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Ameaças e troca do protagonista: a saga de Wagner Moura e seu 'Marighella'

Após dois anos, Wagner Moura volta ao Brasil para encerrar "missão" - Bob Wolfenson/Divulgação
Após dois anos, Wagner Moura volta ao Brasil para encerrar "missão"
Imagem: Bob Wolfenson/Divulgação

Tiago Dias

Do TAB, em São Paulo

30/10/2021 04h01

Wagner Moura se lembra quando visitou o túmulo de Carlos Marighella pela primeira vez, em Salvador. Na lápide, uma escultura de Oscar Niemeyer, com a silhueta do homem com o punho em riste. O epitáfio é de Jorge Amado: "Retiro da maldição e do silêncio e aqui inscrevo seu nome de baiano".

A maldição e o silêncio sempre revoltaram o ator, desde os tempos de estudante. "Marighella foi a síntese do meu interesse por essas figuras, e de uma certa revolta por ter total compreensão de que essas insurreições foram mal contadas. Queria futucar esse lugar", diz ao TAB, com a fala calma e algumas pausas.

Após três anos de cancelamentos, ameaças e reveses, a cinebiografia de Carlos Marighella finalmente estreia no Brasil no próximo dia 4. Para o artista, este é o capítulo final da "missão" de uma vida.

A máscara N 95 esconde parte de suas expressões. O ator parece ainda estar sob efeito do jet lag. "Que dia é hoje mesmo?", pergunta, irrequieto na cadeira de um quarto de hotel em São Paulo.

Com cabelos levemente grisalhos, brinco na orelha esquerda e dois anéis nas mãos, Moura pisava pela primeira vez no país em dois anos. Costumava visitar a Bahia de seis em seis meses, mas a pandemia o fez entrar num esquema rígido de quarentena com a família em Los Angeles, onde mora desde 2018.

Tem sido assim desde "Narcos", quando fez de Bogotá sua residência. "Quando estou em algum lugar, não consigo ir só. Sempre levo minha família comigo. É bom para as crianças." Com as experiências estrangeiras, os filhos já falam três línguas. "Melhor que eu, inclusive."

Em 2022 a ideia é voltar a morar em Salvador, onde tem casa. Ele deve filmar em Pernambuco o novo longa-metragem de Kleber Mendonça Filho e vai produzir uma série para a Disney+ sobre Maria Bonita.

Ele volta os olhos para a janela, com os prédios da região da Paulista ao fundo. "Mas é engraçado, não me sinto não estando aqui", diz. "Muitos amigos com quem eu converso dizem que estão adoecendo. Em mim batia de outra forma, não sei se melhor ou pior."

Seu Jorge com Wagner Moura no set de "Marighella" - Divulgação - Divulgação
Seu Jorge com Wagner Moura no set de "Marighella"
Imagem: Divulgação

De Mano Brown a Seu Jorge

Wagner Moura passava o verão em Salvador quando o jornalista Mário Magalhães lançou a biografia de Marighella pela Companhia das Letras. Foi a amiga Maria, neta do ativista e contemporânea do teatro em Salvador, quem "startou" a ideia do filme. Fascinado pela figura, o ator queria apenas produzir e escrever o roteiro com Felipe Braga, em 2013.

"Quando pensei em dirigir, queria algo com três atores. Marighella é um negócio complexo da porra. Filme grande, orçamento caro, personagem pra caralho, porrada pra tudo quanto é lado", relembra, rindo. "Mas eu queria ver esse filme. Aí ficaram: 'quem vai dirigir?' Tinha de ser alguém com afinidade, era bom que fosse um baiano. Falei: 'acho que sou eu'."

Em 2017, seu Marighella já tinha rosto e nome. Mano Brown fez a preparação com Fátima Toledo e entrou, segundo membros da equipe, "de corpo e alma" no projeto, mesmo em turnê com os Racionais MC's. Saiu do projeto de comum acordo. "Não podia ter alguém ali que estivesse dividido. Ele é incrível, admiro demais esse cara, é um parceiro do filme", diz Moura.

A um mês do início das filmagens, o diretor se viu sem protagonista. Lembrou de Seu Jorge. O ator topou aos 45 do segundo tempo. "Quando ele chegou, os outros atores estavam a mil, com a porra toda em alta voltagem. E eu exigi muito dele", diz.

Já nas filmagens em São Paulo, recebeu um alerta. Um grupo descobriu a locação e ameaçou invadir o set. No dia, apenas um grupo de jovens da Frente Antifascista apareceu para defender a equipe.

Ainda faltavam oito meses para a eleição presidencial, e ele se lembra da "eletricidade" no set. "Toda essa energia do 'é melhor Jair se acostumando', de injúrias, tudo isso fortalecia muito a gente", diz. "Meu trabalho como diretor era produzir no set esse sentimento de excitação, que as pessoas entendessem por que aquele filme era importante."

"Marighella" foi exibido pela primeira vez no Festival de Berlim em 2019. Recebeu aplausos de dez minutos e foi apresentado com críticas ao governo recém-eleito. No tapete vermelho, a equipe apareceu em peso e Moura posou com uma placa de Marielle Franco.

"Estou em frontal oposição a esse proto-fascismo que tomou conta do País. Lançar um filme sobre 'Marighella' e não ir para o embate é um desserviço, não só ao momento como à memória dele."

Wagner Moura, elenco e equipe de "Marighella" posam no tapete vermelho do Festival de Berlim antes de sessão de gala do filme - Andreas Rentz/Getty Images - Andreas Rentz/Getty Images
Wagner Moura, elenco e equipe de "Marighella" posam no tapete vermelho do Festival de Berlim antes de sessão de gala do filme
Imagem: Andreas Rentz/Getty Images

'Foi censura, sim'

O filme logo ganhou uma simbólica data de estreia no Brasil: 20 de novembro de 2019, dia da Consciência Negra. Em agosto, porém, a Ancine (Agência Nacional de Cinema) negou a antecipação da verba de complemento para viabilizar o lançamento. "Não havia razões para que aqueles pedidos fossem negados", reafirma.

No Twitter, Carlos Bolsonaro comemorou: "Noutros tempos, o desfecho seria outro, certamente com prejuízo aos cofres públicos". Àquela altura, Bolsonaro ameaçava extinguir a agência, caso não pudesse implantar um "filtro" nas produções audiovisuais. Para o ator, um claro sinal de censura.

"Foi na época que editais LGBTs estavam sendo cancelados. Não era só o Marighella, era o contexto de fundamentalismo fascista de destruição de todas as formas de fomento à cultura", explica. "Um filme sobre Marighella, para um cara que dedicou um voto a Brilhante Ustra, é um problema."

Na virada para 2020, o diretor e a produtora O2 resolveram estrear sem a verba. Moura abriu mão de receber pelas funções e se valeu de um investimento para custeá-lo. A nova data: 14 de maio — quando o Brasil registraria mais de 2.000 mortes por dia de covid-19. Pela segunda vez, a estreia foi cancelada.

Moura diz que nunca cogitou lançar o filme em streaming. "É para o cinema. Fico desesperado quando falam que viram num link pirata." E enfatiza, batendo os anéis na mesa: "Não lançar 'Marighella' por causa de censura seria capitular nesse enfrentamento. Eu não vou deixar isso acontecer."

Moura não assistiu mais ao filme, mas confessa que o filme foi atravessado no período de suspensão. Para o autor, suscitou reflexões. Uma delas foi sobre a cor do seu Marighella. Ainda hoje, há quem defenda que o guerrilheiro, descendente de escravos sudaneses, seja, na verdade, branco.

"Quando Brown saiu, isso não era uma questão. Eu só tinha na minha cabeça que o Marighella era preto", diz. "Mas hoje eu penso: que ótimo que esse Marighella é preto pra caralho. Ele não foi apagado só porque lutou contra uma ditadura. O fato de ser preto não é insignificante."

A estreia acontece quando os cinemas ainda veem uma volta tímida da plateia. Wagner, que antes sonhou com público na casa do milhão, diz não ter mais expectativas. Quer levar o filme para movimentos sociais. "Com as pessoas passando fome no Brasil, como é que vai comprar ingresso pra ver um filme?". Nos dias seguintes à estreia, o filme será exibido na ocupação Carolina Maria de Jesus, em São Paulo, e no assentamento do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) em Prado, na Bahia.

"Agora é entregar o filme pra quem o filme foi feito", diz. "Quero que os jovens negros digam: 'esse cara era foda e era preto'."

Wagner Moura - Bob Wolfenson/Divulgação - Bob Wolfenson/Divulgação
Imagem: Bob Wolfenson/Divulgação

Capitão Nascimento x Marighella

"Marighella" foca nos últimos anos do deputado, poeta e guerrilheiro, entre 1964 e 1969, quando ele começa a agir na clandestinidade e se torna um dos principais organizadores da luta armada contra a ditadura militar brasileira. Embora o recorte favoreça à composição de um filme de ação, Wagner preferiu colar a câmera no rosto dos atores. "É como eu gosto de ser filmado", observa. Uma de suas claras referências é José Padilha, com quem fez "Tropa de Elite". "Aprendi muito com o Zé, sobretudo a ideia de que um filme político pode ser popular."

Até hoje, seu trabalho como o Capitão Nascimento é discutido como motor histórico e levanta debates sobre a onda conservadora no país. Wagner foi o primeiro a defender aquela história. "Levei paulada até da esquerda", diz.

Para ele, nada mais é do que um interesse em personagens com conflitos internos. "Esse barulho vem das contradições. Quando não é assim, não me interessa. Quando o personagem é complexo, você se identifica, ele te perturba", diz. "Aí é que a obra de arte ganha poder, inclusive na forma como pode alterar realidades ou eleições. Tanto Capitão Nascimento quanto Marighella são personagens dotados de complexidade, de falas trágicas. Se não forem pessoas, eu não me interesso em fazer."

A relação com seus personagens não deixa de ser um exercício de empatia, difícil em alguns momentos, reconhece. "Me perguntam se eu conseguiria fazer o personagem do Bolsonaro. Olha que eu fiz Pablo Escobar, mas nesse momento eu não ia conseguir."

O papo extrapola o horário, mas ele pede um tempo para refletir sobre a questão. Coloca os dois pés em cima da cadeira. "Nas manifestações organizadas pelo MBL, fiquei pensando: será que eu iria? Cheguei à conclusão que não. Sou um ser humano também, não tenho...", faz uma pausa e leva a mão à barriga: "Minha cabeça muitas vezes diz uma coisa, mas meu estômago diz outra."