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Cracolândia retoma nível pré-covid e rotina de cachimbos acesos 24h por dia

Willian Moreira/Futura Press/Folhapress
Imagem: Willian Moreira/Futura Press/Folhapress

Felipe Pereira

Do TAB, em São Paulo

17/01/2022 04h01

O fluxo é o centro nervoso da cracolândia de São Paulo. Centenas de corpos vagueiam ao redor dos caixotes onde são depositados pratos com pedras de crack. Os olhos dilatados cobiçam. Nessa feira distópica, os dias de alto faturamento têm recompensa. O traficante pega um punhado de crack, joga para cima e grita: "Aleluia de drogas!". Viciados balbuciam entre si enquanto se engalfinham na imundice do asfalto por um naco das pedras.

Até as benesses terminam em briga neste ambiente de exceção, situado num trecho da Alameda Dino Bueno. Os frequentadores do fluxo têm cicatrizes aparentes e as pichações do PCC (Primeiro Comando da Capital) indicam quem está no topo da cadeia alimentar. Antes da pedra, os clientes precisam obedecer à facção. Mas a violência não é um fim em si: serve de ferramenta para fazer dinheiro. A lei da cracolândia é o lucro.

Noite após noite, o usuário vai beber, cheirar e fumar até cair desmaiado. Acordará na pior das ressacas e com o corpo implorando por água, que só virá se o bolso tiver R$ 0,50 para dar, num copo cheio dela.

A pandemia de covid-19 reduziu o número de usuários vivendo sob a ditadura da pedra, mas o quartel-general da cracolândia voltou aos níveis anteriores à crise sanitária. No período de janeiro a novembro de 2021, a média diária foi de 599 usuários percorrendo o fluxo, segundo levantamento da Prefeitura publicado pela Folha de S.Paulo. No mesmo período de 2019, a média era de 526 pessoas.

A Prefeitura de São Paulo enviou nota informando que considera os números estáveis. "Os valores se mantiveram estáveis seguindo o padrão variável da concentração de usuários) devido às ações integradas de assistência social, saúde, segurança urbana e governo", ressalta trecho da resposta.

Seja antes da pandemia ou agora, no fluxo os cachimbos estão acesos 24 horas por dia. A cracolândia é a São Paulo que nunca para. Mas é inegável que a movimentação é menor pela manhã, justamente o período da contagem da Prefeitura. Maurício Regis Nunes Martins, 43, fala que, nas noites, ele e mais cerca de 2 mil pessoas varam a madrugada nas calçadas da Dino Bueno.

Dirigente do projeto "Da pedra para a Rocha", que atua há 10 anos dentro da cracolândia, o pastor Rica afirma que a estimativa de Maurício Regis é mais próxima da realidade do que a estatística oficial.

"Pode falar que tem 500, 600 habitantes fixos ali, mas é relativo. Passa muito mais gente por lá por dia. A cracolândia é uma boca, um ponto de tráfico."

Maurício Regis 2 - Felipe Pereira - Felipe Pereira
Maurício Regis era guarda municipal e virou ladrão para sustentar o vício
Imagem: Felipe Pereira

Hora de fazer dinheiro

A cracolândia exerce magnetismo nos usuários por ser um lugar seguro para fumar e por oferecer a melhor variedade de crack e cocaína da cidade, atrativos que geraram uma população fixa de moradores que acordam cada dia em um horário, mas sempre necessitando de água. Aplacada a sede da ressaca, tomam banho nos equipamentos públicos da Prefeitura, momento em que a degradação de alguns é manifestada.

Um homem voltou para o fluxo com o cabelo gosmento de xampu e espuma escorrendo pelas costas. A perda de discernimento indica um estágio avançado de deterioração, mas o crack é escravidão porque a bússola de um cérebro cada vez mais falho continua apontando para a próxima pedra. Quando Maurício Regis sai da cracolândia, o que causa estranhamento é a fatia saudável e alimentada da humanidade.

Mas é com essas pessoas que ele vai manguear [pedir esmola]. Para os moradores do fluxo, também vale catar reciclado, limpar para-brisa de carro em farol e prostituir-se. Uma particularidade do fluxo é que ninguém no fluxo paga de santo. Os usuários admitem que o corre [crime] é uma fonte de renda. Regis diz que um parceiro mostrou como roubar.

"Ele ensinou a mapear a vítima, já puxar a faca e pedir o celular."

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Na semana passada Maurício Regis não se importou com quatro corpos e continuou fumando
Imagem: Felipe Pereira

Outros frequentadores da cracolândia são mais sutis. Caso de Ricardo Marques da Silva, 43, que fala de forma indireta sobre um ramo do comércio em que já atuou.

"Independente de usar as paradas, nunca tirei nada de casa, sempre levei porque eu aprendi a negociar."

Mas Ricardo não consegue terminar de contar sua história. Desmancha-se em choro ao falar da segunda vez na cadeia. Passagem na prisão não é raridade no fluxo.

Maurício Regis foi preso por roubo, um destino que entristece o homem que, antes do crack, trabalhava na Guarda Municipal do Recife. "Quando comecei na pedra, roubei até os companheiros de farda. Deu uma 'moscadinha', escondia o celular e pegava depois."

Hoje no fluxo, um iPhone em bom estado vale R$ 300, muito dinheiro. Uma lasca de pedra suficiente para encher 10 cachimbos sai por R$ 50. Sobra para os acompanhamentos. A ideia de que o usuário vai torrar tudo em crack é errada. As tragadas são acompanhadas de goles de cachaça, cigarros e cocaína.

"Compro maço de cigarro e cachaça e vai virando e fumando, virando e fumando. Vai até o corpo aguentar. Já aconteceu de tanto eu beber, fumar e não comer, passar mal. O que mais vejo é convulsão. Já acordei no hospital depois que caí [com convulsão]", relata Maurício Regis.

Peterson  - Felipe Pereira - Felipe Pereira
Peterson saiu de Lorena (SP) para sua segunda passagem pelo fluxo
Imagem: Felipe Pereira

Detox do crack

Nas vezes em que o envenenamento não leva ao hospital, os moradores da cracolândia se recuperam nas imediações da estação Marechal Deodoro, também no centro. São dois dias vivendo de marmitex, refrigerante e churrasco. Retalhos dos açougues e a xepa da feira vão parar num panelão. O maior estímulo que os usuários se permitem é uma cachacinha.

Esse detox começa ainda no fluxo. Carrinhos de pudim, salgados e bolos perambulam com frequência na cracolândia e quem acordou com dinheiro no bolso toma café da manhã — ainda que a tarde esteja avançada. Usuário não tem rotina, mas a ideia de que todos os habitantes do fluxo são moribundos metidos em farrapos é uma generalização falsa.

Até porque as circunstâncias de entrada são muito distintas. Se uma mulher trans usuária conseguir renda em programa social, a população fixa do fluxo pode aumentar, porque vai aparecer interessado em casamento para usufruir do dinheiro. Existem ainda os "prisioneiros da cracolândia", gente jurada de morte em sua quebrada que a família banca para viver no local.

O fluxo é lugar seguro porque suas leis regulam o roubo e os homicídios. Outra regra é permitir somente golpes abaixo do pescoço durante as brigas. Dar socos e chutes no rosto é agendar audiência com o disciplina do PCC. O habitante da cracolândia sabe dessas leis e onde pode mexer. Alguns estabelecimentos de São Paulo pertencem a "irmãos" e qualquer desordem pode virar brecha para uma exceção na premissa de evitar assassinatos.

"Esta semana tinha quatro mortos e a gente fumando do lado dos caras. Deveu aqui, paga aqui mesmo", resume Maurício Regis.

Ação policial na Cracolândia em dezembro de 2021 - Rivaldo Gomes/Folhapress - Rivaldo Gomes/Folhapress
Ação policial na Cracolândia em dezembro de 2021
Imagem: Rivaldo Gomes/Folhapress

Universo paralelo

Peterson Luiz Moreira Gonçalves, 30, está na segunda passagem pela cracolândia. Frequentador em 2008, voltou a conviver com pessoas que dormem nas calçadas e conversam com o meio-fio.

"Não quero isso para ninguém, pela glória do Senhor. Vou falar para você, é difícil, mas a vida da gente é assim."

Peterson usa o vocabulário da cracolândia. As menções a Deus, Jesus, diabo e inferno são constantes. A impressão é que quando não estão brigando, os moradores do fluxo falam do sobrenatural. De fato, algumas cenas desse pedaço de São Paulo não parecem realidade.