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Cirurgião acusado por mulheres é parceiro de perfis com promos de plásticas

O médico Herbert Gauss Júnior, condenado a pagar indenizações em pelo menos 23 processos por problemas em cirurgias plásticas, mantém parceria com perfis nas redes sociais e grupos no WhatsApp que anunciam a venda de procedimentos.

A prática é vetada pelo CFM (Conselho Federal de Medicina).

Os perfis prometem "o corpo perfeito", divulgam fotos de antes e depois, com citações a Gauss e outros médicos, e fazem promoções.

As páginas não mencionam riscos ou consequências indesejadas, como problemas de cicatrização, comuns em suas intervenções segundo mulheres ouvidas pela reportagem.

Os anúncios oferecem valores menores para atendimentos remotos, quando o valor é pago após envio de fotos da paciente.

Promoção no perfil Bella Dessaa, que vende cirurgias plásticas em parceria com o médico Herbert Gauss, acusado de deformar mulheres. A prática é repudiada pelo CFM
Promoção no perfil Bella Dessaa, que vende cirurgias plásticas em parceria com o médico Herbert Gauss, acusado de deformar mulheres. A prática é repudiada pelo CFM Imagem: Reprodução/Instagram

Nesse caso, o médico só conhece o corpo da paciente na sala de cirurgia, o que é repudiado pelo CFM.

A reportagem se passou por cliente por um mês e conversou com cinco intermediadoras, que fazem o primeiro contato como se fossem o médico e se autointitulam "facilitadoras de cirurgia plástica".

Elas mantêm um grupo de WhatsApp com promoções, fotos de pessoas operadas e relatos de operações bem-sucedidas, que são usados para atrair pacientes.

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Procurado, Herbert Gauss não se manifestou sobre seu envolvimento com os perfis.

O médico Herbert Gauss
O médico Herbert Gauss Imagem: Instagram/Divulgação

'Para a primeira que fechar'

Os perfis publicam promoções de cirurgias plásticas, com valores muito abaixo da média e que chegam à metade do preço regular — uma abdominoplastia sai por R$ 7.000.

As frases usadas para chamar a atenção lembram anúncios televisivos de lojas de departamentos: "Megapromoção relâmpago", "corra, só agora para a primeira que fechar", "garanta o valor promocional e ganhe vários brindes".

Sorteios e pagamento de carnê também fazem parte das ofertas.

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Se a paciente se interessar, a facilitadora fecha o contrato, marca consultas e a data de cirurgia.

Um dos perfis mais famosos é o Bella Dessa, com 300 mil seguidores. É administrado por Andressa Ferreira, que mantém uma página pessoal na qual segue a mesma linha de vendas.

Andressa postou em 25 de novembro de 2023 uma promoção de Black Friday: "Lipoaspiração (grande) por apenas R$ 10,8 mil à vista". Dois dias depois, a oferta havia acabado e o valor, subido para R$ 12 mil.

A reportagem teve acesso a um processo indenizatório de fevereiro de 2022, contra o médico Herbert Gauss, em que Andressa Ferreira também é cobrada.

Uma ex-paciente diz na ação ter seguido o perfil de Andressa no Instagram e feito uma cirurgia para colocar prótese de silicone com Gauss, mas os seios ficaram diferentes e flácidos.

Afirma ainda que Andressa Ferreira teve vantagem econômica em cima do serviço prestado e deveria fazer parte do processo. A Justiça acatou o argumento.

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O processo tramita em primeira instância e aguarda perícia médica.

Outro perfil ligado a Gauss também é citado no mesmo processo: New Silicone Plastic, criado por Aparecida de Oliveira da Silva.

A página está parada desde dezembro de 2021 e em fevereiro de 2022 foi criada outra no lugar: New Cirurgias e Estética, com menções diretas a Gauss, que também organiza um grupo para divulgar promoções no WhatsApp.

Um terceiro perfil que intermedeia cirurgias para o médico é o Top Cirurgias, administrado por Bruna Viana.

Ex-paciente de Gauss, Luciana Barros, 43, conta que foi atraída pelas ofertas e resultados que Bruna oferecia.

"Procurei na internet e cheguei no perfil dela. No contato, disse que se marcasse a primeira consulta por meio dela, não teria custo", conta.

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A cirurgia foi feita em 2022, e hoje Luciana diz se sentir "mutilada" pelo médico. "Ainda tenho pontos que me machucam muito. O resultado foi terrível. Não tenho mais sensibilidade nos seios. Só dormência."

Andressa, Aparecida e Bruna não responderam aos pedidos de entrevista do UOL.

A paciente Luciana Barros
A paciente Luciana Barros Imagem: Bruna Bento/UOL

'Corpo humano não é lataria de carro'

"Desconto só é válido para o valor de consultas, não de procedimentos", explica o médico Emmanuel Fortes Silveira Cavalcanti, relator da Resolução de Publicidade Médica e Diretor de Fiscalização do Conselho Federal de Medicina.

Intermediar serviços médicos, anunciar preços de procedimentos e oferecer promoções são práticas vetadas pelo CFM.

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"Cirurgias são individualizadas. A discussão é interna, entre médico e paciente. O corpo humano não é uma lataria de automóvel; cada um tem variáveis biológicas. Tem que avaliar caso por caso."

Cavalcanti ressalta que os profissionais estão infringindo a resolução do conselho nos casos relatados na reportagem, ainda que a publicidade não seja feita diretamente pelos médicos citados nos perfis.

"Se eles estão recebendo a demanda vinda do perfil do Instagram ou do WhatsApp, têm ligação, sim", diz.

A responsabilidade por investigar e punir os casos é dos conselhos regionais de medicina. Como a rede de Gauss atua em São Paulo, cabe ao Cremesp a fiscalização.

Cirurgião plástico e coordenador do Departamento de Comunicação do Cremesp, Alexandre Kataoka afirma que o órgão já investiga mais de cem denúncias envolvendo perfis e médicos.

Ele diz não poder dar mais detalhes, pois as investigações são sigilosas.

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Kataoka classifica como "absurda" a existência e o método de ação dos perfis. "Tudo o que fazem está totalmente fora das regras do conselho."

Ele reforça que os médicos também devem ser responsabilizados pela ligação com os perfis. "Não podem se apoiar nesse tipo de serviço", diz.

Além de ferirem resoluções ligadas a publicidade e confidencialidade, os profissionais também ferem o Código de Ética da profissão.

O representante do Cremesp alerta: o consumidor não deve contratar cirurgias plásticas com intermediadoras, precisa certificar-se no site do CFM que o médico tem especialidade na área e não pode aceitar atendimento apenas online.

"Não existe indicar uma operação para um paciente sem exame físico."

Apesar das investigações do Cremesp, todos os perfis, grupos de WhatsApp e médicos continuam atuando normalmente.

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O médico Herbert Gauss
O médico Herbert Gauss Imagem: Reprodução/Instagram

Facilitadoras 'somem' após cirurgias

Três ex-pacientes de Gauss ouvidas pelo UOL contam que as facilitadoras dão atenção até a cirurgia.

Depois disso, elas não se responsabilizam por resultados frustrantes. Ou dizem para a pessoa procurar a clínica ou o médico ou comprometem-se a ajudar num primeiro momento, mas nada fazem.

A depiladora e designer de sobrancelha Renata* disse ter sido fisgada pelos anúncios prometendo corpos perfeitos e preços convidativos na Bella Dessa.

Ela fechou contrato para realizar mastopexia, silicone e lipoaspiração de papada em outubro de 2020, com Gauss, por cerca de R$ 10 mil.

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O pós-operatório, porém, foi um pesadelo — e as consequências físicas são sentidas até hoje. Renata diz ter ficado um ano com pontos abertos e "buracos no peito, sangrando, saindo líquido e secreção".

Não houve assistência do médico nem respostas da clínica aos pedidos de ajuda, segundo ela, que recorreu à Andressa Ferreira, a Bella Dessa.

"Falei com ela, que disse que me ajudaria, que falaria com o médico. Mas não fez nada."

Renata afirma que ainda hoje sente "todos os pontos internos" lhe furando, principalmente ao se deitar.

"Fiquei com muito medo de não sobreviver, de deixar minha filha sozinha."

16 comentários

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Ricardo Fernando Arrais

Infelizmente "profissionais" desse (baixo) nível são cada vez mais a regra, e não a exceção, se alimentando da doentia busca pelo "corpo perfeito", que também é reflexo direto da doença social que essa sociedade consumista, materialista e espiritualmente vazia. Isso tudo só resulta em eterna insatisfação, mesmo sem a existência de erros médicos mais grosseiros.  Falham também nossos conselhos, lentos, burocráticos, sem mecanismos de "busca ativa" desses maus profissionais, reagindo apenas após denúncias, e também agindo ainda com graus variados de corporativismo absolutamente condenáveis. Como professor universitário formando novos médicos há 27 anos, vejo claramente a degradação progressiva do padrão ético de nossos profissionais, com honrosas, mas cada vez menos numerosas exceções. Triste panorama. Vai piorar!

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Jean Pierre Verdager

A triste realidade da medicina praticada atualmente no Brasil só vai mudar quando: 1 - os meios de comunicação se unirem em torno de uma pauta investigativa muito séria, com meta análises dos crimes praticados por médicos nos últimos anos e do comportamento dos conselhos regionais e federal de medicina. 2 - o ministério público e a polícia federal se debruçarem seriamente sobre o CFM e os CRMs, investigando crimes, acobertamentos, lobbies e corrupção. 3 - uma CPI dos CRMs e do CFM for instaurada no parlamento. 4 - A própria classe médica, composta por uma maioria de profissionais honestos, porém completamente omissos, passar a se manifestar de modo organizado e proativo todas as vezes que houver uma notícia de crime praticado por médico no exercício da profissão, sem passada de pano, sem corporativismo.

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Sergio de Jesus Cides

Médicos(as) antigos(as) com mais de 30 anos de profissão, lembram-se do Juramento de Hipócrates, antes de cada consulta ou procedimento...  Era um tempo onde os(as) médicos(as) de qualquer especialidade exerciam sua profissão como uma vocação ou um dom... Hoje 'trabalham' apenas por dinheiro... e sujeitam-se à praticar telemedicina, sem nenhuma empatia com sua vítima (perdão: seu paciente).  

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