'Foi pior que num domingo normal': ato em SP 'desanima' artistas de rua

"Pelo menos aqui tem uma sombra, né?", dizia o violonista Eduardo Cassoli, 41, ao seu parceiro musical, Rômulo Ventura, 33. A ausência de sol em uma fresta da avenida Paulista compensou a troca de palco forçada — manifestantes berravam "fora Bolsonaro" em torno e em cima de um carro de som no protesto contra o governo de Jair Bolsonaro, encabeçado pelo MBL (Movimento Brasil Livre) e o Vem pra Rua, neste domingo (12).
Cassoli e Ventura caminharam cerca de 100 metros com violão, caixa, pratos de bateria e amplificador em mãos, até a calçada do Conjunto Nacional. A dúvida, porém, era se eles se posicionariam virados para a rua ou para a calçada, que reunia um vaivém moderado de gente atraída pelo protesto ou que simplesmente curtia o domingo de calor.
Instituído em 2015 pelo ex-prefeito Fernando Haddad (PT), o programa Paulista Aberta permite que os paulistanos caminhem pela Paulista aos domingos e feriados. Com a pandemia, o fechamento da Paulista só retornou em 18 de julho de 2021, e agora funciona das 8h às 16h. Mas antes dela, era comum a avenida reunir 30 mil pedestres e ciclistas num domingo.
A Secretaria da Segurança Pública calcula que o ato pró-impeachment levou 6 mil à av. Paulista.
As vozes enérgicas que queriam o fechamento do STF, na terça, e o impeachment de Bolsonaro, neste domingo, "jogaram" os artistas de rua para as bordas da avenida.
"Não tenho nada contra e nem a favor. A gente vem e faz o som, como foi no protesto do dia 7 de setembro, e o pessoal curtiu. Pro artista é ruim [ter lado]. Se eu falo 'fora Bolsonaro', que é a pauta de hoje, num próximo domingo que não tiver protesto, posso vir e? Então, a gente é neutro", afirma Cassoli ao TAB, interrompido por uma senhora que pergunta se ele conseguiu tocar em meio ao barulho de terça-feira (7).
Com um repertório que vai de Bob Dylan a Culture Club, os músicos que se apresentam apenas com seus nomes artísticos disseram que o dia estava fraco. O chapéu onde é colocado dinheiro tinha não mais do que algumas poucas notas de R$ 2 e R$ 5 e uma dezena de moedas. "Aqui não tá bom, cara. Tem pouca gente", Ventura tentou discordar do novo ponto, enquanto montava a bateria.
Do outro lado da avenida, um vendedor pegou uma caixinha de som e botou para tocar ao ar livre alguns raps dos anos 2000. Os parceiros de rua perguntaram se valia a pena ficar ali, mas talvez não valesse o esforço carregar mais uma vez os instrumentos debaixo de um sol de 33°C.
Cassoli, que prefere a neutralidade política, é enfático ao discordar de quem leva cachorro para passear em dias quentes. Ele até deixa de beber a água que o aliviava para protestar.
"É um absurdo! O pessoal não pensa? Cabeça fraca, não pensa no animal", ele critica, e em seguida põe a mão no meio-fio para justificar que aquele tempo não estava bom para cachorro.
'O artista não consegue trabalhar'
Em dia de protesto, a cantora Lilian Jardim, 40, diz que não recomenda que os artistas de rua saiam para tocar na Paulista. Mas ela ignorou o próprio conselho e teve de cruzar a via congestionada, entre o Masp e a Fiesp, onde estavam reunidos manifestantes que pediam "nem Lula nem Bolsonaro" e que até mesmo ergueram faixas pedindo a volta de Michel Temer à presidência.
Eram pouco mais de 14h30 quando Lilian literalmente botou a viola no saco para ir embora. O carro de som cheio de políticos e simpatizantes do MBL que gastavam a garganta atrapalhou sua apresentação.
Ainda que pega de surpresa, a cantora não reclamou da intervenção nada artística. "Como estamos em um momento decisivo [na política], é válido que haja esse tipo de manifestação para que a gente não vire um monte de gado", ela opina.
Lilian mostra fotos no celular com o público aglomerado em seu show na Paulista, mas os registros são de domingo passado (5). A contragosto, a cantora desmonta os equipamentos e até esquece do chapéu no chão que sugeria que o dia foi bom para a artista.
No entanto, uma colega dela aparece de supetão para fazer a segurança do dinheiro ali reunido. "Não pode dar mole, senão vem gente e leva mesmo", sintetiza a mulher vestida com cores neon da cabeça aos pés.
Além da música
Nalla, 25, acenava agradecendo a quem deixava um troco no pote de metal. A cantora caminhou alguns minutos até encontrar o lugar ideal para cantar: um lance de calçada que dava de frente para um bar cheio de clientes, em frente à faculdade Faculdade Cásper Líbero.
Experiente no local, Nalla apresenta há quatro anos releituras de canções de Adele a Rihanna, mas não esperava que o protesto de domingo ultrapassasse os perímetros do Masp.
O que também espantou a artista de rua foi o ato de domingo em si. Enquanto ajustava o turbante vermelho, conta que temeu por sua segurança. Não foi ao Sete de Setembro "porque a galera pró-governo [Bolsonaro] acha que todo artista de rua é esquerdista".
Enquanto descansava a voz, Nalla afirma ter pensado que a manifestação reuniria o campo progressista em peso. Para ela, o apoio de partidos e movimentos da chamada terceira via, aquela que não quer Bolsonaro nem Lula no poder, pode ter os ecos das eleições de 2018 que colocaram o capitão do Exército no Palácio do Planalto.
"Não eram essas pessoas que eu esperava encontrar. Isso pode causar uma divisão de votos e vai ser bem tenso. Mas é isso, e o artista de rua não pode parar", diz. Após se despedir da reportagem, Nalla agacha na altura da bolsa e escolhe na tela do celular o instrumental de uma próxima música que vai reverberar na caixa de som para ela cantar.
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