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Vida após sentença: viúva de Evaldo, morto por militares, tenta recomeçar

Luciana Nogueira, viúva do músico Evaldo, morto em 2019 por 12 militares em Guadalupe, no Rio - Zô Guimarães/UOL
Luciana Nogueira, viúva do músico Evaldo, morto em 2019 por 12 militares em Guadalupe, no Rio
Imagem: Zô Guimarães/UOL

Daniele Dutra

Colaboração para o TAB, do Rio

15/10/2021 10h25

Com aparência cansada e ainda sonolenta por causa do calmante, Luciana Nogueira pôde, enfim, acordar aliviada após dois anos e meio. Na madrugada de quinta (14), os oito militares responsáveis pela morte do catador Luciano Macedo e de seu marido, Evaldo Rosa, foram condenados.

Mesmo depois de exaustivas 15 horas no Tribunal de Justiça Militar do Rio de Janeiro, às 8h da quinta-feira (14) ela já estava de pé. O celular não parava de apitar com ligações e mensagens de WhatsApp.

O recomeço — aquele possível, já que não se apaga um assassinato — vai ser aos poucos. Luciana ainda tateia para tentar voltar à vida que tinha. As rodas de samba que o marido tanto amava já não têm mais sentido para ela, que chegou a ir duas vezes com a sobrinha. Saiu triste.

"Quando toca Péricles, Belo, me bate uma tristeza danada. O Duda [apelido de Evaldo] era fã, amava, mas hoje em dia não tem mais graça pra mim", disse a viúva ao TAB.

A tatuagem no braço de Luciana: 'Duda, sou parte de sua vida e você é toda minha história' - Zô Guimarães/UOL - Zô Guimarães/UOL
A tatuagem no braço de Luciana: 'Duda, sou parte de sua vida e você é toda minha história'
Imagem: Zô Guimarães/UOL

'Lembro como se fosse hoje'

No dia 7 de abril de 2019, Evaldo ia de carro com a família para um chá de bebê quando o veículo foi alvejado em Guadalupe, na zona norte do Rio, por dezenas de disparos efetuados pelos militares.

O músico foi atingido por nove tiros, e seu carro, por 62 — ao todo foram 257 disparos de fuzil e pistola. Dentro do veículo estava Luciana, o filho Davi, de 7 anos na época, uma amiga da família e o sogro de Evaldo, que também foi atingido, mas sobreviveu.

O catador Luciano Macedo estava passando perto com a esposa grávida, recolhendo madeira. Quando viu o desespero da família, foi tentar ajudar, mas acabou sendo baleado pelos militares e morreu 11 dias depois.

"Lembro como se fosse hoje. Os tiros, o desespero, eu tentando proteger o meu filho daquela situação e o carro dos militares logo atrás."

O tenente Ítalo da Silva Nunes Romualdo, que comandou a ação e deu mais disparos, foi condenado por 31 anos e seis meses de prisão pelo duplo homicídio e tentativa de homicídio. Ele ficará em regime fechado. Todos os outros sete terão pena de 28 anos de prisão. Os oito condenados serão expulsos da corporação por culpabilidade comprovada.

Outros quatro oficiais que não dispararam suas armas no dia do crime foram absolvidos. Os 12 foram absolvidos da acusação de omissão de socorro. Os militares foram condenados em primeira instância, mas a defesa ainda pode recorrer. A decisão final fica nas mãos do Supremo Tribunal Militar. Enquanto isso, eles aguardam em liberdade.

A pasta onde Evaldo Rosa guardava suas letras de música - Zô Guimarães/UOL - Zô Guimarães/UOL
A pasta onde Evaldo Rosa guardava suas letras de música
Imagem: Zô Guimarães/UOL

Da casa própria para o aluguel

Enquanto contava a tragédia, emocionada, o filho Davi brincava no celular no quarto com a prima mais velha, que segundo ele, é sua irmã. Mãe e filho moram em um condomínio confortável em Colégio, na zona norte do Rio, mas vão se mudar para uma casa maior na próxima semana.

Como a casa em que moram hoje está em ritmo de mudança, repleta de caixas, a técnica de enfermagem conseguiu trocar os turnos no hospital infantil em que trabalha e tem passado a maior parte do tempo na casa da irmã mais nova, vizinha à sua.

Quando perdeu o marido, ela e Davi saíram da casa própria em Marechal Hermes, pois não tinham condições de ficar naquele ambiente sem Evaldo. Foram viver de aluguel. Apegada aos pais e aos cinco irmãos, que segundo ela foram seus alicerces, ela parece animada com a mudança. "Vamos para uma casa maior, mais confortável, a gente adora fazer churrasco em família", disse.

Luciana faria 30 anos de união com Evaldo, em agosto. Eles começaram a namorar quando ela tinha 14. Não sabia o que era viver sem ele. O cavaquinho, as partituras e a última canção feita pelo músico, de próprio punho, são sua herança agora.

O quadro que aparece em uma foto nessa reportagem, com a pintura dos três, foi presente de um artista depois da tragédia. A certa altura, Davi, que estava tímido, saiu do quarto e começou a dedilhar o instrumento.

"Quero colocá-lo na aula de música. Desde [que ele era] pequeno o pai sentava no sofá com ele e ficava tocando, ensinando", contou Luciana. Além da dor da perda e da luta por justiça, a técnica de enfermagem precisou lidar com outro grande desafio: ser mãe e pai.

Davi sofre de asma, bronquite e faz acompanhamento médico desde que nasceu. O menino tossiu algumas vezes, durante a reportagem, e precisou usar a bombinha para evitar uma crise. A viúva conta que sempre que o filho passava mal, os dois corriam com ele para o hospital, sempre juntos, um ajudando o outro, nunca sozinhos.

"Depois da morte do pai, quando ele quebrou o pé, tive de correr para o hospital com ele chorando de dor. Naquele instante me senti completamente sozinha, comecei a chorar junto. Não tinha quem me ajudasse a tirá-lo do carro. Me vi sozinha, perdida. Ser pai e mãe é muito difícil", desabafou.

Luciana Nogueira, esposa do musico Evaldo, e seu filho Davi - Zô Guimarães/UOL - Zô Guimarães/UOL
Luciana Nogueira e seu filho Davi
Imagem: Zô Guimarães/UOL

Razão de viver

Carinhosa, o tempo inteiro Luciana diz que Davi é sua alegria, o motivo de ela estar ali. Desde a perda, mãe e filho fazem acompanhamento psicológico, mudaram alguns hábitos e ficaram mais caseiros.

A viúva conta que a família sempre frequentou a igreja Assembleia de Deus, participava de campanhas de oração e os três iam juntos aos cultos, toda terça e domingo. Luciana continua indo à igreja, mas confessa que não é a mesma coisa.

"Sou muito grata a Deus pela minha vida, pela vida do meu filho. Já questionei muitas vezes o motivo de isso tudo ter acontecido, mas continuo tendo fé." Após a perda, a enfermeira recebeu vários convites para ir à uma "mesa branca" — prática de mediunidade usada na umbanda e no espiritismo —, mas recusou a oferta dizendo que já tem sua crença.

Enquanto Davi corria e dançava pela casa, imitando os passos do Michael Jackson, a mãe contava que ele ficou um pouco mais infantil depois da tragédia. Ficou mais retraído na escola e fora de casa. Entre uma brincadeira e outra, Luciana lembrou da lição de casa que ele precisava entregar — relatório de uma plantinha da qual estava cuidando.

Luciana Nogueira, esposa do musico Evaldo, morto em 2019 por 12 militares em Guadalupe, no Rio - Zô Guimarães/UOL - Zô Guimarães/UOL
Enfermeira, Luciana Nogueira complementa a renda vendendo roupas e biquínis
Imagem: Zô Guimarães/UOL

À beira da loucura

Após 15 dias, Luciana precisou voltar ao trabalho. No ano seguinte, veio a pandemia, o medo da covid-19 e o isolamento.

"O trabalho me ajudou bastante, mas se você não tiver estrutura, uma família, você fica louca, vai para o fundo do poço. O isolamento foi uma das partes mais difíceis. Você fica ali sozinha e tudo o que tem para fazer é pensar, refletir."

Para complementar a renda, a técnica de enfermagem vende biquínis de marca, roupas femininas, masculinas e sapatos sob encomenda. "Antes de tudo isso acontecer eu já vendia meus biquínis, mas depois decidi colocar roupas e sapatos também. Tem me ajudado bastante, graças a Deus."

Apaixonados por praia, ela e o filho já estão planejando uma viagem para Natal no próximo ano, mas segundo a viúva, ainda não consegue fazer muitos planos para o futuro. "Antes eu conseguia distinguir mais a felicidade, fazer planos. Hoje estou engatinhando, tentando recomeçar."

Na sexta-feira (15), Luciana completa 44 anos. Recomeço: planejou reunir parte da família para um almoço, onde enfim deve respirar com um pouco de alívio.