PUBLICIDADE
Topo

Grevistas da RedeTV! dizem ser escalados para trabalhar em festas de donos

Editores de imagens, cinegrafistas e outros funcionários da Rede TV! estão em greve desde terça-feira - Divulgação
Editores de imagens, cinegrafistas e outros funcionários da Rede TV! estão em greve desde terça-feira Imagem: Divulgação

Felipe Pereira e Rodrigo Bertolotto

Do TAB, em Osasco (SP)

02/09/2021 16h13Atualizada em 10/09/2021 18h56

A tensa relação entre patrão e empregado na RedeTV! é percebida logo no estacionamento do canal, onde se concentram os funcionários paralisados. TAB conversou com 20 pessoas que estão em greve desde o dia 31 de agosto. Eles não se identificaram por medo de represálias.

No meio da lista de reclamações, uma chama particular atenção: os empregados afirmam que os donos da emissora convocam funcionários para trabalhar em suas festas particulares, algumas no litoral de São Paulo. Operadores de áudio, maquiadores, iluminadores e cinegrafistas dizem que não ganham nada para ir a locais onde os sócios do canal de televisão recebem amigos ou festejam algum aniversário da família. No máximo, ganham uma folga, se a festa for em um final de semana, e eles estejam de plantão. Além disso, desfalcam as equipes que estão nos estúdios — e retiram equipamentos que seriam usados nas transmissões e gravações da emissora.

Os funcionários dos setores técnicos da emissora pararam por causa da baixa remuneração — um cinegrafista ganha R$ 2.200, quando a média da categoria, em São Paulo, é de R$ 3.200.

Também existe descontentamento do lado oposto. A direção da RedeTV! avalia os grevistas de maneira negativa. Fundador e acionista da emissora, Marcelo de Carvalho reclamou no Twitter que um "punhado de sindicalistas" conduziu técnicos a uma greve sem motivos.

A emissora enviou uma nota ao TAB (leia a íntegra no final deste texto), informando que não houve corte de pessoal durante a pandemia. Diz que ofereceu inicialmente um reajuste salarial de 3,8% (aumentado depois para 7,7%) aos grevistas — a categoria pedia 18,72%. Trecho do posicionamento da RedeTV! classifica a paralisação como "uma greve sem grevistas" e alega que há participação de apenas 30 profissionais, enquanto o movimento fala em 200 pessoas — em alguns setores, como o de operadores de câmera, a adesão chega a 70%.

Na audiência conciliatória de quarta-feira (8), foi proposto pela Justiça um aumento de 17% e estabilidade até o final das negociações para os grevistas. Os trabalhadores aceitaram e pediram que não houvesse demissões até abril de 2022. Já a empresa ofereceu 7,7% de correção, e os funcionários não aceitaram. Agora a TV ameaça pedir a ilegalidade da greve na Justiça. Uma nova reunião de conciliação deve ocorrer na próxima semana.

A paralisação iniciada em 31 de agosto acabou transformando a rua lateral à sede da emissora, em Osasco (SP), em uma célula de militância trabalhista. O carro de som estava parado bem ao lado da cancela da entrada do estacionamento. Do outro lado da rua, uma tenda abrigava lideranças. A bandeira vermelha com dizeres de greve foi colocada perto da porta por onde entram os pedestres. Cerca de 100 funcionários dão sustentação à paralisação. O TAB voltou à sede da RedeTV! na quarta-feira (8), e eles estavam reunidos em assembleia.

Toda essa movimentação é acompanhada por um ícone bolsonarista. A sede da RedeTV! fica às margens da rodovia Castello Branco — e do lado oposto do asfalto está uma loja imensa da Havan, onde uma réplica da estátua da Liberdade parece acompanhar os protestos dos grevistas.

assembleia  - Divulgação - Divulgação
Funcionários da Rede TV! em assembleia aprovam greve
Imagem: Divulgação

Nos bastidores

A paralisação não inclui jornalistas, já que a categoria tem outro sindicato e convenção de trabalho diferente.

"O movimento é justo. Até empresas de médio porte pagam mais que a RedeTV!. Aqui, os funcionários estão vendendo o vale-refeição para pagar as contas", declarou Edson Amaral, diretor do Sindicato dos Radialistas, ao TAB.

Em ocasiões de greve, é comum que haja versões divergentes. O sindicato alega que a programação da emissora está indo ao ar com problemas devido à falta de pessoal. As falhas incluiriam imagens sem foco e corte de câmeras em momentos errados. O colunista do UOL Ricardo Feltrin reportou que houve dificuldade para gravar o programa de Claudete Troiano.

O canal de TV nega problemas, mas funcionários da parte técnica que se mantiveram trabalhando contaram ao TAB que supervisores estão cobrindo os desfalques. Há relatos de que profissionais em cargo de chefia têm feito turnos de 12 horas para cobrir as funções técnicas sem trabalhadores e, ainda assim, equipes estão deixando de fazer matérias de rua por falta de mão de obra.

Jornalistas consultados pela reportagem não se manifestam sobre a situação para não criar polêmica. Também não falam da paralisação, mas consideram a greve justa, tendo em vista os quatro anos sem aumento salarial para os técnicos e os três anos sem participação nos lucros da emissora, que não divulga balanço financeiro. Lideranças sindicais se apoiam nesses argumentos para incentivar a paralisação.

Perdas e ganhos

Os grevistas reclamam que, em 2020, tiveram de assinar a adesão a um programa que cortou os salários em 25%, por causa da crise gerada pela pandemia. Os argumentos dos advogados do canal são que a emissora foi duramente afetada pela pandemia e que detém "apenas 0,4% do mercado de publicidade", e que o preço cobrado por essa propaganda é "bem inferior ao valor em outras emissoras".

Os trabalhadores afirmam que repasses de FGTS e Previdência Social estão atrasados. Argumentam também que a RedeTV! deixou de pagar o plano de saúde dos funcionários durante três meses o problema foi descoberto somente quando consultas começaram a ser recusadas. Por meio de sua assessoria de imprensa, a emissora disse que essas informações são "totalmente inoportunas e inverídicas" e que, sobre o plano de saúde, "durante a maior crise sanitária da história recente do país, todos os colaboradores tiveram acesso ao atendimento médico de qualidade oferecido por uma reconhecida operadora de saúde, inclusive com respaldo institucional nos casos mais graves."

Sikêra - Reprodução/TV A Crítica - Reprodução/TV A Crítica
Sikêra Jr declarou que recebe R$ 500 mil por mês
Imagem: Reprodução/TV A Crítica

Íntegra da nota da Rede TV!

"A articulação promovida pelo Sindicato desencadeou em um fato inédito: uma greve sem grevistas, evidenciada pela praticamente nula adesão ao movimento, organizado por sindicalistas radicais.

A emissora ressalta que são absolutamente inverídicas as informações relatadas. Ao contrário de outras empresas do setor de comunicação, que notoriamente praticaram grandes cortes de folha de pagamento durante a pandemia, a RedeTV! não o fez e garantiu empregos a todos no período.

A RedeTV! está com os salários de todos os seus colaboradores em dia. Além disso, a emissora já informou que concederá uma antecipação do reajuste salarial de 3,8% aos radialistas.

Todas as operações da emissora estão mantidas e funcionando normalmente, assim como a programação que permanece sendo exibida sem qualquer alteração. A RedeTV! seguirá desempenhando suas atividades juntamente com seus mais de mil colaboradores refutando tal movimento, que é representado por cerca de 30 grevistas."