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Eles saíram de cidades destruídas. Hoje consertam celular na Santa Ifigênia

Os primos Ahmad Alnezame e Mouawia Juha, refugiados sírios que trabalham em estande rua Santa Ifigênia, em São Paulo - Jardiel Carvalho/UOL
Os primos Ahmad Alnezame e Mouawia Juha, refugiados sírios que trabalham em estande rua Santa Ifigênia, em São Paulo Imagem: Jardiel Carvalho/UOL

Por Marcelo Tuvuca Freire

Colaboração para o TAB

11/09/2019 04h00

"Tá procurando o quê, grande? Desbloqueador de canal, game, consertar celular? Eu posso te ajudar!" A abordagem insistente é uma das principais marcas da rua Santa Ifigênia, tradicional ponto de comércio e assistência técnica de produtos eletrônicos no centro de São Paulo. Mas algo mudou na demografia dali. Ao lado do português e do chinês, agora também é muito comum ouvir o árabe pelas calçadas e corredores das galerias.

Refugiados sírios já são um dos principais rostos no comércio popular de São Paulo, onde reconstruíram a vida longe de casa. A presença da comunidade árabe por ali não é nenhuma novidade - imigrantes libaneses e sírios sempre foram importantes no comércio da capital paulista.

As caras novas são principalmente sírios que chegaram a partir de 2011, fugindo da guerra civil que assolou seu país na última década e que ainda causa efeitos na população. A onda migratória puxada pela crise humanitária na Síria é pano de fundo de "Órfãos da Terra", novela das seis da TV Globo, cujo último capítulo está previsto para ir ao ar no fim de setembro. O sucesso da trama puxou o termo "refugiados" para o topo das buscas do Google.

Coisa de primo

Ahmad Alnezame, 17, desembarcou há poucas semanas em São Paulo. Ele trabalha com o primo Mouawia Juha, 30, dono da loja M.B., localizada na galeria 276. "Ele não fala quase nada de português", explica Juha à reportagem. Ahmad se comunica basicamente com gestos. Para entender o que diz um brasileiro quando não tem o primo para ajudar, ele usa o microfone do celular e um tradutor online instantâneo.

Apesar das dificuldades, ele sorri constantemente e faz gesto de positivo. Diz que está animado com o Brasil - seu primo deu boas referências.

Mouawia Juha chegou ao Brasil em 2015 como mais um refugiado sírio fugido da guerra civil que começava a destroçar o país. Sua casa na capital Damasco foi atingida por bombas, e ele percebeu que não havia mais o que fazer ali. No caminho passou por Beirute, no Líbano, onde foi pedir refúgio na Embaixada brasileira.

Há quatro anos Juha trabalha na Santa Ifigênia, por indicação do irmão. Tem certa dificuldade no português, mas compreende os clientes e escolhe bem as palavras para garantir que seja compreendido. Ele já se acostumou com o ambiente e é sempre procurado pelos clientes.

"Eu gosto de trabalhar aqui. Arrumo de tudo... celular, tablet. Aprendi aqui mesmo. Como sai modelo novo todo mês, a gente está sempre aprendendo", conta.

Morador do bairro de Santa Cecília com a mulher, possui a Carteira de Registro Nacional Migratório (antigo RNE - Registro Nacional de Estrangeiro) que autoriza sua residência no país. Cerca de sete anos depois de fugir da guerra, define sua vida em São Paulo como relativamente tranquila. "Tenho trabalho, então a vida está boa", resume.

O papo é reto

A loja de Juha e Ahmad está fechada em plena sexta-feira à tarde. "Eles foram à mesquita rezar", explica uma lojista brasileira. Retornam horas depois, almoçando uma marmita que mistura frango e peixe.

Juha compra um telefone celular novo de um fornecedor. O homem tenta ficar com parte da nota fiscal, receoso pelo fato de ela expor seu CPF. Juha insiste em ficar com o comprovante completo.

"Eu preciso da nota. Sabe por quê? Se a polícia entrar aqui e eu não tiver nota de cada produto, eles vão levar a mercadoria. Eu preciso da nota, amigo."
Mouawia Juha, negociando com seu fornecedor

O sírio se mostra irredutível. Relutante, o homem aceita os argumentos e vai embora apenas com uma foto da nota.

Apesar da adaptação ao comércio de rua brasileiro, de conversa e negociação, os sírios não são muito afeitos ao famoso jeitinho brasileiro. Com eles, o papo é reto.

Diferentemente do islâmico Mouawia Juha, Pierre Bieralsamaan, 25, é cristão. Mas ele também não dá muita bola para clientes que tentam ganhar desconto na lábia. Um homem pergunta o preço de uma caixa de som em sua loja, chamada Yamama, na galeria 600. Preço: R$ 80.

"Não, eu paguei R$ 60 por uma igualzinha a essa. E eu ainda comprei lá no interior do Piauí!", diz o cliente. "Amigo, eu paguei R$ 65 nela, não tem como eu te cobrar menos", responde. O negócio não sai. O sírio se vira para o repórter e diz: "É impossível ele ter pago R$ 60, é mentira".

Bieralsamaan é ligeiro no trato com os clientes. Mas, no geral, diz gostar bastante dessa lida. O refugiado veio de Homs, mais uma das localidades históricas da Síria que foram destruídas durante a guerra civil, no confronto entre grupos rebeldes e as forças do ditador Bashar al-Assad.

"A gente tenta explicar tudo do produto para ele, direitinho. Damos garantia. A gente faz um bom atendimento para ele voltar, que é o que importa. Não fico ligando para o dinheiro."
Pierre Bieralsamaan

Quando morava na cidade, Bieralsamaan trabalhava na oficina mecânica da família. Ele tem saudades do país, mas diz que não voltaria a morar lá. "Só para passear e ver a família. Lá é ruim. Às vezes não tem água, ou não tem energia. Aqui eu tenho a minha loja." Mas ele reconhece que as coisas estão melhorando na Síria. "Os turistas voltaram a visitar o país, e isso é muito bom."

Os refugiados sírios Pierre Bieralsaman, Nbras Rezek e Wesam Nabke - Jardiel Carvalho/UOL
Os refugiados sírios Pierre Bieralsaman, Nbras Rezek e Wesam Nabke
Imagem: Jardiel Carvalho/UOL

Em São Paulo, o refugiado conquistou também uma namorada brasileira, que conheceu no balcão da loja. "Era uma cliente. Ela disse que eu era bonito e perguntou se eu queria namorar. E eu respondi que sim. Tudo na brincadeira." A brincadeira deu jogo. "A gente se falou por WhatsApp e começou a namorar mesmo. Faz nove meses."

Ele usa uma camiseta do Barcelona, faz piada e pose de jogador de futebol na hora de tirar foto para a reportagem, enquanto brinca descontraído com outros jovens refugiados que trabalham na galeria 600.

O país ajuda, os refugiados agradecem

Alguns refugiados não topam falar. Nbras Rezk, 24, é dos mais abertos. Ele está há seis anos no Brasil e hoje trabalha na Síria Eletrônicos com Wesam Nabke, 23, o proprietário.

Não se esquiva ao reclamar do baixo movimento da Santa Ifigênia nos últimos tempos. "Olha isso aqui, não tem ninguém", diz, apontando para as poucas pessoas que transitam no local na tarde de sexta-feira. "Caiu demais [o movimento]. Antigamente era muito melhor, lotado de gente."

Essa situação complicada faz o refugiado cogitar sair do Brasil. Mas ele também se mostra grato ao país. "O Brasil deu muita ajuda para a gente. Muito mais que os [países] árabes. Aqui tem mais simpatia, o pessoal é mais aberto." A comparação do Brasil com países árabes vizinhos da Síria é feita, também de forma espontânea, por Mouwaia Juha.

"Aqui é muito legal, melhor que o Catar, Dubai e Arábia Saudita. Eles são árabes, mas não ajudam nada. O Brasil ajuda e concede os pedidos de refúgio."
Mouawia Juha

Mohamad Mulhem, 29, há três anos no Brasil, pensa igual. Diz gostar muito das pessoas daqui. Tem uma namorada brasileira, seu português é fácil de entender. A única ressalva ao país, particularmente a São Paulo, é a falta de segurança nas ruas. "Não dá para andar à noite aqui no centro, não consigo fazer nada aqui. Na Síria, antes da guerra, era mais seguro", diz ele.

Mulhem veio de Damasco, onde viu as bombas caindo pela cidade e se acostumou a ver escombros - e corpos - pelas ruas que se transformaram em campos de batalha. É outro que só pensa em voltar para a Síria a passeio.

No Brasil, tentou atuar como designer gráfico, a profissão que escolheu, mas encontrou dificuldades. Chegou à Santa Ifigênia para trabalhar com Hani Abo Kersh, 35, dono da loja H.A.K. na galeria do número 15. Eles são antagônicos: enquanto Mulhem aceita imediatamente o pedido de entrevista, Kersh se recusa e só conversa informalmente. Mas, educado, atende à reportagem e topa sair nas fotos, além de oferecer um café de cortesia.

Ao contrário da galeria 600, o movimento nos primeiros quarteirões da Santa Ifigênia é mais intenso. Kersh e Mulhem estão o tempo inteiro consertando telas de celular e outros equipamentos. São reconhecidos por clientes e zombados pelos lojistas vizinhos quando posam para as fotos. Há leveza, simpatia e descontração no rosto dos sírios e dos comerciantes brasileiros (e chineses) que acompanham os registros.

Status de refugiado

A ONU estima que pelo menos 6,7 milhões de sírios deixaram o país por causa da guerra civil. No Brasil, o Conare (Comitê Nacional de Refugiados) reconheceu 3.326 sírios como refugiados entre 2011 (quando o conflito começou) e 2018.

Em um estudo que traçou o perfil socioeconômico de 487 refugiados no Brasil, a Acnur, a agência da ONU que cuida dos refugiados, entrevistou 153 sírios que estão no país sob essa condição.

A pesquisa mostrou que a maior parte está trabalhando, contribuindo com uma renda domiciliar que está, em média, na faixa entre R$ 1.000 e R$ 3.000. Quase todos os refugiados ouvidos pela pesquisa disseram que desejam obter a nacionalidade brasileira e permanecer vivendo no país.

O comércio popular da Santa Ifigênia, da rua 25 de Março e do bairro do Brás foram destinos comuns dos refugiados sírios na capital paulista, principalmente nos anos de economia aquecida, pré-2015.

"Agora, eu gosto da vida"

Como professora de história e geografia na Síria, Rama Alomari, 33, tinha uma vida tranquila. Morava no centro de Damasco, em um país que considerava bonito e tranquilo.

Tudo mudou com a guerra. Cada volta para casa do trabalho era uma ameaça, isso quando ainda havia trabalho disponível. Em 2017, uma bomba atingiu Rama e suas filhas de 3 e 5 anos. Ela sofreu um grande corte na mão, cuja cicatriz permanece, mas toda a tensão se concentrou nas filhas. Uma delas perdeu o olho esquerdo e teve um corte na barriga; a outra machucou perna e mão. Era hora de deixar o país.

Sua saída também foi via Beirute, em meio a períodos em hospitais e idas e vindas entre Síria e Líbano, até que a permissão fosse concedida pela Embaixada brasileira. E o primeiro ano aqui não foi fácil: em 2018, sem o marido (com quem não tem mais contato), ela precisou se desdobrar para cuidar das filhas e também da mãe, que tem câncer.

A refugiada síria Rama Alomari trabalha na empresa de RH Foxtime - Jardiel Carvalho/UOL
A refugiada síria Rama Alomari trabalha na empresa de RH Foxtime
Imagem: Jardiel Carvalho/UOL

Rama começou trabalhando com comida, mas teve dificuldades por não conseguir movimentar a mão esquerda. Rama ainda frequentou vários hospitais para completar os tratamentos da mãe e da filha, que conseguiu uma prótese para o olho esquerdo. "Fiquei um ano em casa, sem dinheiro, sem emprego, sem nada. Foi triste."

A mudança aconteceu quando ela ficou sabendo de um programa da Acnur chamado Empresas com Refugiados, que estimula a contratação dos migrantes. Rama passou por duas entrevistas e conseguiu uma vaga na consultoria de recursos humanos Foxtime. Da carreira de professora, a síria migrou para o trabalho com os setores administrativo e financeiro das empresas.

Hoje, sua vida é outra. Adaptada e querida na empresa, onde trabalha há um ano, Rama só tem palavras de gratidão. Ela diz que a ajuda que recebeu foi muito além do trabalho; as colegas também a auxiliaram na hora de entender as contas e as burocracias da vida em São Paulo.

Seu português soa fácil e quase natural. Ela diz que vive muito a cultura do Brasil e tem pouco contato com outros sírios. Sua vida é muito mais as amigas que conheceu no país - particularmente na empresa. Ela diz que o ambiente ali é de uma verdadeira família. "Não há ciúmes, todo mundo se ajuda", diz.

Rama também considera o Brasil um país muito mais acolhedor do que os outros que conheceu. Ela não viu discriminação aqui. "O Brasil abraça todo mundo. Não sei se os brasileiros sabem o quanto o país é bom. Aqui tem liberdade."

"E ajudam todo mundo. Me abraçam, abraçam minhas filhas. Consegui trabalho, amigos, comida, tratamento. Agora, eu gosto da vida."

Rama Alomari

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