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Cenário de matança, Paraisópolis tem batalha mensal, mas a arma lá é a rima

Participantes da Batalha de Paraisópolis posam após uma edição mensal do evento - Gulira Fotos
Participantes da Batalha de Paraisópolis posam após uma edição mensal do evento Imagem: Gulira Fotos

Glória Maria

Colaboração para o TAB

22/12/2019 04h01

Ser jovem em Paraisópolis é passar perrengue, é não ter muitas opções de futuro, é trampar pra ganhar um salário mínimo, pagar aluguel de 500 contos, chegar em casa após as 22h e não ter mais água. É acordar cedo para ir a um curso e levar enquadro da polícia, que ameaça forjar um B.O. e cortar seus dreads na delegacia.

Ser jovem também é ainda ter esperanças, é acreditar no aprendizado através da nossa literatura marginal, é traficar rimas, é desenvolver nossas crias a partir da arte. Meu nome é Glória Maria, sou jornalista, produtora cultural e organizadora da Batalha de Paraisópolis. Moro no bairro que foi cenário da matança de nove jovens neste mês em uma festa funk durante uma repressão policial. Lá também é local de luta, expressão cultural e muitos versos. Sem espaços culturais, a arte é feita nas quadras, campinhos, ruas, onde der.

Quando queremos ouvir um som e dançar, é hora de ir ao clássico baile da DZ7. São ruas tomadas por jovens de diferentes regiões. Rolê barato, rolê acessível. Ponto de encontro com os parças. É o momento de diversão. E vai até o amanhecer. Mas também é o sustento de muitas famílias. A baile não deixa ninguém parado, inclusive a economia local.

Geralmente, a polícia chega e "moía", dispersando o baile com gás lacrimogênio. Depois tudo volta e rola normalmente. Dia 1 de dezembro não foi assim. Foi chacina! Foi criminalizar e matar quem é pobre, quem é negro. Estamos de luto.

Todo negro é suspeito ocupado a esta altura. Eu podia ser preso em casa, na sala, no quarto, dormindo, no banho até no almoço. Tiveram meu retrato falado, e pela madame todo irmão meu se parecia com esboço. Irmãos meus viraram monstros sem rosto. Paraisópolis minha casa, espaço onde cresci e aprendi sobre o respeito e a humildade.

Dose de Ódio, de Mike Johnnatan, do grupo Inconvencional

"Sistema só financia morte dos meus parceiros/Enterro sem sepultura." A frase da música "Life Motherfucka", do grupo Inconvencional grupo independente da comunidade formado por jovens que sonham viver do rap. Só sente a dor na pele quem perde tudo o que se acha importante, como a mãe que perdeu o filho assassinado pelo Estado.

Não iremos parar ou nos calar. Iremos agir para que haja justiça e que a responsabilidade venha ser cobrada, em vários sentidos, desde espaços de lazer, saneamento, saúde, educação e tudo aquilo que é direito e dever do estado.

A guerra só de versos

A batalha de rimas reúne muitos jovens. É um momento de lazer e de desenvolvimento, tudo na base do improviso. É um projeto cheio de sonhos.

Em 2014 foi um ano de muito estranhamento. Foi quando cheguei a Paraisópolis, zona sul de São Paulo. Vinda de Brasília, estava acostumada com território totalmente diferente deste.

Entrar na escola pública e sobreviver a violência doméstica fez com que meus olhos enxergassem aos poucos o absurdo das desigualdades entre gêneros, raças e classes. Vi de perto o contraste absurdo entre Paraisópolis e Morumbi.

Pessoas passam por viela de Paraisópolis, segunda maior favela de São Paulo - Gulira Fotos
Pessoas passam por viela de Paraisópolis, segunda maior favela de São Paulo
Imagem: Gulira Fotos

Nesse despertar em um mundo injusto, caótico e doloroso, comecei a pensar sobre meu papel no mundo, o meu lugar como mina preta e periférica. Iniciei trabalhos na escola onde estudava, rodas de conversas sobre descriminalização do aborto, feminismo, população negra, entre diversos temas e dinâmicas. Em seguida veio as ocupações, experiência que foi um BUM para muitos jovens, em relação a autoconhecimento e as lutas coletivas.

Quando eu estava finalmente saindo de um cenário de violência, quis criar um projeto, o primeiro pensamento que tive foi de que a maior periferia de São Paulo e com tantos jovens não tinha um evento como este, que incentivasse nossos artistas, e tivéssemos esse espaço para expressarmos, focando no rap.

E por que resolvi trampar e acreditar na vertente do hip hop?

Lembro que no ambiente hostil que eu vivia, escutava muito rap e era uma das coisas que me davam forças para continuar insistindo em estar viva.

Passou um tempo e conheci o Mike Johnnatan cofundador da batalha e iniciamos o projeto. A batalha, do mesmo modo que muitos coletivos independentes e sem financiamento, sempre foi e é uma construção de povão, da juventude. Dos nossos parças, que mesmo cansados do trampo, chegam e fortalecem no corre das caixas, da extensão e cada um empresta o que tem.

Batalha de Paraisópolis reune poetas e letristas do bairro que foi cenário de matança em dezembro - José Barbosa/UOL
Batalha de Paraisópolis reune poetas e letristas do bairro que foi cenário de matança em dezembro
Imagem: José Barbosa/UOL

Para além da criação da rede, também criamos afeto com nosso público, colando nos rolês juntos. Quando estamos na disposição de trocar ideias colamos na pracinha precária do PZS (sigla pra Paraisópolis) compramos nosso corote e ali passamos a noite conversando sobre nossos sonhos e propósitos de estar no mundo.

Um salve para o Anarcoletiva, Batalha da CB, Sarau de Paraisópolis, Geração Portela, Biblioteca Portal dos Poetas, Inconvencional e todos que tem se doado. Tenho toda certeza estamos impactando nossa casa chamada Paraisópolis. As batalhas de Paraisópolis vão se expandir e criar frutos de mudanças.