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Quem é o autor do cartaz da Schützenfest, criticado por 'estética nazista'

Ilustrado com pessoas brancas segurando armas, cartaz da tradicional festa de atiradores de Jaraguá do Sul (SC) provocou debates nas redes sociais - Reprodução
Ilustrado com pessoas brancas segurando armas, cartaz da tradicional festa de atiradores de Jaraguá do Sul (SC) provocou debates nas redes sociais Imagem: Reprodução

Magali Moser

Colaboração para o TAB, de Jaraguá do Sul (SC)

11/05/2022 04h01

Personagens da Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa, foram os primeiros rascunhos traçados pelo ilustrador gaúcho Isac Raasch, 46, ainda na infância. Autodidata e incentivado pelo pai, radialista, o garoto depois buscou cursos técnicos para profissionalizar a "habilidade natural", nas suas palavras.

Não imaginava, porém, que uma de suas ilustrações conquistaria repercussão nacional, após o ex-deputado federal Jean Wyllys (PT) postar um tuíte recente citando "a estética da propaganda nazista" junto ao cartaz da 32ª Schützenfest, festa da cultura alemã de Jaraguá do Sul (SC), que será realizada entre 10 e 20 de novembro. "A ideia era fazer um cartaz de época e valorizar o tiro esportivo, que é a essência da festa", afirma.

Isac assistia a um filme quando soube do tuíte de Wyllys. O episódio despertou reações rápidas e acaloradas, com notas de repúdio de associações e clubes de caça e tiro, além de lideranças políticas. Na casa de Isac, contudo, o filme seguiu sem contratempos: o ilustrador não deu muita importância ao caso e, até agora, evita se envolver nas disputas ideológicas ao redor dele. Diz que quem critica a festa "desconhece a tradição" do Vale do Itapocu, no nordeste de Santa Catarina.

Ele próprio não cresceu ali. De Horizontina (RS), a família Raasch migrou primeiro para Concórdia (SC), no oeste, quando ele era criança. Lá, no início dos anos 1990, ele teve seus primeiros trabalhos como ilustrador, primeiro num jornal, como arte-finalista, e depois num centro gráfico, posteriormente transformado em agência de publicidade.

Depois de uma passagem por Pato Branco (PR), Isac seguiu os passos do irmão Elias, 44, que escolheu Jaraguá do Sul como lar. Apesar do sobrenome alemão (Raasch), eles dizem que nos primeiros tempos enfrentaram certa dificuldade para se adaptar à cidade que celebra as tradições germânicas. E se consideram miscigenados: por parte de mãe, eles têm ascendência ameríndia, uruguaia e polonesa; por parte de pai, alemã "e até turca", comenta Isac.

No Vale do Itapocu, Isac ingressou na agência de marketing fundada por Elias em 2000, hoje intitulada Monitor Digital. Graduado pela Uniasselvi, Elias foi diretor de comunicação da prefeitura, entre 2013 e 2014, na gestão de Dieter Janssen (PP). Trabalha com marketing político, mas diz que não é filiado a nenhum partido. "Na última eleição, elegemos dez prefeitos... De Brusque, Jaraguá do Sul e outros municípios menores da região", celebra.

Isac Raasch, da agência Monitor, de Jaraguá do Sul (SC) - Magali Moser/UOL - Magali Moser/UOL
O ilustrador Isac Raasch segura os cartazes do Femusc e da Schützenfest -- ele prefere o do festival de música
Imagem: Magali Moser/UOL

De Mozart a 'Majestades'

Enquanto Elias está mais próximo desse universo, Isac não gosta de falar sobre política, definindo-se "neutro politicamente". Não é lá fã de tiros (inclusive é contrário à liberação da posse e do porte de armas de fogo), prefere falar de fotografia, design, arte — tanto que seu cartaz preferido não é o da festa de atiradores, mas o do Femusc (Festival de Música de Santa Catarina).

"Não é minha cultura esse cartaz [da Schützenfest], o que eu gosto mesmo é o Femusc. Mas, como profissional, sempre vou buscar fazer o melhor. Na agência, não é o que você gosta, mas o que o cliente gosta, então você faz o seu melhor", diz.

O ponto de partida para inspirar os trabalhos de Isac é a busca de referências visuais. Para o cartaz do Femusc com a ópera composta por Mozart, em 2022, procurou ler tudo o que encontrava sobre "Le nozze di Figaro". Foi assim também para o cartaz da 31ª Schützenfest, em 2019, quando revisitou bancos de dados, fotografias de época e tipografias antigas. Ao fim, priorizou a ilustração com inspiração manual, como nos primeiros cartazes de festas do tipo na Alemanha. A festa reuniu quase 120 mil pessoas, um recorde.

Devido à pandemia, a Schützenfest não ocorreu em 2020 e 2021. A comissão organizadora optou então por utilizar o cartaz da edição de 2019 para antecipar a divulgação da festa de 2022. Foi esse o cartaz da discórdia.

Isac Raasch, da agência Monitor, é autor do cartaz da Schützenfest de Jaraguá do Sul (SC) - Magali Moser/UOL - Magali Moser/UOL
'Isac usa o estilo de ilustrador clássico, começa sempre na mão, no lápis, aí digitaliza a imagem', diz Elias
Imagem: Magali Moser/UOL

"Isac usa o estilo de ilustrador clássico. Como nas grandes produtoras de desenho, começa sempre na mão, no lápis, aí digitaliza a imagem e às vezes parte para o 3D. Traz muito a arte para a publicidade", comenta Elias, diretor artístico da peça. Um cartaz como aquele custa em torno de R$ 10 mil, diz. Isac, entretanto, não gosta de assumir a autoria sozinho; atribui a peça a um trabalho de equipe.

Para Sidnei Marcelo Lopes, diretor de cultura da comissão organizadora, o cartaz tem representação artística e histórica importante. "Remonta ao tempo em que os cartazes das festas eram desenhadas à mão, e os alvos para as competições de tiro também eram pintados à mão, guardados pelas sociedades e praticantes", afirma.

Ao TAB, a comissão antecipou que fará uma nova peça publicitária para divulgar a festa de novembro, mantendo a identidade visual, mas com um novo casal real. Há dois tipos de "majestade" na Schützenfest: as eleitas pela beleza (rainha e princesas) e as escolhidas pela melhor performance no tiro (rei e rainha).

Isac e Elias Raasch, da agência Monitor, de Jaraguá do Sul (SC) - Magali Moser/UOL - Magali Moser/UOL
Isac e Elias Raasch trabalham na agência Monitor Digital, que também faz marketing político
Imagem: Magali Moser/UOL

'Perolazinha' do povo

Iniciada em 1989, a Schützenfest visa valorizar as tradições ligadas à cultura germânica, especialmente aos clubes de caça e tiro no Vale do Itapocu - a primeira sociedade de tiro de Jaraguá do Sul foi fundada em 1906. Ao todo, hoje 17 sociedades participam do festival de novembro e das festas de rei e rainha realizadas ao longo do ano.

Colonizada a partir de 1876 e sob forte influência histórica de Blumenau e Joinville, Jaraguá do Sul preserva as sociedades de tiro de modo mais intenso na região, afirma a historiadora Silvia Regina Toassi Kita, que estuda clubes de caça e tiro na cidade e escreveu parte dessas memórias no livro "Festas de Rei" (2000). Isso porque as sociedades jaraguaenses estão no centro e não apenas nas áreas rurais.

Desde 1994 no Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul, Kita considera que a festa dos atiradores foi pensada para não deixar morrer a tradição dos torneios de tiro dos clubes — na ocasião, não são permitidas munições de pólvora, apenas chumbinho. "Desde pequenas, as pessoas são incentivadas à prática do tiro. Nunca com a conotação de violência ou enfrentamento, sempre como esporte, tanto é que nunca tivemos um incidente com armas na festa", sublinha.

A associação do cartaz da festa ao nazismo entristeceu a historiadora. "A primeira coisa que pensei: será que o ensino da história nas escolas está tão defasado a ponto de as pessoas desconhecerem a história da imigração? A história das sociedades de atiradores é muito anterior à Segunda Guerra Mundial [1939-1945]", destaca.

O livro de Kita inclusive cita que as sociedades de atiradores ("Schützenvereine", em alemão) são originárias de Bélgica, Holanda e norte da França; e só mais tarde, no século 14, da Alemanha.

À frente da comissão organizadora da Schützenfest desde 2010, Alcides Pavanello conta que a festa passou por muitos altos e baixos e quase desapareceu. "Hoje, todas as etnias participam da festa, não só a germânica. Mas, ela não seria a festa do tiro se não tivesse efetivamente o tiro esportivo, por isso o nome é Schützenfest. Para nós, o tiro esportivo é uma diversão como outra qualquer", destaca.

Depois de dois anos sem festa, Braian Schwertz, 26, produtor de conteúdo da agência Monitor Digital, está ansioso para a próxima edição. "Primeiro, é preciso dizer que eu sou antiarmamentista. Mas eu amo a Schützenfest, porque eu já entendi que ela não é sobre isso. Basta um rápido Google para entender que não é sobre armas de fogo", assinala.

Diversos moradores ouvidos pelo TAB ficaram indignados com o paralelo entre a Schützenfest e o nazismo — nenhum deles se declarou pró-armas de fogo liberadas ou se manifestou a favor de um ou outro político que despreza a vida e diz que é preciso "fuzilar" seus rivais. "Meu sentimento foi: como alguém está falando sobre uma cultura que não conhece de uma forma extremamente preconceituosa? Ela é uma perolazinha do nosso povo", disse um deles.

Já Isac não pretende ir ao evento de novembro. "Não gosto desse tipo de festa, gosto de gastronomia e arquitetura. Essa festa não tem nada a ver comigo", finaliza.

Cartaz da Schützenfest de Jaraguá do Sul (SC) - Magali Moser/UOL - Magali Moser/UOL
Mascote, rei, rainhas e princesas da Schützenfest ilustram um ponto de ônibus da cidade catarinense
Imagem: Magali Moser/UOL