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'Não queremos ficar aqui': um raio-x das ocupações de prédios no Recife

Priscila Lira morava com a família na Rua do Imperador, onde vivem dezenas de pessoas em situação de rua no Recife - Arnaldo Sete/UOL
Priscila Lira morava com a família na Rua do Imperador, onde vivem dezenas de pessoas em situação de rua no Recife
Imagem: Arnaldo Sete/UOL

Alice de Souza

Colaboração para o TAB, do Recife

08/10/2021 04h00

Em 53 anos de vida, a auxiliar de serviços gerais Márcia Marinho só teve casa própria uma vez na vida, quando herdou um barraco da mãe no Recife. Vendeu o espaço depois que um homem invadiu e tentou estuprar uma das filhas dela. Desde então, alimenta o sonho da casa própria. Por isso, passou 15 anos em São Paulo.

Voltou à sua terra natal no meio da pandemia e recebeu um convite de uma das filhas: ocupar um espaço de exposição no prédio do antigo Centro Cultural dos Correios, no Bairro do Recife. "Quem sabe não é daqui que sai a minha casa", explica.

Márcia integra uma das 150 famílias que ocupam o prédio desde o dia 7 de setembro deste ano. Todas foram mobilizadas pela Frente Popular por Moradia no Centro e formam a Ocupação Custódio Pereira, que marca uma peleja por habitação no Centro do Recife -- área de caráter comercial que esconde edificações desocupadas e sem função social.

A auxiliar de serviços gerais Márcia Marinho, 53, na ocupação do prédio dos Correios - Arnaldo Sete/UOL - Arnaldo Sete/UOL
A auxiliar de serviços gerais Márcia Marinho, 53, na ocupação do prédio dos Correios
Imagem: Arnaldo Sete/UOL

É o caso do prédio de número 262 da Rua Marquês de Olinda, uma das vias que levam ao Marco Zero, cartão-postal recifense. A edificação, comprada em 1921 para ser a sede dos Correios em Pernambuco, era ocupada pelo centro cultural e uma agência postal. O centro cultural operava desde 2009 e fazia parte do circuito de artes do bairro. Em março de 2020, fechou em função da pandemia e não voltou a reabrir.

Agora, os cinco pavimentos, com seis salas de exposição, auditório e restaurante, estão ocupados por pessoas que desejam um teto próprio para viver. "Por causa da pandemia, existem muitas famílias sem conseguir pagar o aluguel. Lógico que a gente não quer ficar aqui, o que a gente quer é moradia", explica Bruna Macêdo, 28, uma das líderes da Frente Popular por Moradia no Centro.

A rotina dentro do ex-centro cultural

Da época do centro cultural, restam poucas memórias no prédio. No pavimento térreo, ao lado esquerdo, estão três placas comemorativas. Do lado oposto, uma pichação na parede -- "a arte vivi em nós" -- mostra como a cultura habita hoje o local.

A barraca no térreo vende biscoito, macarrão instantâneo, ovo, salsicha e sardinha. Para beber, as opções são água, café e refrigerante. Há também regras. Não se pode consumir bebidas alcoólicas, usar outras drogas, brigar, sentar nas escadas, jogar lixo pelas sacadas nem mexer nos objetos de outros apartamentos.

Antes da pandemia, O Centro Cultural dos Correios fazia parte do circuito de artes do centro histórico do Recife - Arnaldo Sete/UOL - Arnaldo Sete/UOL
Antes da pandemia, O Centro Cultural dos Correios fazia parte do circuito de artes do centro histórico do Recife
Imagem: Arnaldo Sete/UOL

As casas são divididas por lençóis e fios de plástico, para não danificar a estrutura do prédio, localizado no perímetro de tombamento do Bairro do Recife. Quando chegaram, as famílias foram se dividindo entre os pavimentos.

A auxiliar de serviços gerais Márcia Marinho participa de uma ocupação pela primeira vez na vida e, por enquanto, ocupa a frente do "imóvel" onde estão vivendo a filha, Daniele Santos, 23, a nora e os netos. Todos os dias, monta e desmonta o lençol e o colchão onde vai dormir.

"Quando eu fui pra São Paulo, levei 161 cartas para Gugu, para ele me dar uma casa. Lá, fui me virando. Ano passado, minha filha me ligou dizendo que a minha casa não ia aparecer lá. Então voltei", conta Márcia. A filha dela, Daniele, pagava um aluguel de R$ 400. "A dignidade do pobre é ter o nome limpo e ter a sua casa", ressalta Márcia.

Toda semana, moradores do edifício Segadas Vianna fazem um mutirão de limpeza nas áreas comuns do prédio - Arnaldo Sete/UOL - Arnaldo Sete/UOL
Toda semana, moradores do edifício Segadas Vianna fazem um mutirão de limpeza nas áreas comuns do prédio
Imagem: Arnaldo Sete/UOL

Fugindo do aluguel e da rua

A frase mais ouvida na ocupação é: "Aluguel você paga hoje e amanhã já está devendo". Todo mundo ali tem a mesma esperança de que a negociação avance com os órgãos públicos para o repasse de um terreno ou uma casa.

A desempregada Bárbara Lopes, 30, pagava um aluguel de R$ 300 para morar em um barraco de madeira. Veio de São Paulo há três anos, com os três filhos, e passou a morar no Pilar, uma comunidade que se engaja na luta por moradia desde 2009. "Eu não estava conseguindo manter o aluguel e a comida para os meus filhos", conta.

No andar de baixo, em um espaço mais reservado, está a desempregada Priscila Lira, 28. Diferente da colega de ocupação, Priscila vivia na Rua do Imperador. Era uma das cerca de 1,6 mil pessoas em situação de vulnerabilidade contabilizadas pela Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos do Recife em 2019.

O casal tem uma filha de 2 anos com microcefalia. Foi por causa dela que aceitou o convite para ocupar o prédio dos Correios. "A gente dormia no meio da rua, mas tinha medo que alguém levasse a minha filha. A situação não era muito boa. Muito ou pouco, aqui na ocupação, dá para a gente viver e comer", conta.

Ocupantes dividiram as salas de exposição do centro cultural dos Correios com lençois e fitas de plástico, para não danificar a estrutura secular do prédio - Arnaldo Sete/UOL - Arnaldo Sete/UOL
Ocupantes dividiram as salas de exposição do centro cultural dos Correios com lençois e fitas de plástico, para não danificar a estrutura secular do prédio
Imagem: Arnaldo Sete/UOL

Centro do Recife tem outra ocupação

A Ocupação Custódio Pereira é filha de outro movimento de ocupação de prédios abandonados no Recife. Parte dos moradores vieram do Edifício Segadas Vianna, na Rua Marquês do Recife. A edificação foi ocupada no dia 17 de maio por integrantes do Movimento de Luta e Resistência pelo Teto (MLRT).

O prédio foi construído para abrigar o antigo Iapas (Instituto de Administração Financeira da Previdência e Assistência Social) e está fechado há mais de 10 anos. Quando os ocupantes chegaram, o imóvel estava tomado pelo lixo: 18 toneladas de entulhos e documentos roubados esperando pelos portadores. Foram dias de limpeza até conseguir trazer o mínimo de habitabilidade.

Atualmente, 150 famílias vivem na ocupação -- com cerca de 50 crianças e 40 idosos. As divisórias são de madeira, restos de porta e pregos. Alguns moradores abriram salão de cabeleireiro; outros, uma mercearia. Lá é mais fácil receber doações, já que a Rua do Imperador -- local onde miséria e situação de rua se concentram na cidade pernambucana -- está logo atrás.

Em cinco meses de ocupação, andares do edifício Segadas Vianna ganharam comércio de alimentos e serviços - Arnaldo Sete/UOL - Arnaldo Sete/UOL
Em cinco meses de ocupação, andares do edifício Segadas Vianna ganharam comércio de alimentos e serviços
Imagem: Arnaldo Sete/UOL
Marcelo do Carmo, 45, é um dos líderes da ocupação do prédio Segadas Vianna e montou uma mercearia no espaço que ocupou - Arnaldo Sete/UOL - Arnaldo Sete/UOL
Marcelo do Carmo, 45, é um dos líderes da ocupação do prédio Segadas Vianna e montou uma mercearia no espaço que ocupou
Imagem: Arnaldo Sete/UOL

Dali, nos andares mais altos, é possível admirar uma das vistas mais bonitas da cidade. Por um horizonte semelhante, a uma ponte de distância, há quem pague mais de R$ 2 mil de aluguel. A desempregada Larissa Santos, 18, chegou no primeiro dia, grávida, e ajudou a limpar o prédio. Larissa se mudou com tios, primos, irmãos e avó. São oito núcleos de parentes dela, todos no primeiro andar. A casa da avó é a maior e conta com uma geladeira cheia de marmitas, doadas na noite anterior. "Agora que estou gestante, preciso conseguir uma casa", ressalta.

No Recife, há um déficit de 71.160 unidades habitacionais. A Secretaria de Habitação afirma ao TAB que "está levantando a situação cadastral de imóveis abandonados ou subutilizados na área central que apresentam débitos junto ao município para utilização como moradia de interesse social". Além disso, afirma que a questão das ocupações está sendo avaliada.

O edifício Segadas Vianna estava desocupado há mais de 10 anos e antes abrigava o Instituto de Administração Financeira da Previdência e Assistência Social - Arnaldo Sete/UOL - Arnaldo Sete/UOL
O edifício Segadas Vianna estava desocupado há mais de 10 anos e antes abrigava o Instituto de Administração Financeira da Previdência e Assistência Social
Imagem: Arnaldo Sete/UOL

As tentativas de retirar os moradores, por outro lado, já ocorreram. No Segadas Vianna, a reintegração de posse foi revertida na Justiça em julho. Segundo o INSS, o prédio iniciaria obras ainda neste ano para fechamento de áreas e colocação de bandejas, a fim de evitar acidentes na estrutura. "Com a ocupação, os serviços foram suspensos". Há em curso um processo de transferência do imóvel para a SPU (Secretaria de Patrimônio da União).

O INSS reforçou à reportagem que permanece aguardando posicionamento da Justiça. Os Correios também entraram com uma ação judicial para reintegração de posse do imóvel. "Após a decisão judicial, sendo favorável à empresa, a Superintendência Estadual de Pernambuco dará continuidade às ações para ocupação do imóvel como sede administrativa", afirmou em nota. Enquanto isso, os moradores das duas ocupações vivem sem saber se dormirão com teto num futuro próximo. Larissa, aos nove meses de gravidez, pensa nisso todos os dias. "A minha preocupação é a qualquer momento precisar sair daqui. Ninguém sabe pra onde vai."