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Fila para novo bilhete do desempregado em SP: 'Não tinha aviso'

Alexandre Augusto dos Santos foi à estação errada para solicitar benefício: "Não tinha nenhum aviso" - Henrique Santiago/UOL
Alexandre Augusto dos Santos foi à estação errada para solicitar benefício: 'Não tinha nenhum aviso'
Imagem: Henrique Santiago/UOL

Henrique Santiago

Colaboração para o TAB, de São Paulo

11/11/2021 04h01

Alexandre Augusto dos Santos, 49, suava pelas têmporas quando passou pela entrada do posto de atendimento. Esbaforido, atendeu uma chamada do celular enquanto esperava a senha ser chamada. "Não, amigo, esse não é o telefone da minha esposa", disse. Cinco minutos depois, deixou a sala com uma pasta com aba elástica em uma mão e um cartão de papel em outra.

Na manhã de quarta-feira (3), Santos chegou à agitada Estação Palmeiras-Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, após ter feito uma viagem perdida. Ele desceu na estação Marechal Deodoro para obter a credencial do trabalhador desempregado, benefício que permite gratuidade temporária na CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) e Metrô. Mas deu de cara com a porta fechada. Para evitar pagar R$ 4,40 em uma nova passagem, caminhou cerca de 1,5 km até o lugar certo.

Desde 1º de setembro, a credencial é solicitada exclusivamente no posto da CPTM na Barra Funda. Antes, os pedidos eram feitos separadamente na Marechal Deodoro (metrô) e na Barra Funda (trem). O benefício é afunilado: têm direito a ele apenas trabalhadores com registro em carteira, demitidos sem justa causa, com baixa no último emprego entre 30 e 180 dias.

A nova integração, porém, ainda pega muitos de surpresa. "Não vi nenhum tipo de comunicado na TV, na imprensa escrita, nada. Com o desemprego nesse nível, era para estar cheio de gente aqui", declarou Santos.

Posto para credencial de desempregado, na Barra Funda - Henrique Santiago/UOL - Henrique Santiago/UOL
Imagem: Henrique Santiago/UOL

Posto vazio

Na primeira quarta-feira de novembro (3), pós-feriado, o posto de movimento tranquilo contrastava com a agitada estação. Uma funcionária era encarregada de fazer a triagem de documentos, oferecer álcool em gel e aferir a temperatura no pulso dos usuários.

Os assentos com avisos impressos para manter a separação entre uma cadeira e outra apenas cumpriam o protocolo de distanciamento social, pois havia poucas pessoas para configurar qualquer tipo de aglomeração. O silêncio era cortado pelo som ambiente da TV que exibia a programação matinal para ninguém assistir.

Mesmo com o benefício assegurado por 90 dias, Santos não esconde a preocupação com o futuro. Ele perdeu o emprego como porteiro em uma residência de luxo no Morumbi na primeira semana de outubro. Prestes a completar meio século de vida, Santos acredita que dificilmente conseguirá um novo emprego enquanto a credencial tiver validade. "O governo bem que poderia estender por cinco meses."

A SPTrans, empresa responsável pela gestão do transporte público por ônibus na cidade de São Paulo, não disponibiliza nenhum tipo de benefício ao trabalhador desempregado. Uma parceria entre prefeitura e governo estadual é vista como inviável pelo porteiro.

Bom, mas burocrático

O manobrista Joel Silva Junior, 36, deixou o posto da CPTM com um misto de felicidade e revolta. Ele foi informado pela atendente que a partir de agora tem de apresentar a carteira de trabalho (física ou digital), o RG e a credencial a um funcionário nas catracas para acessar as estações de trens e metrô.

Ele atravessou a cidade em uma viagem de mais de 1h30 entre Guaianases, no extremo leste da capital, e a Barra Funda. Para poupar gasto com ônibus, anda a pé por meia hora até a estação. "Antes eu só precisava apresentar a carteira de trabalho", reclama Junior, que conta ter usado o bilhete temporário duas vezes antes da nova integração.

Sem esconder a indignação, Junior aproveita sua experiência como operador de caixa para distribuir currículos no bairro onde mora, até como forma de reduzir as despesas com transporte. Como manobrista, porém, inevitavelmente se desloca para o centro para fazer bicos em eventos.

"O certo era a CPTM e o Metrô pagarem para nós andarmos nesses trens lotados", protesta.

Ele aponta que o acesso ao interior das estações poderia ser simplificado. "Você tem que abrir o celular, às vezes está com pouca bateria, falta sinal", ri. Ele só conseguiu passar pela catraca com a credencial depois de 30 segundos de checagem dos documentos.

Entre setembro e outubro, a CPTM emitiu 5,2 mil cartões de papel para desempregados. No mesmo período de 2019, a companhia entregou 7,6 mil bilhetes exclusivos para os trens. Nesses mesmos dois meses, o Metrô disponibilizou 9,7 mil bilhetes para desempregados usarem somente o metrô.

Thais Gomes Lima gastou mais de R$ 60 em transporte público para fazer entrevistas - Henrique Santiago/UOL - Henrique Santiago/UOL
Thais Gomes Lima gastou mais de R$ 60 em transporte público para fazer entrevistas
Imagem: Henrique Santiago/UOL

Alívio temporário

Angélica Reis, 33, não teve a mesma sorte — ou azar. A consultora comercial chegou ao posto apressada, não sem antes descer na Marechal Deodoro, e foi informada por uma funcionária que teria que voltar no dia 14 de novembro (um domingo) para completar os primeiros 30 dias de rescisão, e assim pedir a credencial.

"No feriado [15 de novembro] é que eu não vou voltar, né?", gargalhou. "Faz parte. Não posso mudar a regra do jogo."

Thais Gomes Lima, 23, não esperou um dia a mais além dos 30 para ir até o posto da CPTM. Ela foi demitida do emprego de assistente de operação e agora tem um alívio temporário nas finanças.

Isso porque ela usa ônibus e trem para procurar trabalho — desembolsou mais de R$ 60 do valor da rescisão em viagens para fazer quatro entrevistas presenciais, sem nenhum retorno.

Ela elogiou a rapidez com que conseguiu pegar a credencial. Até pensou que chegaria no posto e seria surpreendida com uma fila quilométrica, mas no momento em que conversava com a reportagem não havia nenhum usuário lá dentro.

Thais estava na rua desde as 6h para distribuir currículos na avenida Faria Lima. Aproveitou a viagem para conseguir a gratuidade temporária no transporte sob trilhos. "Tive que descer para tomar ar porque [o vagão] estava lotado." Com o cartão de papel em mãos, ela caminha por entre a multidão de pessoas até um funcionário da CPTM com todos os comprovantes em mãos para procurar emprego na Lapa.