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Baianinho de Mauá: das apostas clandestinas a cachê de R$ 10 mil por evento

Baianinho de Mauá, melhor jogador de sinuca do Brasil disputa partida valendo um bolo de dinheiro - Felipe Pereira
Baianinho de Mauá, melhor jogador de sinuca do Brasil disputa partida valendo um bolo de dinheiro Imagem: Felipe Pereira

Felipe Pereira

Do TAB

01/02/2021 04h01

Colocado ao lado da caçapa do meio, o bolo de dinheiro tem a altura de uma caneca. A partida vale R$ 12 mil — aposta em dinheiro vivo, uma nota em cima da outra. Resta uma bola. Uma tacada em que a branca ou a colorida fique cinco centímetros longe da perfeição e o jogo acaba. São os dois melhores do Brasil na mesa, autores de efeitos e ângulos improváveis.

Enquanto eles tentam forrar o bolso, os cinquenta barbados que rodeiam a mesa do boteco em São Bernardo do Campo (SP) gritam apostas paralelas: "Cinquenta no Maycon! Quem quer?" "Cem no Baianinho!". O bar vira uma balbúrdia.

Os jogadores não se distraem. Por dezenas de tacadas seguem posicionando as bolas com precisão de sniper. A demora aumenta a tensão e cala a gritaria. Um comentarista de futebol diria que é obediência tática. Um coach falaria em inteligência emocional. Mas, naquele ambiente bronco, um homem comenta baixinho, como quem cochicha na missa: "Baianinho e Maycon são fodas pra c*!"

Parece que ele estava secando. Poucas jogadas depois, Maycon erra. Um garoto de chinelo de dedo e camiseta falsificada da Polo Sport puxa dinheiro e desafia: "Cem que o Baianinho mata nesta bola". Muitos aceitam e ele deposita seis notas de R$ 100 na borda da mesa, que a essa altura está coberta de dinheiro. Segundos depois, o rapaz recolhe as cédulas enquanto o bar grita: "É o rei da sinuquinha, Baianinho de Mauá!"

Os jogadores se cumprimentam e o público vai comer. Pratos com arroz, ovo e bife brotam da cozinha. Hábitos alimentares estranhos — a madrugada avançou e são 3h16. Os torcedores comentam que nunca pensaram que um dia pagariam ingresso para entrar num boteco.

Mas pagaram com gosto. Estão felizes por testemunharem a vitória do homem que desde 1998 é apontado como o melhor jogador de sinuca do Brasil.

O status rendeu uma legião de fãs que pedem fotos e autógrafos em tacos. Também ajuda Baianinho de Mauá a pagar as contas. Ele tem patrocinadores e recebe cachê gordo para apresentações em eventos, coisa de R$ 10 mil.

Baianinho de Mauá - Felipe Pereira - Felipe Pereira
Baianinho de Mauá posa para foto com fãs entre um jogo e outro
Imagem: Felipe Pereira

Começo clandestino

A sinuca em que Baianinho é campeão não é a sinuca suntuosa com jogadores de smoking e juiz de luva branca. Ele e os rivais disputam grana alta em botecos de quebrada pelo país. A contagem das partidas é marcada com giz no pano verde da mesa. A cerveja é Skol litrão, é permitido fumar, e na sala do lado rola carteado.

Baianinho tem 47 anos e está mais que acostumado ao ambiente. Com 10 anos, ele subia num caixote para alcançar a mesa e treinar.

"Pegava uma mão cheia de ficha e ficava 4 horas jogando sozinho. Tinha gente que falava: 'Este menino é doido'. Mas eu gostava de treinar só."

Começou a jogar apostado aos 13. Ia de carona no guidão da bicicleta enfrentar adultos em Paulo Afonso (BA), cidade onde nasceu. Jogava escondido da família e da PM. O pai e a mãe tinham medo de confusão. Os policiais diziam que bar não é lugar de criança.

Nos primeiros confrontos, derrotas e prejuízos. Baianinho não desanimou. Em seis meses tinha quebrado todos os tacos fortes da cidade. Saiu desafiando rivais de municípios vizinhos e repetiu o sucesso. Mas havia contratempos.

Sem treino - Felipe Pereira - Felipe Pereira
Hoje Baianinho não treina mais, bastam uma partidas antes de um jogo e ele entende as manhas da mesa
Imagem: Felipe Pereira

Dono de um canal de YouTube que transmite partidas de sinuca ao vivo, Vagnão de Araraquara explica que os jogadores sempre têm origem humilde. Sem dinheiro para bancar apostas, são financiados por um "patrão", geralmente um empresário ou comerciante. Ele fica com 70% do lucro das vitórias e arca com todo o prejuízo em caso de derrota.

Com 15 anos, Baianinho entrou no carro de um patrão para jogar numa cidade distante 150 quilômetros de Paulo Afonso. Era para sair de tarde e voltar à noite, mas com o garoto rapelando todo mundo, nada de o homem querer voltar. Foram três dias fora e a certeza de que a mãe estava desesperada.

Tinha toda a razão. Dona Maria corria Paulo Afonso inteira com fotos de Baianinho. Procurou as delegacias, a Polícia Militar e nada. Só voltou a ver o garoto quando o filho se rebelou e ameaçou fugir. Já estava escancarado o que Baianinho andava fazendo às escondidas e logo ele não precisou mais mentir.

"Com 15 anos, parei de precisar jogar escondido. Em dia de feira grande, quando as pessoas vinham dos sítios para vender produtos, eu ia jogar lá e juntava gente. Eu via polícia fardada assistindo e não falavam nada. Parecia que eu tava fazendo um show para o povo. Menino novo ganhando dos caras mais velhos. As pessoas falavam para os meus pais que eu era um artista."

Efeito - Felipe Pereira - Felipe Pereira
Em algumas tacadas Baianinho projeta o corpo para criar o efeito desejado
Imagem: Felipe Pereira

Brasil fica pequeno

Dona Maria aceitou, mas reclamava que o filho andava muito e despachou o rapaz para Ribeirão Preto (SP). Baianinho tinha 19 anos e ficaria com os irmãos mais velhos — ele é o sétimo de um total de oito. A estratégia durou um mês. Foi o tempo de receber o primeiro pagamento da firma onde os irmãos haviam arranjado emprego. Pegou o dinheiro e procurou um bar. "Fiz dois salários em duas horas de jogo. Não parei mais."

Com 22 anos, Baianinho era o campeão da região. Foi se instalar em Mauá e começou a ganhar dos jogadores da cidade. Depois, dos jogadores de Santo André. "Entrei em São Paulo por São Matheus [bairro da zona leste] e depois fui para o centro jogar com os melhores, os cobras."

A sinuca de bar tem vários tipos de jogos e demorou um ano para Baianinho se tornar o melhor de São Paulo no par ou ímpar. Depois, virou campeão de bola lisa. Patrões botaram dinheiro no taco dele para que enfrentasse os melhores dos estados do Sul e do Rio de Janeiro.

A última variação da sinuca a ser conquistada em São Paulo foi o bolinho. Era 1998, e Baianinho estava coroado campeão em todas as modalidades. Faltava o bote final final para ser o maior de todos.

"O último taco a ser quebrado era um jogador que mora em Goiânia, Zezinho. Era o melhor dos melhores, mas perdeu para mim. Ganhei dele duas vezes na mesa em que ele jogava todo dia, onde era imbatível."

47 - Felipe Pereira - Felipe Pereira
Os 47 anos de idade afetam o jogo de Baianinho de Mauá, que não tem mais a mesma visão
Imagem: Felipe Pereira

A idade chega

Baianinho passou 20 anos batendo em que aparecia pela frente. Vagnão de Araraquara conta que um desafiante chegou perto, mas o taco do campeão nunca foi quebrado.

"Ele teve um adversário, o Cobrinha. Por um período eles duelaram. Teve época que, num tipo de mesa, o Cobrinha ganhava, e noutro [tipo de mesa], o Baianinho ganhava. Mesmo assim, o Baianinho sempre levou certa vantagem. E, depois de uns anos de confronto, o Cobrinha passou a não ganhar mais."

Mas Baianinho sabe que o tempo é implacável. Está com 47 anos e a vista não é mais a mesma. As pernas cansam mais rápido. As apostas altas da sinuquinha de boteco não são decididas numa partida, mas em melhor de 15 ou 19 jogos, o que exige horas em pé.

"Tento não abraçar essas canseiras e ficar focado. Se deixar passar o peso das pernas para a cabeça, vou errar a bolas."

Ele acredita que continua no topo porque consegue manter a concentração por mais tempo e pelo peso de sua reputação. Vagnão diz que Baianinho é cada vez mais ameaçado, mas ele ainda é o melhor por jogar bem todas as variações.

"No bolinho ele é o melhor junto com Maycon, Gladiador e Filipinho. No 4x4 tem ele e o Lori de Fortaleza. Na bola lisa, ele, Brinquinho e Ratinho. No par ou ímpar é o melhor. Se fizer um torneio em que o jogador é obrigado a jogar estas quatro modalidades, o adversário pode ganhar uma, mas perde nas outras."

Maycon - Reprodução Instagram - Reprodução Instagram
Maycon de Teixeira de Freitas é considerado o principal candidato a destronar Baianinho
Imagem: Reprodução Instagram

Baianinho sabe que há muitos jogadores com a mesma gana e ambição que ele tinha quando estava começando novo. "Eu era o moleque novo derrubando cara veterano. Um dia vai aparecer alguém para ser o moleque novo no meu caminho."

A sinuca é um lugar de apelidos e este sucessor provavelmente não será conhecido pelo seu nome. Como Vagnão de Araraquara e Baianinho de Mauá sugerem, muitas vezes a geografia explica a origem do apelido, mesmo que a referência geográfica não faça sentido algum.

Josué Ramalho da Silva existe só nos documentos. Como vários aspectos da vida, a maneira com que a pessoa é chamada é algo que o sujeito não controla. A curiosidade é que, se Maycon se tornar o melhor, a regra continuará valendo. Teixeira de Freitas é uma cidade baiana. O título mudaria de mãos, mas não mudaria de estado.

Chácara - Felipe Pereira - Felipe Pereira
Baianinho considera São Paulo uma "loucura" e escolheu morar no interior do estado
Imagem: Felipe Pereira

Bom de resenha

Baianinho jogava nas quebradas, em botecos que uma pessoa de fora acharia mal-assombrados. Como todo jogador de sinuquinha, ele sabe que respeito garante muita coisa.

"Tem um ditado que é verdade: quem faz a quebrada é você. Se começa a ganhar e contar vantagem, está pedindo para ser roubado. Sempre vai achar problema. Cara liga para o ladrão e fala que fulano está saindo com dinheiro e é um sarrinho."

Quando estava em São Paulo, Baianinho frequentava bares na periferia e em locais como Taboão da Serra e Diadema, regiões com altos índices de criminalidade. De madrugada ele ia embora de ônibus e trem com um bolo de dinheiro no bolso. Precisava de muita leitura para não correr riscos.

"Às vezes eu estava ganhando e descobria que o adversário era um cara bravo na área. Não podia entregar o jogo para devolver o dinheiro, porque o cara ia achar que era tiração. Começava a fingir que tava cansado, desconcentrado, e ele empatava. Nessa hora, pedia uma cerveja para comemorar empate e elogiava o adversário. A gente ficava conversando e virava amigo. Meses depois, com mais intimidade, voltava lá e buscava o dinheiro do cara."

Baianinho conta que perdeu dinheiro para ladrão só duas vezes, ocasiões em que roubaram o bar inteiro. A última foi sábado passado, quando criminosos invadiram uma chácara em Piracicaba onde acontecia uma noitada de apostas. Na borda da mesa havia R$ 22 mil disputados entre Baianinho e Maycon.

A última cena da live de Vagnão de Araraquara tem a tela preta e ele implorando para entrar no banheiro onde outros se trancaram. A caixa de comentário ficou cheia de relatos de preocupação e perguntas que não eram respondidas. Era quase manhã quando a notícia que todos estavam bem se espalhou.

A essa altura, a situação tinha virado piada. Pelas imagens, era possível ver Baianinho sair correndo e apareceram memes dele ultrapassando Usain Bolt, cruzando a Bahia e dando voltas ao mundo.

Youtubers - Felipe Pereira - Felipe Pereira
Youtubers transmitem ao vivo partida entre Baianinho e Maycon
Imagem: Felipe Pereira

YouTube mudou Baianinho de patamar

Depois que se tornou melhor do Brasil, Baianinho teve um problema. Ninguém queria jogar com ele de igual para igual. Encontrava desafiantes somente se desse vantagem, como o adversário jogar menos bolas e/ou apostar metade do valor. Em algumas ocasiões, jogava somente com uma mão. Em outras, se o rival achasse que ia perder, podia atirar a branca na caçapa e era declarado empate.

Este nível tão acima dos demais fez a fama de Baianinho nos botecos. Mas muitas pessoas que sabiam de suas proezas não conheciam sua cara. Em 2016, youtubers começaram a transmitir ao vivo os jogos. Vagnão de Araraguara é um deles e sabe o diferencial que é ter Baianinho na programação.

Os cinco vídeos mais vistos no canal de Vagnão são de Baianinho. O campeão de audiência tem 8 milhões de visualizações. "A transmissão de dois jogadores normais dá 5 mil pessoas assistindo. O jogo do Baianinho dá 20 mil pessoas."

A fama extrapola os bares. Amante da sinuca, o ator Caio Castro ganhou um taco de aniversário e marcou Baianinho como pessoa que gostaria de desafiar. Esta popularidade rendeu contratos ao jogador e hoje ele usa camisa com a marca de seis patrocinadores.

A maioria é permuta de material. Quando há pagamentos, os valores são pequenos, afirma Baianinho. Mas ser fenômeno no YouTube fez os convites para eventos se multiplicarem.

Mais que partidas a dinheiro, Baianinho participa de apresentações em ginásios. A média é 2 mil pessoas pagarem ingresso para ver o jogo, participar da sessão de fotos ou tentar um autógrafo no taco. "O cachê é R$ 10 mil limpo, as despesas eles pagam."

Fagocitado - Felipe Pereira - Felipe Pereira
Bares reúnem tanta gente que não é possível ver a mesa e Baianinho quase desaparece no meio do público
Imagem: Felipe Pereira

Honra de perder

Cobrador, 48, é jogador do circuito da sinuquinha, mas se considera um taco fraco. Morador de Sumaré (SP), enfrenta Baianinho pedindo vantagem. Naquela madrugada em São Bernardo do Campo teve empate, e Cobrador deixou a mesa agradecido. "É uma honra jogar com o senhor!"

Ele explica que Baianinho é admirado porque o jogo parece perdido e, de repente, uma tacada dele muda tudo. Cobrador diz que, mesmo assim, nunca há risadinhas, deboche ou sarro.

A seriedade é marca na sinuca. Quando duas pessoas no público apostam, nem trocam olhares na hora de o perdedor passar o dinheiro. O silêncio e o respeito são exigências porque o ambiente é cheio de gente que não leva desaforo para casa.

Mas as pessoas também conhecem a dor de perder dinheiro. O frequentador mais comum da sinuquinha é o cara sem sobras financeiras que quer se divertir no dia em que os tacos fortes estão em sua cidade. A aposta faz parte do ritual e ele saca R$ 500 do banco. A possibilidade de prejuízo é uma consequência.

Sem pé de meia

A tendência é que, num futuro próximo, este amante da sinuca sinta falta das noites em que perdeu dinheiro rodeando as mesas dos tacos fortes. O esporte caminha para ter partidas em ginásios e público nas arquibancadas. Este movimento ganhou força em 2019 e o 2020 prometia.

Mas veio a pandemia e ficou a impressão de que a sinuca voltou algumas casas no tabuleiro da profissionalização. Os jogos voltaram a ser em botecos abarrotados. O público vê só um pedaço da mesa, igual a espectador de Fórmula 1 que enxerga só uma parte da pista e perde boa parte da ação.

Baianinho prefere partidas em ginásio por achar mais adequado para jogadores e público. Mas, na pandemia, não há prefeito que dê alvará.

Mesmo sendo o melhor do Brasil há tanto tempo e apostando dinheiro grosso, Baianinho não tem reserva financeira. Ele não pode ficar sem jogar porque tem contas a pagar, e culpa os excessos.

"Você quer dar uma de rico, ir aos lugares onde nunca foi: restaurante grã-fino, hotel de luxo, uma festa boa, tudo muito caro. E depois você observa que não é para você. Às vezes ia nesses lugares e não me sentia bem."

Baianinho mora de aluguel em Ribeirão Preto e o único sinal de prosperidade é uma caminhonete bacana.

Também ajudou no atraso financeiro a prática de apostar o dinheiro da presença vip que recebia nos eventos. Ele dava muita vantagem para adversários, e às vezes perdia. Voltava para casa sem nada. Agora, aprendeu que o dinheiro do cachê é sagrado.

Baianinho espera que a pandemia acabe logo e o período no topo da sinuca dure mais alguns anos. Pensa na aposentadoria e na família. "Quero comprar uma casa para mim e uma casa para os meus dois filhos. Depois, tudo é lucro."