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Documentário dá voz a repórter que viu seu bebê ser torturado na ditadura

O jornalista Dermi Azevedo no documentário "Atordoado, Eu Permaneço Atento" - Divulgação
O jornalista Dermi Azevedo no documentário "Atordoado, Eu Permaneço Atento" Imagem: Divulgação

Mônica Manir

Colaboração para o TAB

26/09/2020 04h00

Dermi Azevedo não tem rancor, tem memória. Diz isso com a voz entrecortada pela Doença de Parkinson, mas também pela emoção de ter sua vivência de tortura contada em um filme que concorre a melhor curta-metragem no 48º Festival de Cinema de Gramado.

Dirigido por Lucas H. Rossi dos Santos e Henrique Amud, "Atordoado, Eu Permaneço Atento" traça um perfil da militância desse jornalista e cientista político levado ao DEOPS (Departamento de Ordem Política e Social) em 14 de janeiro de 1974, depois de agentes encontrarem em sua casa no bairro do Campo Belo, em São Paulo, o livro "Educação Moral e Cívica e Escalada Fascista no Brasil", coordenado pela educadora Maria Nilde Mascellani e com a digital intelectual de Dermi e da esposa, Darcy.

A obra trazia uma análise da Educação Moral e Cívica (EMC) como disciplina imposta pelo regime militar em todos os currículos escolares do país. Os militares teriam ficado particularmente irritados com a informação de que o estudo fora enviado ao Conselho Mundial de Igrejas, com sede em Genebra, na Suíça, para ser divulgado mundialmente.

Infância roubada

Era a segunda detenção de Dermi. A primeira ocorreu em 1968, no Congresso da União Nacional de Estudantes (UNE), em Ibiúna, quando era líder estudantil. Além das agressões na própria carne, o que o dilacerou e dilacera é a violência com o que os agentes da repressão trataram seu primogênito, Carlos Alexandre Azevedo — o Cacá — na segunda prisão. A mãe de Cacá, a pedagoga Darcy Andozia, também tinha sido encarcerada, e o bebê de apenas 1 ano e 8 meses havia ficado em casa com a babá. Porque chorava de fome, a criança recebeu um soco na boca. Com os lábios sangrando, também foi "conduzida" ao DEOPS, onde teria levado choques elétricos, segundo relato de outros presos.

Ao ser entregue aos avós maternos em São Bernardo do Campo, Cacá foi jogado ao chão. "Tudo isso o marcou profundamente", diz Dermi. O filho desenvolveu fobia social. Em 2013, aos 40 anos, suicidou-se com uma overdose de medicamentos.

O filme, elaborado numa linguagem metafórica, com cenas de conflito entre policiais e manifestantes, céus avermelhados e cogumelos atômicos, não entra nesses detalhes e traz uma ou outra foto de família. Entre elas, uma imagem pueril de Cacá aos 5 anos, com os pés mergulhados num açude em Currais Novos, no sertão do Rio Grande do Norte — cidade de criação de Dermi e para onde a família se mudou depois da prisão. Dali, foram para Natal. Na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), Dermi se formou em jornalismo. Só retornaram a São Paulo em 1984.

O casal teve outros três filhos: Daniel, Estevão e Joana. Dermi e Darcy se separaram — entre outros motivos, diz Lucas, por desavenças quanto à divulgação do acontecido com a criança. Darcy queria preservar Cacá ao máximo, Dermi entendia que era preciso denunciar a crueldade. "A tortura é um crime contra a humanidade que não pode ficar escondido", diz.

Ele casou novamente em 2011 com a pedagoga Elis Regina Brito Almeida, que agregou o sobrenome Azevedo. É cofundador do Núcleo Maximiliano Kobe, voltado à defesa dos direitos humanos e da justiça social e, nessa toada, em 2018, lançou o livro "Nenhum Direito a Menos" com o subtítulo "Direitos Humanos - Teoria e Prática". Cinco anos antes, havia gerado "Travessias Torturadas", um registro autobiográfico e político do período entre 1964/1985.

"A ditadura afetou e afeta até hoje minha família, meu pai tem delírios de que vêm sequestrá-lo novamente", afirma Estevão Azevedo, autor de contos e romances que se prepara para lançar seus primeiros livros infantis. "É imprescindível resgatar essas histórias, afinal, as práticas e os pensamentos que conduziram à tragédia da ditadura civil-militar ainda estão muito vivos", completa.

É esse o principal mote de Dermi e dos diretores de "Atordoado": alertar para a normalização da tortura e para o clima de ódio que paira na atmosfera brasileira. Lucas afirma que a ideia do filme surgiu logo depois da eleição de Jair Bolsonaro. "Temos um presidente que defende a ditadura, que levanta a bandeira do Ustra (coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra). Eu queria falar sobre esse desgoverno, e a história do Dermi estabelecia um paralelo entre os anos de chumbo e os tempos atuais."

Cálice

O cineasta é de Piracicaba, interior de São Paulo, e conheceu Dermi por meio do próprio pai, na época padre na cidade. "Dermi, que é muito religioso, frequentava a paróquia do meu pai e pagou para ele o curso de jornalismo na Universidade Metodista de Piracicaba, onde dava aula", lembra. A amizade entre os dois se estreitou. Lucas o chamava de "tio", mas foi mais recentemente que soube dos detalhes da tortura. Quando relata a amizade, o cineasta logo se antecipa à pergunta sobre ser filho de um padre. O pai largou a batina para ficar com sua mãe.

A entrevista com Dermi para o filme foi feita em 2018, quando ele contava 69 anos de idade. Já o pegou debilitado pelo Parkinson, diagnosticado em 2007. Entre o material usado como pesquisa de fundo está o livro "Infância Roubada", compilado quatro anos antes pela Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) e pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo - Rubens Paiva. Com mais de 300 páginas, a obra traz testemunhos de 40 crianças atingidas pela ditadura. São filhos de presos políticos, perseguidos ou nunca encontrados, cujas histórias não haviam sido contadas até então.

As dores de Cacá foram detalhadas pela mãe, com quem ele morou até o fim da vida. Darcy acrescenta que o filho sofreu muito na escola. "Era chamado de terrorista, mau elemento, os meninos batiam nele." O garoto dizia ter vergonha daquela situação e foi se fechando aos poucos. Em 2011, quando recebeu indenização do Estado por ter sido vítima do regime militar, relatou claramente sua dificuldade de adaptação ao convívio. "Acredito que ele lutou muito para poder se inserir nessa sociedade, mas não conseguiu", lamentou Darcy.

O documentário ganhou a Mostra Provocações 2019, apoiada pelo Fundo Brasil de Direitos Humanos, Melhor Filme Iberoamericano no Festival de Cine y Televisión Reino de León, Melhor Filme no Reality Bytes Film Festival e Menção Honrosa no Shorts México. O título do curta nasceu antes do próprio. "Atordoado, Eu Permaneço Atento" é um dos versos da música "Cálice", de Chico Buarque. Lucas e Henrique achavam que casava com o protagonista que escolheram, um homem abatido pelos traumas da tortura, mas em permanente estado de alerta para combatê-la. O que atordoa Dermi, sem dúvida, é esse silêncio todo.