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'Pai da vacina', Doria derrapa nas prévias, mas ganha fôlego na reta final

Marcos Lima/UOL
Imagem: Marcos Lima/UOL

Lucas Borges Teixeira

Do TAB, em São Paulo

21/11/2021 04h01

O governador João Doria (PSDB-SP) sobe animado ao palanque em Mauá, na Grande São Paulo. Em meio a uma dezena de prefeitos, deputados e líderes religiosos, ele é apresentado como o "pai da vacina" antes de fazer um discurso entusiasmado, em que fala sobre os resultados da sua gestão e o que gostaria de fazer pelo Brasil.

Oficialmente, Doria estava lá para apresentar obras, mas o evento teve o tom de campanha das prévias do PSDB, que ele disputa neste domingo com o governador Eduardo Leite (RS) e o ex-senador Arthur Virgílio (AM). Com sonho antigo de ir ao Planalto, Doria largou como favorito, mas, em meio a divergências internas, viu sua ascensão derrapar no segundo semestre. Na reta final, recalculou a rota, investiu em disparos de mensagens e conversas com a ala histórica do partido.

Discurso de candidato nacional...

Sob o cartaz de ser contra a reeleição, o governador nunca escondeu seu desejo de ir a Brasília. Doria foi o primeiro dos tucanos a confirmar a pré-candidatura, em junho, e a lançá-la oficialmente, em um grande evento do PSDB paulistano, em agosto.

Com a presença de parlamentares e lideranças do partido, incluindo o presidente, Bruno Araújo, e um auditório lotado, recebeu os apoios oficiais dos diretórios estadual e municipal. Até aquele momento, seu entorno encarava o pleito interno como um processo positivo para a imagem do partido — e ainda mais do vencedor —, mas o considerava apenas mais uma etapa.

A possibilidade de derrota para qualquer um dos três pré-candidatos à época (além de Leite e Virgílio, o senador cearense Tasso Jereissati) não era algo considerado nos corredores do Palácio dos Bandeirantes.

Tomás Covas, filho de Bruno Covas, no palco ao lado de João Doria - Lucas Borges Teixeira/UOL - Lucas Borges Teixeira/UOL
Lideranças participam de pontapé inicial da campanha de Doria, em uma casa noturna em São Paulo, em agosto
Imagem: Lucas Borges Teixeira/UOL

Doria surfava a onda certa. Vencedor de duas eleições seguidas em dois dos maiores colégios eleitorais do país (Prefeitura de São Paulo, em 2016, e governo paulista, em 2018), o tucano já tinha o discurso nacional alinhado: gestão, vacina e democracia.

A CoronaVac, imunizante produzido pela chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, foi alçada como carro-chefe de sua campanha. "São Paulo é a terra da vacina, não da cloroquina", endossa Doria em entrevistas e palanques.

A avaliação da sua equipe apontava que ligá-lo diretamente ao início da vacinação no país garantiria sua vaga na disputa geral e, quem sabe, na cadeira do Palácio da Planalto.

Para isso, ele precisaria se afastar ainda mais do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Depois de tê-lo apoiado ativamente nas eleições de 2018, o paulista rompeu com o governo no início da pandemia e, desde então, tornou-se um dos seus críticos mais ferrenhos, com o reforço de falas pró-democracia.

A seu favor, também usou os bons resultados econômicos do Estado, com projeção do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) acima dos 7% para 2021, ante o desempenho pífio nacional. "É o país São Paulo", reforça o governador sempre que pode.

...que derrapou entre os companheiros

Faltou combinar com os tucanos.

Os recados de que o caminho de Doria à candidatura não seria tão fácil assim foram dados aos poucos. Em junho ele sofreu a primeira derrota, quando a Executiva Nacional estabeleceu as regras para a votação das prévias, em um modelo de divisão por grupos, o que garantiu peso maior na votação a medalhões do partido e parlamentares.

Doria defendia votação proporcional, o que poderia lhe garantir uma vitória mais fácil, visto que São Paulo concentra 32% dos votantes. Entre os inscritos no aplicativo de votação, a vantagem ficou ainda maior: 62% de votantes são do diretório paulista — filiados sem mandato, no entanto, só representam 25% do total.

Outro sinal foi o voto majoritário dos deputados tucanos pela PEC do Voto Impresso, apoiada por Bolsonaro, contrariando a orientação do partido, em agosto. Alarmado, Doria chamou o evento de "deplorável" e voou para Brasília no dia seguinte, mas foi recebido apenas por metade da bancada.

Se, na política, o não-dito é tão ou mais importante do que o dito, pessoas próximas à campanha de Doria passaram a ver com cautela o crescente apoio a Leite fora de Sâo Paulo, em especial entre os deputados tucanos mais ligados ao governo, que Doria tanto critica.

No final de setembro, Tasso deixou a disputa para apoiar Leite e se tornou um dos principais articuladores da sua campanha. Nos bastidores, o gaúcho contou ainda com o reforço de dois desafetos do paulista: o mineiro Aécio Neves, que Doria tentou expulsar do partido, e o ex-governador Geraldo Alckmin (SP), com quem rompeu definitivamente ao alçar seu vice, Rodrigo Garcia, como sucessor no Palácio dos Bandeirantes.

Nenhum dos dois fez campanha pública nem saiu postando fotos com Leite, mas têm trabalhado intensamente. No PSDB, corre à boca miúda que o endosso se dá muito mais por implicância pessoal com Doria do que por acreditar mais no projeto ao Sul.

A postura assertiva de Doria é vista como arrogância ou agressividade. Apesar de estar filiado há duas décadas, ele ainda é visto como um novato que "quer sentar na janelinha", atropelando quadros históricos. A briga com Alckmin, que o apadrinhou em 2016, é chamada por muitos de "traição". As discussões via rede social com Aécio e o ex-governador Alberto Goldman, morto em 2019, são vistas de forma negativa entre os tucanos.

Os doristas aceitam a oposição e, às vezes, tratam-na de forma positiva: Leite ganha apoio por rejeição a Doria, não por seus projetos. Verdade ou não, os votos contam do mesmo jeito, truca o grupo gaúcho.

O governador de SP João Dória, o novo presidente do PSDB Bruno Araújo e o ex governador de SP Geraldo Alckmin durante convenção da executiva do PSDB, em Brasília. - : Pedro Ladeira/Folhapress - : Pedro Ladeira/Folhapress
Doria, Araújo e Alckmin em evento do PSDB; a parceria paulista que virou desafeto
Imagem: : Pedro Ladeira/Folhapress

Na reta final, novo fôlego

"É uma imagem enviesada. É só conhecer o governador pessoalmente que você vê que ele não tem nada dessa imagem que pintam. É um sarrista, carismático, que consegue convencer qualquer um. Basta apresentá-lo que ele desenrola", defende um importante interlocutor paulista.

Com maior número de filiados garantido, Doria dedicou as últimas semanas à conquista de parlamentares e mandatários — e tem conseguido virar votos. No último mês, conseguiu o "sim" de deputados em estados que dão maioria a Leite, como Pernambuco e Bahia, e declarações de apoio dos senadores paulistas José Serra, Mara Gabrilli e do ex-governador Marconi Perillo (PSDB-GO).

Mais do que o voto, o apoio verbal de dois senadores paulistas tem importância simbólica, em um cenário que Leite passava a crescer, em especial na Câmara Municipal da capital — embora o diretório estadual chame de "gota no oceano" a quantidade de votantes no gaúcho em São Paulo.

Segundo aliados, Garcia foi determinante na articulação e encontrou os dois pessoalmente em busca de apoio. Gabrilli havia se desentendido com Doria após a eleição e ele e Serra nunca foram próximos. Com o silêncio, imaginava-se que estariam com Leite. Perillo já se imaginava junto a Doria, mas sua declaração de voto tem muita força entre os tucanos de Goiás.

Doria também deu uma realinhada no discurso. Para conseguir apoio no Centro-Oeste e no Norte, onde grande parte dos tucanos vota junto ao governo federal, Doria tem amenizado às críticas ao Bolsonaro e, em viagem a essas regiões, prefere malhar o ex-presidente Lula (PT).

Como fica a votação

No cenário atual, São Paulo representa 35,6% dos votantes, já considerando os pesos de cada grupo, enquanto o Rio Grande do Sul alcança 6,8%. Mas a disputa segue acirrada.

O grupo de prefeitos e vices, após divergências internas que levaram à impugnação de votantes dos dois lados, está bem dividido e o de vereadores é uma incógnita.

A retomada do paulista em seu meio desfavorável trouxe um novo ânimo para a campanha. O recente vazamento do telefonema entre os dois, em que Leite pedia adiamento do início da vacinação a Doria, em janeiro, também reconfigurou os bastidores. Pessoas próximas contam que a tensão entre eles, discreta mas sensível ao longo de outubro, tem se dissipado. No Palácio dos Bandeirantes, o mantra é que, em uma corrida, é o tiro final que importa.