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Frei Betto lança seu 69º livro: 'Amigos perguntam se li todos que escrevi'

Frei Betto no jardim do Convento Santo Alberto Magno - Lucas Seixas/UOL
Frei Betto no jardim do Convento Santo Alberto Magno
Imagem: Lucas Seixas/UOL

Letícia Naísa

Do TAB

30/10/2020 04h01

Frei Betto, 76, é dos que esperam no portão. Nos cumprimentamos com o olhar, eu, ele e o fotógrafo Lucas Seixas, e com olás abafados pelas máscaras, em uma manhã de sexta-feira ensolarada.

Do lado de dentro do Convento Santo Alberto Magno, no bairro de Perdizes (SP), onde mora desde a década de 1960, o dominicano nos guiou por dois lances de escada para nos mostrar o jardim.

"Aqui não falta coisa para ler na quarentena", comentou Frei Betto, entre estantes apertadas. A distração de tantos livros nunca o privou de escrever compulsivamente — ele acaba de lançar o 69º (sexagésimo nono), "Diário da Quarentena" (Ed. Rocco). "Falam que escrevi mais livros do que já li. Aliás, os amigos me perguntam se já li todos os que escrevi."

Sala e biblioteca

Ele conta ficar "grávido de ideia, de um projeto de livro". Vai nascendo. Entre críticas ao governo, ficção e memórias, como o dia da morte de Tancredo Neves (1910-1985), Frei Betto reflete sobre os primeiros 90 dias da pandemia de Covid-19.

"É muito diferente ficar voluntariamente retido em casa e compulsoriamente trancado na prisão (...). Agora, na pandemia, a chave fica do lado de dentro." Entre 1969 e 1973, ele foi preso numa cidadezinha do Rio Grande do Sul por envolvimento com a luta armada.

Retrato de Frei Betto - Lucas Seixas/UOL - Lucas Seixas/UOL
Imagem: Lucas Seixas/UOL
Retrato do Frei Betto - Lucas Seixas/UOL - Lucas Seixas/UOL
Imagem: Lucas Seixas/UOL

Uma conversa recente com um amigo lhe valeu dez dicas para suportar melhor o período de reclusão — entre as ações estavam escrita, meditação e exercícios físicos. São três hábitos de que se veste, desde os tempos de cárcere. "O que me salvou da loucura na cadeia foram as cartas. A meditação me ensinou que, quanto mais a gente limpa a mente, menos temores existem. Depois de meditar, sempre faço uma ginástica fantástica: corro sem sair do lugar por exatos 30 minutos, não ocupo nem espaço."

No 18° dia de confinamento, em meados de abril, confessa que estava sonhando como nunca. Com o que sonha um frei? "Estava em uma zona rural, uma fazenda, mas não lembro os detalhes", começa. "São muito desconexos, por isso não acredito em interpretação dos sonhos, com o perdão de Freud", brinca. Dono de sonhos sadios, conta que raramente teve pesadelos, mas não anota nem um nem outro. Um diário dos sonhos não está em seu horizonte.

Cozinha

Entre dezenas de livros publicados, Frei Betto escreveu ficção, livro infanto-juvenil e, surpresa, livros de receitas. Para um mineiro não chega a ser ousadia, mas tendo como mãe Maria Stella Libanio Christo (1917-2011), autora de livros de cozinha mineira, talvez. Que nada: editou logo três.

Frei Betto, autor de 69 livros - Lucas Seixas/UOL - Lucas Seixas/UOL
Imagem: Lucas Seixas/UOL

O dominicano define a cozinha como uma obra de arte. Gosta e pratica. Já preparou comida para 50 pessoas. "Foi o máximo", diz ele. Na prisão, escrevia cartas para a família pedindo "outras receitas simples" para fazer aos colegas. "Fiz o doce de leite de acordo com a receita enviada por mamãe. Dupliquei a dose de leite, tornou-o menos açucarado. Saiu muito bom", escreveu, em janeiro de 1970. "Consegui fazer arroz soltinho", relatou na carta de 1969 que abre "Cartas da Prisão". Foi na cozinha de casa, com a mãe, que aprendeu a cozinhar e também a tomar gosto pela escrita.

"Adoro feijão, como bom mineiro, e adoro farofa. Quase não como mais arroz, descobri que é inútil. Presto muita atenção nas vitaminas, proteínas e nutrientes essenciais", conta. Para os amigos, cozinha suas especialidades: feijão tropeiro, bacalhau espiritual — com leite de coco e noz-moscada — e camarão à provençal, "mas não com manteiga, com azeite, e minha mãe punha repolho, que eu não coloco", pontua.

Escritório

Além das páginas e do próprio prato, comida é parte importante de sua visão de mundo. "Sempre estive ligado a essa questão da alimentação e da fome, o alimento sempre me rodeia", afirma. Entre 2003 e 2004, Frei Betto foi coordenador de mobilização social do Programa Fome Zero. Em 2020, tornou-se relator diplomático da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura).

"Foi importante trabalhar com os mais pobres durante o período do Fome Zero, mas fui contra transformar no Bolsa Família. O programa tinha um caráter emancipatório e o Bolsa Família é mais assistencialista, compensatório", analisa. "Mas foi uma experiência muito rica, no sentido de conhecer o Brasil e lidar com os mais pobres entre os pobres, que são os famintos, e ver como é fácil superar a fome no Brasil — que não existe é vontade política. Nós saímos do Mapa da Fome em 2014 e corremos o risco de retornar [a ele]", lamenta. Assim como o amigo Eduardo Suplicy, ex-senador, Frei Betto defende a ideia da Renda Básica Universal. "Todo o mundo deveria ter esse direito."

O dominicano iniciou na vida política cedo, nunca de forma partidária ou remunerada. "Nasci respirando política", diz. "Meu pai foi um ferrenho adversário da ditadura Vargas, então na minha casa se falava de política dia e noite." Continua com a mesma fé na militância. "Sou uma pessoa absolutamente convicta da importância de mudar o Brasil, o mundo e superar o capitalismo", diz. "Creio que a humanidade não tem futuro no sistema capitalista devido à abissal desigualdade que ele provoca."

Frei Betto, na biblioteca do Convento Santo Alberto Magno, em Perdizes (SP) - Lucas Seixas/UOL - Lucas Seixas/UOL
Frei Betto, na biblioteca do Convento Santo Alberto Magno, em Perdizes (SP)
Imagem: Lucas Seixas/UOL

O altar

A fé cristã de Frei Betto despertou junto à fé política. Aos 17 anos, foi dirigente nacional da Juventude Estudantil Católica (JEC). "Nesse movimento, os dominicanos faziam assessoria, então veio a admiração por eles", relembra. "Entrei na faculdade de jornalismo e resolvi trancar a matrícula para tirar essa dúvida com relação à vocação. Entrei aqui não para ficar, mas porque eu não queria chegar aos 40 anos pensando que Deus tinha uma proposta vocacional para mim e que eu não tinha sido capaz de abraçá-la. E, assim, fiquei." Em seu primeiro ano no convento, foi salvo de uma crise de fé pelos livros de Santa Teresa de Ávila.

O pai era sumariamente anticlerical. "Ele me enterrou, simbolicamente, dizendo que nunca mais falaria comigo, era totalmente contra", lembra ele. "Dizia: 'meu filho pode ser tudo, menos vestir saia', o que tinha duplo sentido. Ele tinha horror à ideia de um filho padre ou homossexual."

Frei Betto em 1987 - Flavio Canalonga/Folhapress - Flavio Canalonga/Folhapress
Frei Betto em 1987
Imagem: Flavio Canalonga/Folhapress

No dia da visita do TAB, Frei Betto estava satisfeito com a fala de Papa Francisco favorável à união civil de casais homossexuais. "A Igreja é contraditória, como sempre foi e vai continuar sendo. Ela reflete as contradições da sociedade", diz o dominicano. "O papa reconhece a importância da união civil entre casais homossexuais, mas não reconhece a misoginia dentro da Igreja. É uma contradição as mulheres até hoje não poderem ser sacerdotes, bispos ou papas." Frei Betto tem postura favorável a causas identitárias e de minorias.

Sobre outras polêmicas, como o aborto, defende o que mostram as estatísticas: em países onde a prática é legal, há redução no número de abortos e de mulheres mortas. Advoga o sistema francês. Quando uma mulher manifesta essa vontade, dialoga com médicos, psicólogos e um representante de sua religião. "Isso tem resultados muito positivos", diz ele, que tem uma experiência pessoal curiosa em torno do assunto. "Antes da pandemia, recebia moças jovens que engravidaram do namorado e não sabiam o que fazer. Elas desabafam, choram e eu sempre adotei a mesma posição. Digo a elas: 'tenha esse filho e deixa que eu crio'. Até hoje não tenho nenhum filho adotivo, mas tenho vários afilhados."

Primeira página da Folha de S.Paulo de 11 de novembro de 1969 - Folhapress - Folhapress
Primeira página da Folha de S.Paulo de 11 de novembro de 1969
Imagem: Folhapress

Por toda a casa dominicana há imagens de Frei Tito (1945-1974), amigo de Frei Betto que se suicidou em 1974, na França. Durante a ditadura, foi preso e torturado. Dominicanos assumiram posturas mais progressistas nos anos de chumbo, e chegaram a se juntar à ANL (Ação Nacional Libertadora), grupo armado de oposição fundado por Carlos Marighella (1911-1969).

"Hoje eu faço uma autocrítica, mas foi um momento muito feliz. Na vida, Letícia, a felicidade depende do sentido que se imprime a ela. Quando a gente imprime um sentido histórico, utópico, altruísta, solidário, a gente é feliz. [A felicidade] Vem de uma experiência de sentido subjetivo", aconselha.

Antes da despedida, Frei Betto deixou mais um conselho — dessa vez, de beira de fogão. "Quando você cozinhar com alho, não lave as mãos com sabão, detergente. Só coloque embaixo da água corrente para tirar o cheiro, sai tudo." No caminho até o portão, já sentimos o cheiro de comida fresca sendo preparada para o almoço dos frades. Em casa, no mesmo dia, testei a dica culinária e funcionou.