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Astros do rock, pop e rap se unem em showmícios de Bernie Sanders

Julian Casablancas, vocalista da banda Strokes, ajuda o pré-candidato democrata Bernie Sanders a subir no palco de comício - Joe Raedle/AFP
Julian Casablancas, vocalista da banda Strokes, ajuda o pré-candidato democrata Bernie Sanders a subir no palco de comício Imagem: Joe Raedle/AFP

Fernanda Ezabella

Colaboração para o TAB, em Los Angeles (EUA)

03/03/2020 04h01

Strokes, Public Enemy, Ariana Grande, Vampire Weekend, Cardi B, Jack Johnson e Jack White. Seria um line-up incrível para um festival no próximo verão no hemisfério norte. Mas não é. Eles são as atrações musicais da campanha de Bernie Sanders, pré-candidato do Partido Democrata à presidência dos EUA.

Essa febre de juventude em torno do mais idoso aspirante à Casa Branca ganhou até um nome: "Bernchella", mistura do festival Coachella com o nome do político que se anuncia como socialista em um país em que o termo tem ares de palavrão.

"Levante os punhos, Los Angeles!", comandou Chuck D, rapper do Public Enemy, à plateia que esperou mais de três horas para ver Sanders, num comício na noite de domingo (1), num salão do centro de convenções. Horas antes, em outra cidade da Califórnia, o cantor Jack Johnson tocou seu violão para Sanders e seus eleitores.

De todos os concorrentes a presidência dos Estados Unidos em 2020, o mais velho de todos é quem consegue atrair os eleitores mais jovens. E, como em sua campanha de 2016, também atrai o maior número de músicos entusiastas. Jack White tocou num evento de Sanders em Detroit, em outubro, e os Strokes deram a graça numa cidade de New Hampshire, em fevereiro.

O senador de 78 anos levou 24 mil pessoas aos seus dois encontros na Califórnia no domingo, em Los Angeles e San José. Ele tem liderado as prévias do partido nos Estados, perdendo apenas para Joe Biden na Carolina do Sul, no sábado. Hoje acontece a Super Terça, quando 14 Estados e um território anunciam suas prévias.

Com essa largada poderosa na corrida presidencial, Sanders deve continuar caprichando nas bandas de comício até sair a indicação oficial do Partido Democrata para a eleição do dia 3 de novembro.

Não que misturar música com política dê sempre certo. A aparição de Chuck D no domingo aprofundou a rixa dentro no Public Enemy. Flavor Flav, um dos cofundadores da banda, mandou uma carta a Sanders e a Chuck D exigindo que eles parassem de usar o nome da banda já que ele não endossava nenhum candidato. No final do dia, o grupo anunciou que havia demitido Flav.

Em Los Angeles, o público jovem majoritariamente branco e latino usava camisetas curiosas com Sanders ou com os mais variados xingamentos ao presidente Donald Trump. O espaço apertado na frente do palco, com clima de show de indie rock, deu uma esvaziada após a aparição de 20 minutos de Sanders, antes de Chuck D entrar para fechar a noite com quatro músicas.

"É um jeito de atrair gente nova que não sabe ainda em quem votar ou nem é ligada em política", acredita o eleitor e chef Joe Figueroa, 39, usando uma camiseta com o logo do Black Flag, mas com o nome de Bernie Sanders no lugar do nome da banda. Ele foi com quatro amigos, mas todos foram embora antes do show. "A gente veio para ver o Bernie mesmo."

Chuck D, ao lado de dois dançarinos com cara de guarda-costas vestidos de militares, cantou quatro músicas intercaladas com seu falatório político, às vezes um tanto confuso. Antes de mandar o clássico "Fight the Power", ele pediu atenção da plateia para "falar a real".

"Sei muito bem que não vamos ter um messias ou Jesus na Casa Branca dos EUA, mas vocês sabem o quê? Eu certamente reconheço um Hitler filho da put*! Vamos 'Fight the Power'!", gritou.

No público, o bartender e rapper aspirante Rey Ross, 26, vestia uma jaqueta do Public Enemy e uma camiseta branca do democrata. "Em 2016, não saí de casa, fiz torcida pro Bernie do sofá. Agora não dá mais, é preciso mostrar apoio", disse Ross, em seu segundo comício. "Chuck D sempre foi meu favorito do grupo, então essa mistura Bernie e hip hop foi perfeita. Ter shows no comício é uma coisa bem esperta, faz parte do marketing."

Sem dúvida é um marketing de mão dupla. Quando os Strokes tocaram num evento de Sanders em New Hampshire, eles apresentaram uma música nova ("Bad Decisions"), um videoclipe novo ("At the Door") e, ao final, ainda anunciaram a data de lançamento do novo álbum, "The New Abnormal" (10 de abril).

"Como único candidato verdadeiramente não corporativo, Bernie Sanders representa nossa única chance de derrubar o poder corporativo e ajudar a devolver a América à democracia. É por isso que o apoiamos", disse o líder da banda, Julian Casablancas.

A campanha eleitoral 2020 também contou com outro favorito do indie rock, Rivers Cuomo, do Weezer, que se apresentou em novembro com Andrew Yang, pré-candidato que abandonou a corrida recentemente.

No domingo, Sanders chegou ao palco acompanhado de sua mulher, Jane, que não falou nada e logo sumiu. De cabelo bagunçado e gesticulando seus dedos no ar, ele brincou que falaria por "apenas três horas" para que a plateia pudesse logo ouvir a banda da noite. Sander então repetiu suas promessas de campanha, como saúde gratuita para todos, aumento do salário mínimo, reforma imigratória e legalização da maconha por decreto presidencial.

Também falaram a comediante Sarah Silverman, a ativista Patrisse Cullors (cofundadora do movimento Black Lives Matter) e a rapper chilena Ana Tijoux, que citou o Brasil e mandou um "Fora Bolsonaro", sem gerar muita comoção do público.

Eleitores democratas usam camisetas do candidato de Bernie Sanders durante comício em Los Angeles  - Fernanda Ezabella/UOL - Fernanda Ezabella/UOL
Eleitores democratas usam camisetas do candidato de Bernie Sanders durante comício em Los Angeles
Imagem: Fernanda Ezabella/UOL

Na sua campanha de 2016, quando perdeu a indicação do partido para Hillary Clinton, Sanders também levou músicos para seus comícios. Em Iowa, o senador até cantou com o grupo "This Land Is Your Land", de Woody Guthrie.

Entre os inúmeros músicos que deram apoio a Sanders na época, estava também Neil Young. Assim como outros artistas já fizeram com candidatos republicanos, o canadense pediu para a campanha de Trump parar de usar sua música "Rockin' in the Free World" em 2016 e 2020. Agora com cidadania norte-americana, Young poderá votar em Sanders.

Claro, celebridades e músicos famosos são garantias de pouca coisa: quatro dias antes das eleições, Hillary levou o casal mais poderoso da música atual para cantar em seu evento, Beyoncé e Jay-Z. O resultado nas urnas foi um desastre.

Do lado de fora do centro de convenções de Los Angeles, barraquinhas vendiam broches, adesivos e camisetas de Sanders. O americano Bill Wyatt, 59, desenha e vende camisetas desde os anos 1980 e se especializou em produtos de campanha, mas só dos democratas. Ele vendia camisetas com uns dez desenhos diferentes, incluindo Sanders vestido de Che Guevara.

"Os comícios dos outros candidatos não são tão legais como os do Bernie. Aqui a energia é muito boa", disse Wyatt. Ele contou que em 2016 perdeu todo seu lucro das vendas ao investí-lo em mercadorias da Hillary, que acabaram encalhadas quando Trump ganhou a eleição. "Ela não tinha nenhum slogan ou frase boa. Não era nada divertido."