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Independentes, 'novos' idosos preferem morar só e gostam de paquerar

"Tem uísque na sua casa?", perguntava o homem de quase 80 anos sempre que queria sexo. Era o código entre ele e Gilda de Mello, 81, numa relação casual, nomeada por ela de "frila fixo".

Gilda é uma entre tantas pessoas com mais de 60 anos que moram sozinhas e vivem a solteirice com afinco.

Em 2012, eram 2,9 milhões de brasileiros nessa situação. Em 2022, essa fatia chegou a 4,9 milhões - crescimento acima do aumento da população de outras faixas etárias, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Na antropologia, esse fenômeno, que só cresce, ganhou nome: divórcio grisalho, como explica a demógrafa e coordenadora do Núcleo de População do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), Sandra Garcia.

Segundo ela, a dissolução de uniões na terceira idade é causada pela busca por novas formas de felicidade e realização pessoal.

Nessa nova forma de envelhecer, as mulheres são as que mais vivem a solitude. De acordo com o IBGE, elas representam 61% da população com mais de 60 anos que mora sozinha, contra 39% de homens.

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Imagem: Arte/UOL

O número é inverso quando analisada a faixa etária anterior, de 30 a 59 anos: esse recorte mostra mais homens vivendo sozinhos (57,3%) em relação a mulheres (36,4%). A solidão feminina é idosa. A masculina, jovem.

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Gilda é uma delas, mas a solidão não lhe causa qualquer angústia. Entre as paqueras e flertes (virtuais e presenciais), ela vai se conectando à própria sexualidade.

Não quer casar de novo, mas namorar ela quer. E muito.

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Imagem: Keiny Andrade/UOL

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Imagem: Keiny Andrade/UOL

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'Esse é feio, nonna'

Gilda tem o cabelo curto estilo pixie-cut, de tonalidade lilás. O franjão caído para a direita contrasta com a careca lateral à esquerda, semicoberta por uma tatuagem.

Paulistana-aquariana nata, ela estrela, junto da amiga Sônia, 85, o videocast "Avós da Razão", em que discute questões modernas da velhice. O canal no YouTube tem 93,5 mil inscritos, e a página no Instagram, mais de 320 mil.

"Quero mostrar que a velhice não é castigo. Até porque a outra opção é ruim", diz.

Gilda se divorciou aos 45 anos e não quis depender do dinheiro do ex-marido, de quem é amiga até hoje. Depois da separação, ela se lançou de volta ao mercado de trabalho e à solteirice, com oportunidades diversas de paquera.

Gilda de Mello, 81, mostra (com orgulho) a coleção de vibradores
Gilda de Mello, 81, mostra (com orgulho) a coleção de vibradores Imagem: Keiny Andrade/UOL
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"Relutei muito com essa coisa de internet até meu neto de 12 anos instalar um aplicativo de paquera no meu celular. Ele fazia a seleção dos homens para mim. Dizia 'esse é feio, nonna; nonna, esse aqui não bebe, não vai dar certo'." Às vezes o match é bom, ela conta.

Um senhor libertino

Dexter, 67, se considera um libertino: curte práticas sadomasoquistas no sexo - é dominador, mas não gosta de se reduzir ao BDSM. Frequenta casas de swing e festas liberais, apesar de não ser totalmente fã dos espaços destinados à orgia. "Acho impessoal."

O interesse vem de jovem e, com a esposa, chegou a experimentar uma coisa ou outra. Mas foi após o rompimento, há 15 anos, que decidiu se aventurar por outros mundos.

Engenheiro aposentado, hoje ele produz acessórios de couro para práticas de BDSM. Os "floggers" (chicotes) são seus preferidos. Daí veio o nome, Dexter, em alusão ao desenho "O laboratório de Dexter" (ele prefere não dizer seu nome verdadeiro).

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Ele conta que soma rolos com diversas mulheres, em sua maioria casadas, mas tem uma amiga colorida com quem sai com certa frequência. Para outros encontros, utiliza aplicativos.

"Eu transo com um casal - ele tem uns 67; ela, 63. Ela é uma vovozinha, mas muito 'orgástica'. Um furacão na cama."

Dexter justifica por meio dos exercícios físicos intensos a boa performance sexual, mas diz que transar não é o ponto central da vida.

"Sou só um velhinho aposentado que se diverte fazendo todo tipo de coisa. Também curto voar de asa-delta e agora moro em Santos [litoral de São Paulo], um lugar em que isso é possível. E curtir a vida."

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O cordão dos não casados

A demógrafa Elza Berquó deu nome à tendência de pessoas, especialmente mulheres, permanecerem solteiras em idade mais avançada. O termo "pirâmide da solidão" virou "pirâmide dos não casados" - e não para de crescer.

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Sandra Garcia, pupila de Elza e hoje coordenadora do Núcleo de População do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), explica: antes, a estrutura familiar era caracterizada por um modelo em que a maioria das pessoas se casava jovem, e o casamento era considerado um dos principais objetivos de vida. Isso mudou.

"Mais pessoas, incluindo as mulheres, optam por permanecer solteiras, divorciar-se ou adiar o casamento para idades mais avançadas, devido a razões como independência financeira, educação e escolhas pessoais", ela explica.

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Imagem: Keiny Andrade

Lavar a louça quando dá na telha

Marli Rosa, 61, é professora e está há vinte anos sozinha. Divorciou-se há seis. O ex-marido se mudou para outro país, prometendo-lhe mundos e fundos, mas constituiu uma nova família lá fora.

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"Fiquei um tempo achando que estava casada, até entender que não estava", diz.

Rendeu-se aos aplicativos: queria uma companhia que somasse e não só enchesse o saco.

Em vez disso, encontrou jovens oportunistas que pediram presentes no primeiro encontro, e homens que a viam de forma mais sexualizada pelo fato de ser negra.

"Não tenho muitas conversas nem convites para sair. A solidão da mulher negra está aí, em todas as idades. Sempre vivi isso."

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O prazer, ela diz, está em assistir a quantas séries quiser durante a noite e lavar a louça na hora que tem vontade. "Se for para me encher o saco, estou fora. Deixo muito claro que não vou ser empregada de ninguém. Quero alguém para passear e me divertir. Ser empregada de homem, não. Estou muito bem sozinha."

"Casar de novo? Só se eu fosse louca", afirma.

O alívio de sair da prateleira

A psicóloga e pesquisadora Valeska Zanello desenvolveu a teoria da "prateleira do amor", que diz que quanto mais próximas de um padrão socialmente aceito estão as pessoas, mais no topo da prateleira elas estão. Segundo ela, a idade avançada coloca os idosos no fundo da prateleira, principalmente as mulheres.

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"Mulheres que conhecem questões de gênero, feministas, entendem esse envelhecimento e sentem que a saída da prateleira é um alívio. Elas se sentem livres para fazer o que quiserem. Mas as que não têm esse conhecimento se sentem muito mal, uma vez que a sociedade nos ensina que o maior sucesso de uma mulher é ser escolhida por um homem", ela explica.

Segundo Valeska, para os homens o envelhecimento é menos cruel. "O homem se torna homem pelo dispositivo da eficácia, que se dá pela virilidade sexual e pelo sucesso no âmbito profissional. Mesmo os que têm problema nesse campo lucram com o dispositivo amoroso e maternal das mulheres. Elas aprendem que têm que cuidar dos homens, e nunca o contrário."

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Imagem: Arte/UOL

Geração independente

A demógrafa Sandra Garcia reitera que o aumento no número de pessoas acima de 60 anos vivendo sozinhas é reflexo do envelhecimento como um fenômeno global.

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E isso pode causar impactos significativos nas estruturas sociais e nas políticas públicas nos próximos anos.

"Muitos idosos optam por viver sozinhos porque desejam manter sua independência e autonomia. Isso pode ser visto como um indicador de maior qualidade de vida para alguns, pois eles têm o controle sobre seu ambiente e estilo de vida", diz.

Mais ativos na comunidade, os "novos" idosos podem contribuir para outras gerações com mais experiências e outras habilidades. "Essa participação pode ser benéfica para a sociedade em geral."

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