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Brumadinho convive com 'Vale algoz' e 'Mãe Vale' cinco anos após a tragédia

Cinco anos após a tragédia que matou 270 pessoas e dois nascituros e deixou um rastro de destruição ambiental, a vida em Brumadinho (MG) continua girando em torno da mineradora Vale. Responsável por boa parte da arrecadação do município, ela acabou se tornando algoz da cidade quando sua barragem de rejeito minério de ferro se rompeu, em 25 janeiro de 2019.

Direta ou indiretamente, a Vale ainda dita as regras da comunidade, que vive um misto de dor e resignação.

Como está a rotina de Brumadinho

A reclamação do trânsito é unânime. Esta é a primeira resposta que você recebe ao perguntar como está a cidade. O taxista Enio de Miranda diz que o movimento dobrou. "Atrapalha um pouco, seja para estacionar, para embarcar ou desembarcar passageiro", exemplifica. São carros de passeio, mas também caminhonetes, caminhões e máquinas pesadas, em quantidades superiores ao que, segundo os moradores, era o normal da cidade de 38 mil habitantes.

13.jan.2024 - Movimento de veículos em uma das principais avenidas de Brumadinho (MG)
13.jan.2024 - Movimento de veículos em uma das principais avenidas de Brumadinho (MG) Imagem: Luciana Quierati/UOL

A maioria desses veículos é usada nas obras de reparação da Vale. E é neles que circula grande parte do pessoal desconhecido que tem frequentado a cidade. Atualmente, segundo a mineradora, 3.400 pessoas estão a seu serviço, 40% vindos de outras cidades. Eles trabalham nas obras de reparação que visam recompensar a comunidade pelos danos causados e estão previstas em acordo de R$ 37 bilhões firmado em 2021 com governo do estado e Justiça.

Em consequência, os acidentes também aumentaram. O número de ocorrências envolvendo veículos saltou de 471 em 2018 para 861 em 2022, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do estado.

O efeito do dinheiro

A cidade recebeu uma injeção de recursos após a tragédia. Primeiro, foram pagos R$ 100 mil para famílias de vítimas, R$ 50 mil para famílias que residiam próximas da barragem e R$ 15 mil para produtores rurais e comerciantes. Depois veio o auxílio mensal para todos os moradores de Brumadinho, mais os residentes até 1 km da calha do rio Paraopeba em 26 municípios. São pagos um salário-mínimo por adulto, 50% por adolescente e 25% por criança, e o programa vai até 2026.

Com dinheiro circulando, os preços aumentaram, e não apenas no supermercado. O valor de aluguel e o preço da terra e das casas da cidade aumentou, segundo a professora Maria Fernanda Salcedo Repolês, que coordena pesquisa da UFMG sobre Brumadinho e demais municípios impactados. E isso tem feito com que os valores das indenizações já pagas sejam insuficientes para as pessoas refazerem suas vidas.

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É uma economia falsa. Parece que as pessoas estão cheias do dinheiro, mas no fundo elas não estão. Porque continuam sem atividade econômica, com a vida desestruturada e vão ter que fazer esse recurso render por muito tempo.
Maria Fernanda Salcedo Repolês, professora da UFMG e pesquisadora

O dinheiro também gerou discórdia na comunidade. Gastos com carros e celulares de última geração ficaram evidenciados, e os comentários saudando a "mãe Vale" pela bonança acabaram despertando a ira dos familiares que perderam seus entes na lama.

A gente chega na rua e ouve: 'a mãe Vale tá dando dinheiro', 'a mãe Vale tá fazendo isso'. Mãe? Uma empresa que matou 200 e tantas pessoas, você fala que é mãe?
Fernando Nunes Araújo, morador de Brumadinho, perdeu o irmão Peterson na tragédia

A servente escolar Maria Regina da Silva perdeu a filha Priscila na tragédia
A servente escolar Maria Regina da Silva perdeu a filha Priscila na tragédia Imagem: Arquivo pessoal

'Por conta da Vale'. A servente escolar Maria Regina da Silva, que perdeu a filha Priscila Elen, fez um cidadão descer do ônibus depois que ele ostentou duas sacolas com carne e disse a colegas que o churrasco seria "por conta da Vale". "Ah, mas você vai descer é aqui", disse Maria Regina, puxando o homem do banco. "Carne? Mãe Vale? Coloca um filho seu embaixo daquela barragem e pensa no seu filho triturado naquela lama", completou ela.

Maria Regina diz esse foi só um dos episódios que a indignaram e entristeceram. "Eu ouvia no meu trabalho: 'vai descansar, você não precisa mais trabalhar'. Era o momento de as pessoas me abraçarem, entenderem o que eu estava passando. Mas faltou empatia. Ainda falta", diz a servente, que preferiu deixar Brumadinho e hoje mora no município vizinho de Sarzedo.

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Município dependente da mineração

Brumadinho continua dependente da atividade minerária. As atividades na Mina Córrego do Feijão estão suspensas, mas há outras sete empresas minerando no município.

A prefeitura diz que tem buscado alternativas. Criou a Secretaria de Desenvolvimento Econômico e reservou uma área em seu plano diretor para instalar um distrito industrial - cujas obras ainda não foram iniciadas, segundo a prefeitura, porque dependem de recursos da Vale, previstos no acordo de reparação.

Para a professora Maria Fernanda, as autoridades envolvidas no acordo deveriam ter pensado em estratégias para tirar o município da 'minério-dependência'. "A forma como esses valores vêm sendo empregados não tocam na raiz do problema", diz.

A injeção do dinheiro vai acabar e não há nada para pôr no lugar. Ao longo desses cinco anos, não se investiu para construir uma economia real, com outras atividades, outras oportunidades de empregos.
Maria Fernanda Salcedo Repolês, professora da UFMG e pesquisadora

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Imagem: Arte Carol Malavolta/UOL e imagens Google Earth/© 2023 Maxar Technologies
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O exemplo do Córrego do Feijão

Outro crítica da professora ao acordo é que a Vale continua com poder de decisão. "A governança do dinheiro deveria estar nas mãos do poder público e dos atingidos, e a Vale deveria estar afastada, tendo somente a obrigação de entregar o dinheiro. O que está acontecendo é que a própria empresa consegue colocar a visão dela de como as coisas deveriam acontecer", diz Maria Fernanda.

No distrito Córrego do Feijão, a comunidade parece perdida em meio a grandes obras. Apesar de os moradores participarem de reuniões com a empresa para decidir as ações de reparação, tudo o que é construído parece superlativo para os padrões de uma população simples. Já foram entregues um centro cultural, um mercado e uma praça, tudo de primeira e que, por enquanto, são mantidos pela Vale. O projeto, porém, é que a comunidade se organize para administrar as benfeitorias por conta própria.

É tudo muito bonito, mas são investimentos caros. Quem vai manter? Eu, a igreja e meia dúzia de pessoas? Minha família e eu estamos ficando preocupados, porque muita gente saiu do bairro e continua saindo.
Silvia Ap. Camila de Oliveira, professora

13.jan.2024 - Centro cultural construído pela Vale como obra de reparação no Córrego do Feijão
13.jan.2024 - Centro cultural construído pela Vale como obra de reparação no Córrego do Feijão Imagem: Luciana Quierati/UOL

O Feijão é um bairro rural fica a 15 km do centro de Brumadinho e ao lado da Mina Córrego do Feijão, da Vale, onde a barragem se rompeu. Foi pouco atingido pela lama, mas conta 33 mortos na tragédia, entre moradores ou pessoas que nasceram e se criaram no bairro. "O bairro mudou completamente. Por mais que a gente tente levar a vida, não é mais a mesma coisa", diz Alcione Oliveira, presidente da associação de moradores.

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13.jan.2024 - Rua Um, a principal via do Córrego do Feijão, sem nenhum movimento de moradores
13.jan.2024 - Rua Um, a principal via do Córrego do Feijão, sem nenhum movimento de moradores Imagem: Luciana Quierati/UOL

Há questões básicas ainda não resolvidas. Há 5 anos não se pode beber a água que sai da torneira. Para tomar e cozinhar, os moradores usam a água mineral distribuída pela Vale, de casa em casa, toda sexta-feira. Antes eram dez fardos de 1,5 litro a cada semana. Agora, a água é reposta em galões de 10 litros. O fornecimento é feito por causa da suspensão das águas do rio Paraopeba, atingido pelo rejeito.

Diante da perda de amigos e vizinhos e das incertezas, muita gente deixou o bairro. Embora não haja números oficiais, tanto a associação de moradores, como a Vale, calculam que a população está 50% menor.

Wilson José Ferreira deixou o Córrego do Feijão e foi morar em Piedade dos Gerais
Wilson José Ferreira deixou o Córrego do Feijão e foi morar em Piedade dos Gerais Imagem: Arquivo pessoal

O ex-tesoureiro da associação de moradores Wilson José Ferreira, seu Tico, é um dos que foram embora. Há quase três anos, mudou-se para Piedade dos Gerais, município a 50 km de Brumadinho. "Vim pra cá porque minha esposa tem parente e porque aqui não passa o Paraopeba contaminado nem tem barragem. Ficar perto desse rio e de barragem, nunca mais", diz ele, que perdeu vizinhos e amigos naquele fatídico 25 de janeiro.

Seu Tico afirma que decidiu partir porque, do contrário, acabaria doente igual a tantos amigos. "O restante que ficou tá todo mundo doente. O seu Nelson, da associação, faleceu. O senhor Eustáquio também faleceu. O Basílio, o seu Hélio... Quem não morreu na hora [da tragédia] vai morrendo aos poucos", diz ele, nomeando seus antigos vizinhos.

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O Córrego do Feijão virou um arraial fantasma. Wilson José Ferreira, ex-morador do Feijão

O número de alunos na única da escola do bairro caiu. De 2018, um ano antes da tragédia, a 2023, a queda foi de quase 50% - de 86 matriculados em 2018, baixou para 45 no ano passado.

As ruas estão vazias. A reportagem visitou o Feijão numa sexta-feira e em um sábado, e quase não viu movimento. A não ser o de trabalhadores a serviço da Vale em uma obra num dos extremos do bairro e no final da rua principal, no outro extremo, almoçando antes de voltarem para dentro da mina.

O bairro está cheio de placas de 'propriedade particular'. São moradias que foram compradas pela Vale em duas situações. Ou porque a construção foi interditada pela Defesa Civil por estar na parte baixa do bairro, atingida pela lama, e a Vale a comprou como forma de indenizar o proprietário. Ou porque o morador decidiu se mudar e quis ser ressarcido, para poder refazer a vida em outro lugar, como foi o caso de seu Tico. "Fiz um acordo e saí, porque ficar num lugar desses para adoecer, não tem como", diz seu Tico.

13.jan.2024 - Na rua Dois do Córrego do Feijão há ao menos seis casas compradas pela Vale
13.jan.2024 - Na rua Dois do Córrego do Feijão há ao menos seis casas compradas pela Vale Imagem: Luciana Quierati/UOL

As casas estão depredadas e com mato alto. Tanto os imóveis que não foram vendidos para a Vale como os que foram estão bastante degradados. Alguns têm sido alvo de vandalismo e arrombamento. A empresa monitora o estado das casas - dois funcionários de uma empresa de segurança foram vistos pela reportagem no sábado fazendo fotos e relatórios dos imóveis.

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A Vale diz que vai reformar os imóveis e colocá-los para locação, com renda revertida para a comunidade. A ideia vem sendo discutida com os moradores, ainda cheios de dúvidas sobre como isso irá funcionar. "E se ninguém quiser alugar?", questiona a professora Silvia.

13.jan.2024 - Propriedade do Córrego do Feijão comprada pela Vale, abandonada e com mato alto
13.jan.2024 - Propriedade do Córrego do Feijão comprada pela Vale, abandonada e com mato alto Imagem: Luciana Quierati/UOL

A saúde continua abalada

A comunidade ainda está adoecida. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, houve um aumento de 380% nos registros de transtornos neuróticos na comparação entre 2014-2018 e 2019-2023 (até setembro do último ano). O consumo de antidepressivos também cresceu. O fornecimento de Sertralina 50mg, por exemplo, chegou a 28.036 comprimidos em 2023 (cálculo até agosto de 2023), num aumento de 159% na comparação com 2018, de acordo com a Central de Abastecimento Farmacêutico da cidade.

As estatísticas corroboram os relatos da comunidade. "Está tendo muita morte de familiar. Hoje faleceu um pai [de uma vítima da tragédia], em 3 de janeiro faleceu uma mãe que era irmã e cunhada de vítimas. Muitas mortes são por infarto. Estamos sabendo de vários casos de câncer, de pessoas que não quiseram se tratar. Familiar emagrecendo muito ou engordando muito devido à ansiedade. A tristeza está acabando com a pessoa por dentro", diz Alexandra Andrade Costa, ex-presidente e atual tesoureira da associação das vítimas, a Avabrum.

A saúde da minha mãe lá em casa, o psicológico dela acabou todinho. Ela vive de remédio controlado; todo mundo lá em casa vive.
Fernando Nunes Araújo, que perdeu o irmão Peterson na tragédia

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O sentimento é de ciclo não fechado

13.jan.2024 - Fernando Nunes Araújo perdeu o irmão Peterson na tragédia
13.jan.2024 - Fernando Nunes Araújo perdeu o irmão Peterson na tragédia Imagem: Luciana Quierati/UOL

Ao longo desses cinco anos, muitos familiares foram sendo notificados de que novos fragmentos de corpos de seus entes, já identificados e sepultados, estavam sendo encontrados. "Os familiares foram se dando conta da brutalidade do impacto da lama", diz Alexandra. O sinaleiro Fernando Nunes Araújo diz que enterrou o irmão, Peterson, duas vezes, porque uma parte de corpo dele foi encontrada meses depois do sepultamento. Mas há pessoas que preferem não falar que seu familiar teve só partes encontradas, dizem que foi o corpo inteiro. Há um sentimento de humilhação pelo estado em que seu ente foi encontrado.

Nem todo mundo foi encontrado. Das 270 vítimas, três ainda são procuradas pelos bombeiros na zona quente, a área atingida pela lama. E a espera é cheia de angústia. "No primeiro ano, no segundo, você fica na expectativa do encontro: 'vai acontecer hoje', 'vai acontecer amanhã', e não acontece. E a gente ainda recebe detalhes horríveis do que está sendo encontrado", diz Patrícia Borelli, que mora nos Estados Unidos, no estado de Nova York, e aguarda pelo encontro do corpo da mãe, Maria de Lurdes da Costa Bueno, a Malu.

A gente recebe relatório dizendo que foi encontrada bota com tecido [humano] dentro. É esse tipo de coisa que a gente lida há cinco anos, que ninguém deveria ter que lidar. Uma vida inteira não resolve esse trauma.
Patrícia Borelli, cuja mãe, Malu, ainda não foi encontrada

As famílias foram indenizadas. Acordo firmado entre o Ministério Público do Trabalho e a Vale garantiu indenização às famílias de trabalhadores da mineradora ou terceirizadas mortos na tragédia. Familiares de vítimas que não trabalhavam na mina entraram com processos na esfera cível. Segundo a Vale, já foram feitos 7,1 mil acordos de indenização, envolvendo 14,3 mil pessoas e um total de R$ 3,4 bilhões.

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Nem todos estão de acordo com o que foi pago. "O acordo feito pegou todo mundo adoecido, sem saber o que fazer. Os familiares votaram a favor de um valor que, diante do dano que foi provocado, não é justo. Até nisso a Vale colocou preço", diz Alexandra, da Avabrum.

Alexandra Andrade, ex-presidente e atual tesoureira da Avabrum.
Alexandra Andrade, ex-presidente e atual tesoureira da Avabrum. Imagem: Arquivo pessoal

Os familiares ainda esperam por justiça. Atualmente, o processo criminal, por acusação de homicídio doloso, tramita na Justiça Federal em fase inicial depois que deixou, por decisão do STF, de ser de competência da Justiça estadual. Dos 16 réus, 12 já foram citados e seus advogados já se apresentaram no processo, tendo cem dias de prazo para apresentarem suas defesas, afirma o advogado da Avabrum, Danilo Chammas.

O presidente da Vale à época da tragédia, Fábio Schvartsman, tenta se livrar do processo. Ele entrou com habeas corpus no TRF-6 para deixar a ação, alegando que não teve ligação com o rompimento. Em 13 de dezembro, o desembargador relator votou favorável a Schvartsman, mas houve um pedido de vistas, e o julgamento foi interrompido. "Não é uma questão só financeira, de indenização. O que os familiares querem é que os culpados sejam punidos", diz Alexandra.

O que diz a Vale

A diretora de reparação da Vale, Gleuza Jesué, diz que, 'obviamente, nem tudo está resolvido', mas que há 'indícios de avanços'. Ela afirma ainda que as iniciativas estão sendo construídas junto com as comunidades, fazendo 'ajustes e correção de rota', como é o caso dos projetos de reparação do bairro Córrego do Feijão. "Não podemos fazer a principal ação da reparação, que é trazer de volta as vidas que se perderam, mas temos a obrigação de tentar fazer o melhor, proporcionando às pessoas uma melhor qualidade de vida", diz Gleuza.

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*A repórter viajou a convite da Vale

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