Receitas para divórcio: o que Portugal tem a ensinar sobre lares desfeitos

Um dos efeitos colaterais da pandemia no Brasil tem sido o crescimento na procura por divórcio. Enquanto alguns aproveitaram o momento para assumir uma vida conjugal, outros preferiram se afastar e oficializar uma separação — muitas vezes dolorosa e traumática.
O exemplo dos casais portugueses, ou melhor, dos ex-casais portugueses, parece indicar que existem divórcios felizes, em que todos seguem suas vidas sem grandes traumas.
Apesar de ter uma imagem de país católico e conservador, Portugal tem um número proporcionalmente muito maior de divórcios que o Brasil. No país, em 2018, para cada 100 casamentos, houve 35 divórcios. Em Portugal, no mesmo ano, foram 59 divórcios para cada 100 casamentos. Em anos anteriores, a taxa de divórcios chegou a ser ainda maior e o país está sempre no topo do ranking dos divórcios na Europa.
Um dos motivos para haver tantos divórcios está na lei: é muito fácil e barato se divorciar, o que incentiva os casais separados a oficializar a situação. "Em jeito de piada, diz-se que atualmente o casamento é o contrato mais fácil de terminar de toda a ordem jurídica portuguesa", afirma o psicólogo José Bárbara, da clínica portuguesa Learn2be.
O psicólogo ressalta que em Portugal a família é talvez "o valor mais fundamental da sociedade", e a ideia daquilo que constitui uma família é ainda bastante conservadora, sempre via casamento. "Assim, o coquetel de realidade cultural promotora do casamento com uma legislação muito progressiva explica os elevados números do divórcio: há um grande 'empurrão' para entrar e é muito fácil sair", explica.
Da proibição à facilidade
Portugal tem um histórico peculiar quando se trata de divórcios. Durante os anos da ditadura do Estado Novo (1933 a 1974), era proibido que pessoas casadas na Igreja Católica se divorciassem. Como na época a maioria se casava na Igreja, o divórcio era praticamente proibido.
Em 1975, o divórcio foi autorizado e os números logo aumentaram, pois casais que estavam de fato separados puderam legalizar a situação. Os números mantiveram se acelerando com o passar da décadas, fazendo com que Portugal fosse de país com menos divórcios da Europa para o topo do ranking em menos de 40 anos.
Em 2008, foi a aprovada uma nova legislação bastante "progressista", segundo alguns, que passou a incentivar a guarda compartilhada dos filhos e acabou com o princípio de "culpa" pelo divórcio. "Embora o país tenha uma matriz de base judaico-cristã, nas últimas quatro décadas houve todo um caminho de aceitação e acomodação. A reforma legal de 2008 foi mais um passo no sentido de normalizar a realidade do divórcio. Ao acabar com o conceito de esposo culpado (conceito que normalmente dava lugar a uma batalha legal muito feia), abriu-se espaço para as pessoas encararem o divórcio como aquilo que ele verdadeiramente é: a separação de duas pessoas que já não querem continuar com um projeto de vida a dois", diz Bárbara.
Receitas para um bom divórcio
Durante seu próprio processo de divórcio, em um período de grande tristeza, Elizabete Agostinho decidiu investigar o assunto e acabou publicado o livro "Feliz Divórcio - um manual de instruções". "O nome é uma ironia, pois não há feliz divórcio. Eu via meus amigos divorciados e parecia que estava tudo tão bem, mas quando perguntava mais profundamente, percebi que todos também sofreram, que foi uma fase de dificuldades", conta a autora.
Agostinho entrevistou dezenas de casais, de várias idades, diferentes regiões do país e contextos sociais, e montou uma espécie de guia para ajudar as pessoas a atravessar essa fase complicada. "A resposta para que o divórcio seja menos complicado passa pelo diálogo. É natural que ele seja difícil durante uma fase, mas é preciso pensar no longo prazo. Sobretudo para quem tem filhos, há o fim do casamento, mas não o fim da relação. Os pais vão continuar com a necessidade de conversar e se entender", afirma.
Segundo Agostinho, a lei atual que divide os direitos e responsabilidade sobre os filhos igualmente incentiva a participação paterna e permite que a mãe se mantenha economicamente ativa. "Cada vez mais os pais portugueses são pais de fato. A divisão tem também uma questão pragmática. Há uma porcentagem maior de mulheres que trabalham em Portugal em comparação a outros países da Europa. Havendo guarda só de um dos progenitores, a falta de disponibilidade para turnos e horários estendidos tornaria restrições ao trabalho e possibilidades de emprego."
A enfermeira Marta Santos, mãe de dois meninos, de 10 e 6 anos, distribuiu sua escala de trabalho de forma a deixar os plantões noturnos para as duas semanas do mês em que os filhos ficam com o pai. Nas semanas em fica com os filhos, consegue trabalhar apenas durante o horário escolar. "Neste verão eles foram viajar e ficaram três semanas direto com o pai. Foi muito duro ficar tanto tempo longe, mas aproveitei para adiantar alguns plantões. Assim terei mais tempo livre com eles nas minhas semanas", contou.
O divórcio não foi fácil e Santos ainda guarda mágoas em relação ao ex-marido, mas pelo bem-estar dos meninos, os dois conseguiram manter uma relação cordial. "Reconheço que ele é um pai excelente", diz.
Diferenças legais
As leis brasileiras e portuguesas costumam ser muito próximas, mas há algumas diferenças marcantes entre Brasil e Portugal quando se trata de divórcios. Os advogados Renato Morad Rodrigues e Julian Dias Rodrigues, do portal Direito Comparado, que atuam nos dois países, destacaram quatro pontos em que as legislações se distanciam.
- Tempo de separação. Embora em Portugal seja preciso que o casal esteja separado há pelo menos um ano, a lei também permite que o divórcio seja apresentado se houver fatos que mostrem a "ruptura definitiva do casamento", o que acontece com bastante frequência. No Brasil, até 2010 a Constituição exigia que o casal estivesse separado por mais de um ou dois anos, conforme o caso, mas essa exigência acabou com a Emenda Constitucional nº 66. A partir de então, o divórcio passou a ser possível de forma direta, sem a necessidade de qualquer prazo.
- Sem advogados. O divórcio em cartório no Brasil só acontece se houver acordo e sem a presença de filhos menores; nos outros casos, deve ser feito na Justiça. Em Portugal é possível fazer na conservatória (semelhante ao cartório) mesmo quando há filhos menores envolvidos. Mesmo o divórcio em cartório no Brasil necessita de advogado (§2.º do art. 733), o que encarece o processo. Em Portugal, não é necessário contratar advogados.
- Divórcios homoafetivos. Pessoas do mesmo sexo celebram casamento e se divorciam em ambos os países. Porém, em Portugal essa possibilidade decorre da clareza da lei - desde 2010, o Código Civil admite a possibilidade, sem diferenças comparativas à situação dos casais heterossexuais. No Brasil, foi somente por meio de uma decisão do Supremo Tribunal Federal que se reconheceu a possibilidade do casamento - e divórcio - homoafetivo, em maio de 2011.
- Pets protegidos. Em Portugal a lei exige expressamente que o casal faça menção à existência ou não de animais e, em caso positivo, deve obrigatoriamente ser dada solução às questões que os envolvem. Essa exigência existe desde 2017, quando o Código Civil português passou por uma série de inovações com a entrada em vigor do chamado Estatuto dos Animais, que conferiu uma ampla proteção aos pets. No Brasil a legislação não trata do tema.
- Custos. Sem partilha de bens, um divórcio em Portugal custa 280 euros (cerca de R$ 1.800) . No Brasil, os valores variam. No Estado de São Paulo, sem partilha, o processo sai por R$ 442,17, mas há os custos de se contratar um advogado.
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