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Os dermatos e cirurgiões de luxo pagos por fabricante de injeções estéticas

Luiz Eduardo Avelar circula de ternos bem cortados pelos aeroportos internacionais. Em seis anos, viajou a mais de 30 países para lançar um produto que promete aumentar o colágeno da pele e um preenchedor de rugas, ambos da farmacêutica Galderma.

Só entre outubro e novembro do ano passado, esteve no Egito, em Dubai e Londres. O cachê nesses seis anos: R$ 1,4 milhão. Em passagens, hotéis, refeições e cursos, mais R$ 1 milhão.

Avelar não é artista, nem influenciador. É cirurgião plástico, com consultório em Belo Horizonte. Nos eventos da Galderma, faz palestras para outros médicos sobre os produtos da empresa. A prática é permitida e comum em diversos países.

Para ter mais tempo para a farmacêutica, Avelar abriu mão da cirurgia, mas segue aplicando injeções estéticas. Cobra a partir de R$ 1.500 no preenchimento facial e R$ 3.000 no estimulador de colágeno — sempre da Galderma.

"Eu não fui sempre Galderma, antes era de uma concorrente. Quando recebi o convite (para palestrar para o laboratório), fui migrando aos poucos. Hoje, eu uso 100% Galderma, porque eu tenho um conhecimento maior dos produtos", diz Avelar.

O cirurgião plástico não vê conflito de interesse em receber para participar do lançamento dos produtos e, ao mesmo tempo, aplicá-los no consultório.

Questionado se informa os pacientes sobre sua relação com laboratório, Avelar diz que não. "Eu nem toco nesse assunto, aqui eu sou médico." Mas a TV da sala de espera do consultório dá uma pista: só exibe a TV Galderma, um canal de propaganda da farmacêutica.

"Sou extremamente favorável [à relação com a indústria farmacêutica] se for com objetivo de treinamento médico. Por exemplo, eu vou comprar um laser. Eles [fabricantes] têm que me treinar, senão eu vou sair usando errado. A Galderma tem preocupação com o treinamento dos injetores. O que ela gasta [com treinamento] é uma coisa absurda", diz Avelar.

Time de médicos da Galderma

Avelar não é o único. Faz parte de um time de cirurgiões plásticos e dermatologistas brasileiros que recebem valores milionários da empresa. São dezenas em todo o país. Mas só em Minas Gerais essas informações estão públicas, pois o estado exige que a indústria da saúde declare quanto paga aos médicos.

A Galderma é justamente a empresa que mais gastou com médicos em Minas: R$ 15 milhões.

Desse valor, R$ 10 milhões ficaram com seis dermatologistas e dois cirurgiões plásticos de luxo. Eles atendem em clínicas chiques, têm clientes endinheirados, fazem sucesso nas redes sociais e dividem o consultório com as viagens para dar aulas para a Galderma.

É o que a indústria chama de "speakers" — palestrantes, em português.

"Eu sou apaixonado por essa vida de 'speaker'. Dividir informação e adquirir conhecimento", fala Avelar, que é o médico que mais recebeu da Galderma em Minas. "Vejo um tanto de gente [médicos] brigando para entrar".

Em comparação, o cachê da embaixadora da marca no Brasil, Sabrina Sato, fica em torno de R$ 4 milhões por ano, segundo apuração de Lucas Pasin, colunista de Splash, do UOL.

Há uma diferença. Artistas como Sabrina precisam sinalizar #publi nos conteúdos de marca, por causa das regras de autorregulação da publicidade. Já os médicos não precisam divulgar em seus posts se são contratados pelo laboratório, ou se recebem benefícios dele.

"Eu posso prescrever [cita nome do estimulador de colágeno da Galderma] para cada um dos meus pacientes, essa é a razão por que eu gosto tanto", diz Avelar, em inglês, em um vídeo postado em fevereiro no seu Instagram.

O material foi produzido pela própria Galderma. O médico não sinalizou no post que tem contrato com a farmacêutica.

'Speakers' da Galderma

Outra figura frequente nos eventos da Galderma é a dermatologista Juliana Sarubi, que tem clínica em um bairro nobre de Belo Horizonte. A médica foi beneficiária de R$ 1 milhão do laboratório, desde 2017 — primeiro ano da base de dados mineira. Metade disso foi referente a contratação de palestras e consultorias.

A parceria começou antes. Desde 2012, Sarubi viaja o Brasil pela Galderma. Em 2016, deu início às palestras internacionais.

"Nas aulas que são da Galderma, a gente fala dos produtos da Galderma. Não é ético falar de outros produtos", afirma a dermatologista. "A Galderma é pioneira na educação médica continuada. Acho que é o grande diferencial. Não adianta só vender o produto. O médico precisa saber como aplicar".

Assim como Avelar, Sarubi diz que "quase 100%" dos produtos que usa no consultório são da Galderma. E que sua preferência pela marca é anterior aos contratos de "speaker".

"Acho que sempre tem essa questão de conflito de interesse. Mas nós temos liberdade para usar o produto em que sentirmos mais confiança, melhores resultados", diz ela.

O foco das palestras de Sarubi são os tratamentos da Galderma para os glúteos. O preço do bumbum completo com a dermatologista — usando produtos da marca — chega a R$ 32 mil.

Mercado milionário

O Brasil é um dos maiores mercados de procedimentos estéticos do mundo. Segundo a consultoria Deloite, 49 de cada 1.000 brasileiros fizeram tratamentos médicos estéticos.

A Galderma é uma das principais fabricantes dessa área. E é também uma das farmacêuticas que melhor remunera os seus "speakers".

No ranking dos médicos patrocinados com mais de R$ 1 milhão em Minas, seis são ligados à Galderma. Um sétimo é vinculado a um concorrente, a Allergan, que produz o botox. Outro é patrocinado por uma empresa de produtos para cirurgias ortopédicas. E dois por fabricantes de remédios.

Os gastos com médicos vão além da contratação de palestras. A indústria da saúde também paga passagem, hospedagem, inscrição e refeição para outros médicos brasileiros assistirem às apresentações.

No caso da Galderma, a empresa realiza eventos todos os anos. Em 2019, custeou a ida de cerca de cem brasileiros para um encontro da marca em Nova York. As atividades foram em português, porque tanto palestrantes como ouvintes eram do Brasil. No caso dos médicos de Minas, o custo médio declarado foi de mais de R$ 40 mil por profissional.

Uma das pessoas patrocinadas disse à reportagem que, para ser convidado para as viagens com tudo pago, é preciso atingir uma cota de injeções da Galderma em pacientes. Quem injeta mais viaja mais pelo laboratório.

Nas redes sociais, os médicos convidados agradeceram ao convite. "O evento deste ano foi maravilhoso, nada melhor do que uma cidade como Nova York. O meu muito obrigada pela minha equipe e a toda a Galderma. Foi inesquecível!", postou uma médica de Goiás para seus mais de 50 mil seguidores no Instagram.

No ano seguinte, já durante a pandemia, a Galderma realizou um evento online para brasileiros. Mesmo sem ter custos com passagens e hotéis, declarou que gastou R$ 400 mil com a participação dos médicos mineiros.

Procurada, a Galderma disse que busca "manter os mais altos padrões de treinamento e educação a profissionais de saúde, para que os pacientes possam receber melhores aconselhamentos e tratamentos em consultório".

"Somos comprometidos a inspirar e capacitar profissionais injetores em seu trabalho e, assim, contribuir para o crescimento do setor", afirmou a empresa. "Os profissionais de saúde que prestam serviços científicos para a Galderma são escolhidos exclusivamente com base na competência técnica e conhecimento científico que possuem."

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