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Em São Paulo, aluga-se por R$ 8 mil vista para o abismo social do Brasil

Vista da favela de Paraisópolis a partir de prédio de alto padrão, no bairro paulistano do Morumbi - Inês Bonduki/UOL
Vista da favela de Paraisópolis a partir de prédio de alto padrão, no bairro paulistano do Morumbi
Imagem: Inês Bonduki/UOL

Rodrigo Bertolotto

Do TAB

06/03/2021 04h01

"O condomínio fica na avenida Giovanni Gronchi, e a varanda com piscina tem vista total para a comunidade carente de Paraisópolis. Tem o barulho do baile funk. Caso seja um problema, esse imóvel não é indicado." A mensagem da corretora pelo WhatsApp vai logo alertando antes da visita ao apartamento no bairro paulistano do Morumbi. O imóvel tem área de 300 m², com aluguel de R$ 8 mil.

O prédio Roof tornou-se icônico por ficar à beira do abismo social brasileiro. Foi construído em 1985, e imitou o estilo de terraços em espiral com piscinas privativas do vizinho edifício Penthouse, erguido na década anterior. Nessa época, a comunidade de Paraisópolis não dominava totalmente a paisagem, mas cresceu de tal forma que hoje a quadra de tênis do prédio é colada a uma viela da segunda maior favela de São Paulo. Só um muro com lanças e dez eucaliptos separa as duas pontas da desigualdade nacional.

Recentemente, metade dos apartamentos do edifício ficou disponível para a venda ou locação. Uma das unidades, em especial, chamou a atenção: a cobertura de 410 m². Com paredes descascadas, banheiros cheios de umidade, mato tomando conta dos vasos de planta, decoração antiquada e cômodos bagunçados, as fotos do anúncio na plataforma imobiliária Quinto Andar geraram uma onda de posts e comentários nas redes sociais.

"Vibe gostosa, a suíte me passou a mesma energia das fotos da perícia do caso dos Von Richthofen". "Precisa incluir as sessões da Márcia Sensitiva nesse aluguel". "Como que alguém tem coragem de colocar umas fotos dessas?! Só se fosse pra locação de filme de terror". "Acho engraçado que aqui na favela pra alugar uma casa o proprietário reforma todinha e fica linda, rico é tão nojeira que não tem capacidade nem pra isso". Estes foram alguns dos mais de mil retuítes sobre o imóvel. Ver a decadência do lado rico da cena gerou uma enxurrada de ironia.

Os empreendimentos Roof, Penthouse e Studium Vogue foram erguidos pela construtora Adolpho Lindenberg em estilo mediterrâneo. Suas típicas fachadas brancas e arredondadas contrastam com a realidade sem reboco da favela ao lado.

Terraços com piscinas do edifício Roof, na região do Morumbi, em São Paulo - Inês Bonduki/UOL - Inês Bonduki/UOL
Terraços com piscinas do edifício Roof, na região do Morumbi, em São Paulo
Imagem: Inês Bonduki/UOL

O engenheiro que dá nome à empresa foi o responsável por pontilhar os bairros nobres de São Paulo com mansões coloniais e prédios neoclássicos, entre as décadas de 1950 e 1980. Católico tradicionalista (primo e discípulo de Plínio Corrêa de Oliveira, fundador do grupo Tradição, Família e Propriedade), Lindenberg era contrário à arquitetura moderna.

Nesse mesmo período, Paraisópolis foi se espalhando e adensando. Muitos migrantes nordestinos vieram para trabalhar em obras próximas, como a do Palácio dos Bandeirantes (sede do governo estadual inaugurada em 1965), do estádio do Morumbi (a construção foi de 1952 a 1970), além do paliteiro de prédios que eles ergueram na região.

Hoje, o cálculo é que morem mais de 100 mil pessoas na favela, cuja história remonta a um fracasso comercial após o loteamento da Fazenda Morumbi, em 1921. A última tentativa de remover dali o bairro irregular foi no início da década de 1980, mas a obra viária que ocuparia a área foi suspensa. Paraisópolis resistiu e acabou recebendo população retirada de outras favelas do entorno. A partir deste século, houve um movimento de regularização e urbanização por parte do Estado, além do investimento de ONGs e da vizinhança endinheirada em iniciativas capitaneadas pela associação de moradores.

Cartão postal do país

O edifício Penthouse (termo em inglês para "cobertura") ficou conhecido por ser cenário da novela da TV Globo "A Próxima Vítima", de 1995, como residência da personagem Helena, "a bonitona do Morumbi", interpretada pela atriz Natália do Vale.

Em 2007, uma imagem aérea da região feita pelo fotógrafo Tuca Vieira, então na equipe do jornal Folha de S.Paulo, foi exposta no Tate Modern, em Londres. O encontro dos dois extremos em um só clique parecia tão irreal que muitos estrangeiros compararam a uma colagem — virou até o pôster da exposição "Cidades Globais". A foto entrou em muitos livros, inclusive didáticos, ilustrando assuntos como distribuição de renda e sociedade de classes.

Paraisópolis - Tuca Vieira - Tuca Vieira/Folhapress - Tuca Vieira/Folhapress
Vista a partir de helicóptero mostra dividem de classes dentro do bairro paulistano do Morumbi
Imagem: Tuca Vieira/Folhapress

O problema é que esse abismo social foi aceito como parte da paisagem para quem vive no sexto país mais desigual do mundo, só superado por nações africanas na lista organizada pela ONU (Organização das Nações Unidas). "A gente já se acostumou com a vista. No fim de ano é até bonita: a queima de fogos daqui deve ser maior até que a de Copacabana. O que incomoda é o som alto dos botecos que ficam aqui perto. Eu ligo para a polícia, mas eles querem saber o endereço certinho. Como eu vou saber se é no meio da favela?", reclamou um dos proprietários de um terraço para Paraisópolis.

A reportagem do TAB visitou propriedades nos prédios emblemáticos e coletou histórias. Na fantasmagórica cobertura do edifício Roof vivia um executivo do frigorífico Wilson, mas atualmente a residência coleciona dívidas com impostos e taxas de condomínio.

Parte da família de Ivo Noal, o maior bicheiro de São Paulo, também ocupava um andar inteiro do mesmo prédio — do outro lado do muro existe uma banquinha de aposta em cada rua.

Outro muro reserva uma pendência jurídica com o vizinho Penthouse: a parede que divide os dois empreendimentos já cedeu duas vezes, depois de fortes chuvas. Na primeira vez, derrubou a espaçosa churrasqueira do condomínio. Agora em fevereiro, parte do muro e o lamaçal do terreno inclinado invadiram a quadra de tênis.

Por lá, um dos apartamentos para alugar parece que parou no tempo. Os aquecedores de água estão enferrujados. As luminárias nos tetos e paredes são em forma de candelabros medievais. Os armários de cerejeira, bem ao gosto dos anos 1980, estão quebrados. De tão carcomidos pelo tempo e a umidade, os espelhos dos banheiros já não refletem nada nem ninguém.

O aluguel, incluindo impostos, é de R$ 8.400. Para fechar o negócio, deve-se comprovar renda mensal acima de R$ 21 mil. Para a venda, um outro apartamento de andar completo do edifício Roof custa R$ 850 mil, incluindo varanda com piscina. Um imóvel do mesmo tamanho e padrão vale cinco vezes mais em bairros como Jardins ou Higienópolis. O bairro do Morumbi sofreu desvalorização contínua nos últimos anos, com crescimento desordenado, trânsito congestionado e assaltos, com grande estoque de imóveis (antigos e novos) vagos, fato que só aumentou com a pandemia, o desemprego e a crise econômica.

O anúncio virtual de um desses apartamentos encalhados termina sua lista de comodidades com o seguinte item: "varanda gourmet (pra Paraisópolis)". A descrição imobiliária mostra que o brasileiro já se acostumou à injustiça social. Agora, o "país do futuro" vai se familiarizando também com a decadência.