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Bernardo Machado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

As análises políticas de 2018 não funcionarão em 2022

Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL
Bernardo Machado

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Colunista do UOL

12/03/2021 04h00

Enquanto as forças políticas nacionais se deslocam e realinham, nota-se, nas redes sociais e em parte da mídia, o emprego dos mesmos recursos analíticos adotados em 2018. As pessoas retomam o vocabulário que impactou o país nas últimas eleições presidenciais — "somos um país polarizado", "nos odiamos", "antipetismo", "anticorrupção" e afins. Ao utilizar exatamente a mesma gramática, entretanto, poderemos ficar míopes para interpretar os novos posicionamentos e as nuances do contexto que se desenha. Essa maneira de "enquadrar" o fenômeno político pode nos deixar insensíveis para mudanças e, pior, pode transformar o que é novo em algo ultrapassado. Explico.

Primeiro, as bases comparativas se alteraram. Em 2018, havia uma experiência recente e concreta do que haviam sido os últimos governos petistas e, por comparação, uma expectativa para o eventual governo Bolsonaro. Os decretos do atual presidente eram, ainda, uma abstração (apesar dos 27 anos como deputado federal). Muita gente apostou na novidade e na promessa "antissistema" proclamada pelo então candidato. Na época, a polarização assentava-se, ao menos em parte, numa comparação (retórica) entre "o já sabido" e "o novo".

Em 2022, o confronto se dará em outros termos. Haverá a experiência de 4 anos de governo Bolsonaro e não será possível alegar desconhecimento. Nesses termos, importará a rejeição ao atual governante (seu nível e intensidade), trata-se de uma variável relevante em outubro do ano que vem — como costuma-se dizer, "a reeleição é uma avaliação do governo". Existirá um "antibolsonarismo" para aglutinar parte do eleitorado? Essa rejeição agirá independentemente da outra candidatura? Certamente algumas pessoas defenderão a extensão de Bolsonaro no cargo alegando as liberdades do segundo mandato. De toda forma, já há a experiência social dele com a caneta do Executivo.

Em segundo lugar, o discurso anticorrupção deve mudar de patamar. Em 2018, Jair Bolsonaro se vendia como arauto do combate às mazelas do Estado. Entretanto, a demissão de Sérgio Moro, a aproximação com o chamado "centrão" (ou "arenão") e o envolvimento de Frederick Wassef e dos filhos em esquemas (no mínimo) suspeitos colocam as pessoas se não em uma postura de acusação, ao menos em dúvida quanto ao comprometimento do presidente na luta contra formas ilícitas de uso da máquina pública.

Além disso, apesar do discurso contra corrupção, em 2022 outros temas devem disputar os holofotes. No plano da economia, as comparações da situação atual com o governo Lula estão correndo as redes sociais — mesmo com contra-argumentos de analistas e economistas. Uma nova variável, ausente em 2018, entra em jogo com força em 2022: a saúde e a pandemia.

Ainda que o país esteja integralmente vacinado, quero crer que a memória de 2019 e 2021 estarão bastante presentes. Por sinal, é possível imaginar que Bolsonaro não tenha pressa na vacinação este ano, justamente para desfrutar da imunidade completa atingida em 2022 e do consequente otimismo social. Afinal, o presidente é hábil em modificar seu discurso e pode ainda defender que sempre agiu em favor das vacinas.

Em terceiro lugar, as retóricas emotivas de 2018 provavelmente não se repetirão em 2022. Em 2018, Lula estava impedido pela justiça para se candidatar à presidência. Na época, havia um certo tom de ressentimento do PT com diversos setores da sociedade (a mídia, a justiça, os empresários e muitos partidos políticos). Ao menos no discurso do dia 10 de março, Lula começa a campanha de 2022 com uma retórica diferente. Ele parece apostar na conciliação com distintos universos sociais — postura com a qual navegou durante boa parte de seus dois mandatos.

Quiçá essa estratégia sintonizará com um país cansado de brigas e conflitos. Em 2018, havia um desejo punitivo e uma atmosfera de que o país era inconciliável — as pessoas queriam distância umas das outras. Passados três anos e uma pandemia, imagino que uma parte de nós está fatigada e frustrada por não ter encontrado familiares nas festas de final de ano, nos aniversários e no dia a dia. Há espaço para as pessoas desejarem superar suas diferenças e para se reencontrar após tantos meses de separação e isolamento. Nesse novo contexto, talvez o discurso raivoso enfrente alguma dificuldade de se alastrar. Resta verificar.

Diante desses elementos, a insistência nas mesmas ferramentas analíticas adotadas em 2018 pode nos levar para um campo movediço. Primeiro porque o contexto sócio-econômico-sanitário-político se alterou — e muito. Segundo, porque, ao repisar os mesmos argumentos, forçamos raciocínios onde eles não mais se encaixam. As comparações entre Bolsonaro e Lula merecem outro patamar em 2021.

Terceiros (e mais abstrato), as definições que damos às nossas ações fazem parte da maneira como constituímos as práticas em si. Isto é, o modo como elaboramos e descrevemos um fenômeno lhe dá a sua própria forma — por isso, se começarmos a insistir em tratar 2022 como se fosse 2018 é possível perder a oportunidade de tratar o ano que vem como um novo universo. Criamos uma profecia e a auto realizamos por teimosia ou por pouca criatividade analítica.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL