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Por que o sucesso é retratado como uma conquista de incansáveis?

Andrew Garfield, em "Tick, Tick... Boom!" (2021) - Divulgação
Andrew Garfield, em 'Tick, Tick... Boom!' (2021)
Imagem: Divulgação

Juliana Sayuri

Colaboração para o TAB de Toyohashi (Japão)

20/03/2022 04h01

Você já viu esse filme: a pessoa fica absolutamente fixada num assunto, prega fotos e post-its na parede, empilha anotações, vira noites trabalhando sem parar até desvendar "O" mistério, o quebra-cabeças, a resposta a uma pergunta que lhe parece mais importante do que todo o resto - amigos, família, dormir, divertir-se, comer, rezar, amar, viver.

Assim foi retratada a jornalista norte-americana Vivian Kent, caçando informações sobre a vigarista Anna Delvey (aka Anna Sorokin) - na série "Inventando Anna", último hit da Netflix, a jornalista entra em trabalho de parto e ainda assim continua na redação para ligar para uma fonte e finalizar uma reportagem.

O mesmo nível de dedicação aparece na história do diplomata holandês Herman Knippenberg, que reuniu milhares de documentos por décadas atrás do serial killer Charles Sobhraj ("The Serpent"); na investigação das detetives Grace Rasmussen e Karen Duvall atrás do estuprador Christopher McCarthy ("Inacreditável") ou na descoberta de diagnóstico a cada episódio das oito temporadas de "House".

A atriz Anna Chlumsky, no papel da repórter Vivian Kent na série 'Inventando Anna' - Netflix/Reprodução - Netflix/Reprodução
A atriz Anna Chlumsky, no papel da repórter Vivian Kent na série 'Inventando Anna'
Imagem: Netflix/Reprodução

É a história de uma busca incessante, uma obsessão, em que é preciso sacrificar relações pessoais por um bem maior, uma conquista.

Filmes de ficção inspirados na vida real adoram a fórmula (os códigos do matemático britânico Alan Turing, para citar um exemplo); documentários também (as caixas e mais caixas do jornalista norte-americano Gay Talese expostas nos bastidores de "Voyeur"). O amor à arte tampouco escapa: "Tick, Tick... Boom!", indicado ao Oscar 2022; "Bingo" (2017), "Whiplash" (2014) e "Cisne Negro" (2010).

"Você sabia que, em alguns dicionários, obsessão é descrita como 'busca diabólica', João?", pergunta a ex do pianista paulistano João Carlos Martins, na cinebiografia "João, o maestro" (2017), que narra inclusive momentos em que o músico, com uma mão muito lesionada, chegou a deixar sangue nas teclas do piano.

Nós vivemos numa era da obsessão, diz o acadêmico Lennard Davis, professor da Universidade de Illinois (EUA), no livro "Obsession: a history" ("Obsessão: uma história", em tradução livre). Não só somos incentivados a nos dedicar 100% ao trabalho, mas também a admirar as obsessões dos outros, artistas, atletas, cientistas. "Nenhum filme de amor está completo sem a ideia de que os amantes são obsessivos. Nenhum cientista ou músico está a salvo sem a palavra 'obcecado' pregada à sua ocupação", escreve Davis.

A atriz Julia Garner interpreta Anna Delvey na série 'Inventando Anna' - Netflix/Reprodução - Netflix/Reprodução
A atriz Julia Garner interpreta Anna Delvey na série 'Inventando Anna'
Imagem: Netflix/Reprodução

Você que lute

O jornalista Jacques Mick, professor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), onde coordena o Lastro (Laboratório de Sociologia do Trabalho), afirma que a ideia de que é preciso dedicar imensas jornadas ao trabalho foi construída.

"Mas, como dinheiro não é tudo, humanos também se motivam por formas simbólicas. A mitologia do sujeito incansável, que cedo madruga para heroicamente recolher os frutos do trabalho, cumpre essa função simbólica", diz ele. Assim, valorizamos moralmente quem trabalha - e desvalorizamos quem não trabalha.

No Brasil, onde o capitalismo se estruturou com a exploração do trabalho escravo, vadiar era considerado crime até pouco tempo. "Códigos ligados ao trabalho entram no jogo da produção das narrativas de si - e nesse emaranhado de histórias autoelogiosas de superação, força, engenho ou arte, emolduradas em fotos bonitas, as pessoas se dividem entre aquelas que protagonizam alegremente roteiros vitoriosos e as que se deprimem ou sucumbem à ansiedade", critica. É o discurso do "você que lute", a jornada do herói: se você der seu suor e sangue, você vence na vida.

Hugh Laurie em 'House' - Reprodução - Reprodução
Hugh Laurie em 'House'
Imagem: Reprodução

No fim da década de 1960, o psicólogo norte-americano Wayne Oates cunhou a expressão "workaholic", que se tornaria palavra-chave para diversos estudos sobre o trabalho. Pula para o século 21: bilionários como Elon Musk se tornaram workaholics admirados, muitas vezes aplaudidos por defender sacrificar tempo (e tudo mais) para se dedicar com paixão a um trabalho tido como mais importante que todo o resto. "Há lugares muito mais fáceis de trabalhar, mas ninguém nunca mudou o mundo com 40 horas por semana", tuitou o CEO da Tesla.

Há inclusive quem prefira a expressão "worklover", o profissional apaixonado pelo próprio ofício, motivado por um propósito, que traz a tiracolo o mantra "faça o que você ama e você nunca terá que trabalhar um dia sequer". Na vida real, reportou a BBC, isso abre brechas para pressões e práticas abusivas para os trabalhadores.

A ilusão dos filmes e séries, diz a psicóloga Ariane Corradi, professora adjunta do Departamento de Psicologia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e consultora internacional independente da OIT (Organização Internacional do Trabalho) em Portugal, faz com que o sucesso seja idealizado como a conquista de "um indivíduo iluminado que resolve tudo sozinho", basta ser comprometido e determinado.

Na verdade, pondera ela, não se trata apenas de um comportamento individual, mas das pressões condicionadas pela cultura das organizações (uma universidade, um hospital, uma redação de revista). "O que muitos filmes não contam são as consequências pessoais por causa da exaustão no trabalho: estresse, desgaste físico, doença mental, divórcio, às vezes alcoolismo. Isso não é invenção de série", acrescenta.

Um filme que ilustra bem esses revezes é "Zodíaco" (2007), que narra a busca obsessiva do cartunista norte-americano Robert Graysmith pelo serial killer conhecido como Zodíaco (o caso nunca foi resolvido). "O que é sucesso, afinal? É se matar de trabalhar para ver o dinheiro entrar na conta no fim do mês? E quantos se dedicam muito, muito, mas o dinheiro não vem?"

O movimento 'r/antiwork'

Em 2021, a OMS (Organização Mundial de Saúde) reconheceu a síndrome de burnout como doença ocupacional, caracterizada como "estresse crônico de trabalho que não foi administrado com sucesso".

Na pandemia de covid-19, com tantos trabalhadores esgotados, também ganhou força o movimento antitrabalho ("r/antiwork", em inglês, na rede social Reddit) que, inspirado nas ideias anarquistas e socialistas, defende romper a lógica do trabalho moderno no capitalismo: deveria-se trabalhar apenas o necessário, ao invés de longas horas para produzir excesso de bens ou capital. O necessário, com salários compatíveis e, no melhor dos mundos talvez, no que se ama.