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Sob risco de censura e ataques de Bolsonaro, cinema LGBT amplia vozes

Marco Nanini em cena do filme "Greta" - Reprodução
Marco Nanini em cena do filme "Greta" Imagem: Reprodução

Tiago Dias

Do TAB

23/11/2019 04h00

Tradicional evento de São Paulo, o Festival Mix Brasil quase não saiu do papel em 2019. Os organizadores já se preparavam para o pior desde o ano passado, quando Jair Bolsonaro foi eleito presidente. "Ficamos esperando os cortes. E foi exatamente o que aconteceu", conta Josi Geller ao TAB, diretora-executiva do festival que acontece desde 1993, quando um evento dedicado a produções audiovisuais que abordavam diversidade era algo inimaginável por aqui.

O corte na 27ª edição realmente foi na carne, mas mesmo com orçamento reduzido em 40%, por conta de perda de patrocínio e a extinção de editais para cultura, o bloco saiu na rua, ainda que em versão enxuta, reduzindo sua programação para sete dias.

"Mas o que perdemos foi só dinheiro", diz André Fischer, presidente e fundador do festival. "Tivemos uma mobilização muito maior, foi a edição com a maior ocupação de salas que a gente já teve e, sem dúvida nenhuma, foi o mais politizado."

As filas, de fato, eram vistas até nas sessões no meio da tarde de uma segunda-feira. Tudo para poder assistir a 110 filmes, produzidos em 26 países diferentes. Mais da metade deles era brasileiro. "E pensar que na primeira edição pedíamos para amigos fazerem curtas", lembra Fischer.

O sucesso desse ano passa pelo engajamento do público, ciente dos ataques e sanções que a produção LGBTQI tem sofrido no atual governo. A última foi através de uma live de Bolsonaro em agosto, quando o presidente anunciou o veto a verbas para projetos com a temática.

O ataque direto acontece quando um leque impressionante de produções amplia as vozes e versões da comunidade, antes presa nas mesmas histórias e tipos. "De início, há uma tendência de suprir uma demanda reprimida por representações ditas positivas, centradas no gay branco, de classe média e com poucos trejeitos", observa Chico Lacerda, professor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e pesquisador das representações no cinema nacional.

Essa chave orientou o próprio Mix Brasil em suas primeiras edições. "Inicialmente era um projeto construído mais para o gay masculino", observa Geller. "No decorrer do tempo, foram mudando não só o aspecto dos filmes e o nosso olhar. Teve um momento em que a gente não aceitava mais filmes lésbicos com cenas de mulheres sendo violentadas, sofrendo misoginia."

A edição de 2019 representou essa nova cena, em que outros corpos são protagonistas e a própria sexualidade foge do conflito central da história. "Com a massificação da tecnologia de som e vídeo digital e da internet como plataforma de disseminação de conteúdo audiovisual, essa produção se amplia e, na última década, se diversifica em termos de classe, raça, nichos, identidades, públicos e abordagens", observa Lacerda.

O curta "Perifericu", sobre a vivência dos LGBTQI nas periferias de São Paulo, nasceu justamente da ausência de representatividade na tela grande. "Quando trazemos essa possibilidade, estamos trabalhando com a construção de imaginários, com os sonhos. Se o próprio sonho foi algo negado para esses corpos, trazê-los através do cinema é torná-los mais palpáveis também, mais possíveis", observa Rosa Caldeira, um dos diretores do curta.

O filme foi realizado graças a um edital da prefeitura de São Paulo, mas a equipe lançou um crowdfunding para finalizá-lo. O resultado foi sessões lotadas justamente por jovens da periferia e o almejado prêmio do público.

Sala cheia durante o Festival Mix Brasil 2019, no Cinesesc, em São Paulo - André Fischer/Divulgação
Sala cheia durante o Festival Mix Brasil 2019, no Cinesesc, em São Paulo
Imagem: André Fischer/Divulgação

Outros tons do arco-íris

Nos últimos anos, o universo LGBTQI foi se expandindo em filmes como "Corpo Elétrico", "Greta" e "Hoje Quero Voltar Sozinho" — apostando em personagens menos unidimensionais e mais complexos e humanos.

Há 12 anos, dividindo-se entre a produção e a direção executiva do Festival Mix Brasil, Josi Geller observou de perto essa evolução. "Antes era comum você lançar filmes em que no final ninguém ficava junto, que no final alguém sofria agressão ou morria. O público ficou tão acostumado a ver aquilo, porque isso faz parte do cotidiano da pessoa. Mas não dá mais, não precisa só lutar para que isso não aconteça, é preciso mostrar que pode ser diferente, que o cotidiano das pessoas não é só isso", diz.

No caso de "Greta", com o ator Marco Nanini na pele de um enfermeiro gay da terceira idade, era necessário humanizar o personagem. O longa de estreia do diretor cearense Armando Praça é baseado na peça "Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá", encenada pela primeira vez nos anos 1980, época em que esses personagens só poderiam existir na chave da comédia de escracho.

"Se a gente for pensar, (os filmes) trabalhavam em chaves muito parecidas", explica o diretor. "Ou é alguém se descobrindo gay e vivendo as questões relacionadas a essa descoberta, ou é um romance, que na maioria das vezes não dá certo, vivido por pessoas muito jovens, de corpos atléticos, na flor da idade, com a beleza a serviço daquele relacionamento", afirma Praça.

"Quis atualizar, para que esse personagem pudesse ser visto com mais empatia, identificação e compaixão, sem o distanciamento que a comédia e o riso escrachado provocam", observa o diretor.

Cena de "Bixa Travesty" - Divulgação
Cena de "Bixa Travesty"
Imagem: Divulgação
Ataques e censura

Esse olhar atravessou a programação da 27° edição da Mix e chega também aos documentários, com a estreia de "Bixa Travesty", obra assinada em conjunto com os diretores Kiko Goifman e Claudia Priscilla e a cantora Linn da Quebrada. O filme é um mergulho na vida e nos pensamentos da artista paulista, que participou ativamente de roteiro e edição, quebrando uma espécie de redoma que obras documentais erguiam em torno do personagem ou objeto retratado.

O filme estreou na última quinta-feira (21) após alguns reveses. Um deles foi o que ocorreu, depois de o filme levar o troféu de melhor filme do público no Festival de Brasília de 2018. O prêmio em dinheiro seria usado na distribuição do filme. Na virada do ano, porém, a equipe recebeu a notícia de que a Petrobras não pagaria mais o prêmio. O filme só estreia agora, dois anos após sua finalização, graças a uma tábua salva-vidas: um edital da Spcine voltado exclusivamente à distribuição.

Mas não seria o único obstáculo que a dupla encontraria para seus projetos. A série documental "Religare Queer" estava pronta e pré-aprovada para um edital da Ancine focado em produções de temática LGBTQI para TVs públicas. Os vencedores seriam financiados por meio do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual), mas em agosto de 2019, uma decisão do governo federal suspendeu o edital.

Para não deixar dúvidas do que o gesto significava, o presidente Jair Bolsonaro criticou nominalmente os projetos vetados. "O filme é sobre uma ex-freira lésbica, ok? Tem a ver com religiões tradicionalmente homofóbicas ou transfóbicas. Tudo tem a ver", disse, ironicamente, durante a live. Na verdade, o projeto lança um olhar sobre as igrejas inclusivas e como a comunidade LGBTQI interage com as religiões.

"Por mais que esperássemos um cenário longe do ideal, sem continuidade para propostas tão bacanas que estavam acontecendo, não poderia esperar que fosse tão horrível", admite a criadora do projeto, Claudia Priscilla. "A gente está sofrendo uma censura muito direcionada à produção LGBTQI nas artes. Isso acontece porque são corpos que estavam invisíveis durante um período e tiveram uma conquista de direitos muito grande. Agora eles estão tentando silenciar de novo essas vozes diversas."

A Justiça Federal derrubou, por liminar, a decisão. A juíza Laura Bastos Carvalho, da 11ª Vara Federal do Rio de Janeiro, argumentou: "Os direitos fundamentais, a liberdade de expressão, igualdade e não discriminação merecem a tutela do Poder Judiciário, inclusive em caráter liminar". Mas, por enquanto, nada mudou. "Voltou, mas até agora tudo está parado. O silêncio ainda é absoluto", observa Kiko Goifman.

Para finalmente tirar o projeto do papel, a dupla conversa com produtoras da Alemanha, onde "Bixa Travesty" saiu vitorioso durante o Festival de Berlim em 2018. "É um caminho que não tem volta. Acho que vai ficar mais difícil, mas a gente tem que ser mais criativo agora, pensar em novas formas de produção", diz Priscilla.

Cena de "Perifericu" - Divulgação
Cena de "Perifericu"
Imagem: Divulgação
"A censura e a dificuldade para produzir nossas narrativas sempre estiveram presentes. Não é de agora", observa Wellington Amorim, diretor de fotografia e produtor executivo de "Perifericu". "Mas a sensação é de que agora as coisas tendem a ficar ainda mais difíceis, pois estão dando liberdade para que se relativizem questões que são estruturais como racismo, machismo e LGBTfobia. É a liberdade para o discurso de ódio."

Praça conta que também sofreu retaliação da própria Ancine em outubro. "Greta", junto do curta "Negrum3", participariam do Queer Festival em Lisboa, e tiveram o apoio financeiro por adesão liberado em agosto. Cada um receberia o valor de R$ 4,6 mil, mas o apoio foi retirado.

O fim de muitos desses editais mira justamente a diversidade que dá o tom do cinema nacional. É através de muitas dessas políticas públicas que a cena cresceu descentralizada, e com vozes mais plurais. "Aí a gente começa a ser surpreendido com narrativas de lugares que até então não tinham tido oportunidade de contar histórias", diz Praça. "São outros tipos de filme, outras formas de narrar, outros pontos de vista para as mesmas questões. Isso é muito interessante de ver e é isso que está em risco. Existe um certo medo generalizado em relação à diversidade."

Para a equipe do "Perifericu", é hora de travar um combate político para amenizar os retrocessos. O processo pode mudar e a produção ficar cada vez mais difícil, mas o objetivo é certo: "Nossas produções virão mais ousadas e estaremos cada vez mais juntas. Agora há um combate político", diz o diretor Rosa Caldeira.

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