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Entre turistas, regras e violência policial: o fluxo dentro do fluxo do DZ7

Cena do baile DZ7, em Paraisópolis, registrada pelo fotógrafo Jeferson Delgado - Jeferson Delgado
Cena do baile DZ7, em Paraisópolis, registrada pelo fotógrafo Jeferson Delgado Imagem: Jeferson Delgado

Tiago Dias

Do TAB

03/12/2019 04h00

A vida de tantos jovens moradores de Paraisópolis, segunda maior favela de São Paulo, segue o padrão de outras tantas quebradas. No meio da rotina exaustiva de trabalho e estudo, o fim de semana é religiosamente guardado para diversão.

Sem muitas opções de lazer e equipamentos culturais — como o padrão das periferias da cidade —, o destino é sempre o mesmo quando a semana se encaminha para o o fim: cair no som do pancadão do funk. O baile da 17 (mais conhecido pela sigla "DZ7") é um dos destinos mais disputados: em tamanho, só perde para o baile do Helipa, em Heliópolis.

Assim é a vida de Jeferson Delgado, 21, morador do Capão Redondo. Produtor cultural e fotógrafo, ele frequenta os bailes funks de São Paulo desde os 14 — idade de uma das vítimas do massacre, que deixou nove mortos na madrugada de domingo, após uma ação desastrada da Polícia Militar.

Aos 16, Delgado conheceu o DZ7. Ia toda sexta-feira, em uma peregrinação de quase uma hora, do Jardim Rosana ao coração de Paraisópolis. Um percurso percorrido por muitos desde que o baile passou a ganhar notoriedade na internet, onde vídeos e stories mostram o pancadão até o amanhecer. Segundo a União dos Moradores e Comércio de Paraisópolis, 80% do público do fluxo vem de fora do bairro,

"Você estuda no meio da semana, você trampa e aí, no dia que você pode se divertir, você vai. É uma válvula de escape", conta Delgado. "Mas tinha dias que eu ia e dizia: 'hoje vai môiá'."

"Moiô" é a gíria quando o baile não pega. Ou chove água ou bala de borracha. No DZ7, as ações policiais já eram conhecidas dos frequentadores.

"Muitas vezes eu já ia para o baile pensando para onde eu poderia correr. Você só quer correr, porque a polícia vai chegar de uma forma muito truculenta", conta. "Lembro de uma vez que eu era mais menorzinho, estava no baile, sentado, esperando os amigos, de repente um PM já chegou jogando spray de pimenta."

Conhecedor das ruas e vielas da região, ele avalia, ainda chocado com a notícia: "Todos sabiam para onde a galera ia correr".

Jeferson Delgado
Imagem: Jeferson Delgado

Delgado revelou como funciona os fluxos de funk em São Paulo para o TAB em 2017 — e já naquela época, as ações eram rotineiras. Uma das justificativas é o barulho dos graves que saem do paredão de som, que ressoam na região toda. Algo que acontece, em escala menor, em outros pontos da cidade, inclusive em regiões centrais, como na rua da Universidade Mackenzie, no bairro nobre de Higienópolis.

"Mas acha que barulho vai fazer a polícia chegar dessa forma? Não seria só pedir para abaixar?", questiona o fotógrafo. "A gente sabe que não é o som, é a repressão, é uma ação contra o funk, contra os jovens da favela."

Na reportagem, Delgado descreveu a ação policial de 20 de setembro daquele ano na DZ7. A Rota, a tropa de elite da Polícia Militar, procurava um traficante que fugia em uma moto roubada, mas o fluxo estava no meio do caminho. Segundo os policiais, partiram tiros da multidão. Naquele dia, no entanto, as balas eram letais — e atingiram duas frequentadoras da festa, uma de 14 anos (no rosto) e outra de 20 (nas mãos). As balas eram calibre .38 e .40, comumente usadas pelas forças policiais. A PM afirmou que não fez nenhum disparo.

Depois que a PM passava, a multidão voltava a tomar as ruas da comunidade com seus carros de som. Na madrugada do último domingo, o desfecho foi outro.

Jeferson Delgado
Imagem: Jeferson Delgado

Como nasceu o DZ7

O nome "17" vem de um bar, o 17 Rei da Batida. O local abrigava um pagode famoso aos domingos. Aos poucos, o público se empolgou, e começaram a encostar carros com som potente — e mais e mais gente vinha na festa para "embrasar" (gíria para "dançar").

Ronaldo, o dono do bar, viu o negócio atingir outra proporção. Ele não queria esquentar a cabeça e acabou se mudando do local e saindo da comunidade. A proporção do fluxo estava tão grande que não era possível mais contê-la. Surgia o DZ7, concentrado na rua Robert Spencer, uma das vias comerciais da favela.

Ao TAB, uma das frequentadoras, Melissa Santana, resumiu a importância do baile para os jovens. Ela mesma, que costumava sair da região para se divertir, passou a olhar mais para a própria vizinhança. "Ir ao fluxo não é apenas uma forma de lazer para quem não possui condições", ela diz. "É uma forma de aceitação de onde você mora."

Ela descreveu as ações policiais como "apavorantes". "Algumas vezes há pessoas que são pisoteadas ou outras que são atingidas pela bomba e começam a passar mal", contou ao TAB, dois anos atrás. Motos são jogadas no chão, carros amanhecem com os pneus furados. "A ação da polícia quando interrompe o baile funk nunca é pacífica, eles invadem na intenção de causar pânico e amedrontamento. Acho que a intervenção deles é apenas para fazer o caos, pois o baile funk não irá acabar por conta disso."

O DZ7 acontece de quarta a domingo. Quando chega a madrugada, os carros e seus paredões de som começam a aparecer. Som, público e ambulantes formam os três pilares do fluxo. Não há contagem oficial de público, é claro, mas vendedores apostam que nos dias mais cheios chega a 20 mil pessoas.

O fluxo de pessoas é tão intenso que os terminais de ônibus de Pinheiros, João Dias e demais locais de onde sai transporte público para Paraisópolis sentem o impacto. O baile também recebe caravanas do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Santa Catarina. De olho nesse "turismo", operações policiais passaram a ser organizadas nas estradas para interceptar os ônibus com destino ao bairro.

Os boys e as patys do Morumbi, a vizinha rica de Paraisópolis, também descem para o fluxo com frequência, em especial no baile do Bega, vizinho do DZ7. "Já pensou se morre a filha de um juiz, a filha de um policial? O negócio não estaria assim, não. O Brasil estaria parado se uma pessoa dessas morre. Mas morreu o moleque que estudava, que falou que ia comer uma pizza. A 'Patrícia' falou que ia dormir na casa de uma amiga dela, mas não, ela foi pro baile", observa Delgado. "Os playboys têm ouvido muito o mandelão, que é o que toca na DZ7".

A vertente mais proibidona e pesada do funk não está nas plataformas de streaming oficiais, como o Spotify, mas é o que faz tremer os paredões de som dos bailes. A galera que cola na DZ7 é o termômetro que aponta o surgimento de um novo hit. "Essa galera que vai ao baile vai colocar aquele funk no som do carro. Se repetir cinco vezes é porque a música está boa e estourando", explica Delgado. "A base [de fãs] são esses que foram mortos, é quem consome, quem mostra a tendência, é o que vai dar fama para o artista."

Jeferson Delgado
Imagem: Jeferson Delgado

A última vez que Delgado foi ao DZ7 foi para comemorar seus 21 anos, em julho passado. Teve o celular furtado, um episódio conhecido de qualquer um que frequenta um bloco de carnaval, uma rave, uma micareta ou a passagem de um trio em Salvador. A diferença é que não há estrutura em Paraisópolis.

Fotógrafo das turnês do Racionais e Emicida, Delgado viajou pelo Brasil e conheceu muitos festivais e eventos musicais pelos estados nos últimos meses. "Fui ao Lolla, consegui ir no Rock in Rio, tive acesso a uns ambientes muito contraditórios de onde eu vim. A diferença é que a prefeitura está envolvida, regulariza aquilo, mas é a mesma parada, você pode ser furtado num festival."

No baile, no entanto, há regras impostas pelos próprios frequentadores. "Querendo ou não, tem suas próprias leis dentro da quebrada. Se você for de fora, você está indo para curtir, você não pode zoar a favela, não pode mijar na porta da Dona Maria, não pode arrumar briga. Se arrumar briga, você tem que cair fora."

Tudo poderia ser diferente, se houvesse algum trabalho da prefeitura focado no gênero musical. "Não tem como; a galera gosta de funk, e o Estado tem medo de trabalhar com funk, não quer fazer um festival regularizado, não quer trazer um artista de funk, não quer fazer uma mesa de debate, tem medo de começar a trabalhar com o funk e achar que está trabalhando com o próprio inimigo", observa.

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