavam o presidente por conta da imagem que ele utilizou para ilustrar seu tuíte: uma fotografia feita pelo fotojornalista Loren McIntrye, da National Geographic, que morreu em 2003. Não só Macron, como também Madonna, Cristiano Ronaldo, Leonardo DiCaprio, Gisele Bündchen utilizaram ou imagens antigas ou de outros lugares.

O erro de Macron serviu de munição de contra-ataque do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro. "O tom sensacionalista com que [Macron] se refere à Amazônia (apelando até p/ fotos falsas) não contribui em nada para a solução do problema", tuitou. Três dias antes Bolsonaro postou um vídeo da Dinamarca para criticar a Noruega, após esse país suspender recursos para o Fundo Amazônia.

Acostumado a se comunicar com seu eleitorado pelo Twitter, Bolsonaro viu essa mesma rede social ser palco de seu primeiro grande revés internacional, pressionando-o a fazer um pronunciamento em rede nacional anunciando medidas emergenciais.

Para Valente, erros nas imagens postadas não invalidam o debate embora criem ruídos. "Não acho que usarem uma imagem antiga apaga a mensagem. A imagem pode ser ilustrativa", comenta. Segundo ela, no calor do debate, as pessoas se apressam para se posicionar e, muitas vezes, erram ao não apurar o suficiente a informação.

Calil acredita que a imprecisão enfraquece qualquer debate. "A discussão amazônica é importante e precisa ser reiterada. Mas a desinformação - seja por uma boa causa ou não - é problemática. Deixa de gerar consensos que poderiam ser importantes. A discussão se desvirtua e passa a ser sobre a imagem ser verdadeira ou não", comenta.

Justamente pela função de agregar opiniões e marcar posicionamentos a respeito de determinado tema, a hashtag acaba funcionando como uma camisa de futebol em um estádio: ela ajuda a fortalecer um determinado prisma da discussão em virtude de outro.

"Como a rede permite que as pessoas se unam por interesses, ela junta pessoas no mundo todo que compartilham a mesma ideia dentro do debate. E, como permite a formação de espaços, possibilita também o surgimento de novas narrativas e performances.", diz Valente.

É aí que, muitas vezes, as hashtags deixam de ser meramente uma opinião ou um debate sobre o assunto e se tornam verdadeiras bandeiras de guerra. Nascem as batalhas de hashtags - como o caso de #MacronLies contra #PrayForAmazonia.

O principal campo de batalha desta guerra no Twitter são os trending topics. Eles não mostram necessariamente os assuntos mais comentados: a rede social emprega algoritmos para identificar quais são os debates que estão crescendo mais rapidamente. "Ainda assim, os trending topics chamam a atenção. São um norteador de determinadas pautas. Se você está predominando lá, dá a sensação e estar ganhando a discussão. Isso não é necessariamente verdade, mas nesses casos o sentimento é importante porque ajuda a disseminar certo tipo de posicionamento", comenta Calil.

O importante, na avaliação de Valente, é que a hashtag em um trending topic funciona como uma forma de "furar a bolha". Enquanto as redes sociais em geral se alimentam pelo viés de confirmação, exibindo conteúdos que já estejam alinhados com as preferências do usuário, os trending topics mostram que sempre há um outro lado na discussão. "Se eu não estiver em nenhum grupo que apoia ou critica o Bolsonaro neste momento, eu não vou seque ver qual é a narrativa do outro lado. O trending topic me dá essa possibilidade", defende.

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