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Bernardo Machado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

No contexto em que o 'mito' desmorona, precisamos falar sobre o 'eu avisei'

Presidente Jair Bolsonaro será investigado por não ter comunicado irregularidades na compra da vacina - Reuters
Presidente Jair Bolsonaro será investigado por não ter comunicado irregularidades na compra da vacina Imagem: Reuters
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Bernardo Machado

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Colunista do TAB

11/07/2021 04h01

Os indícios de corrupção infestam o discurso de figura imaculada vociferado por Bolsonaro. Os áudios sobre as rachadinhas, as denúncias na CPI da Covid a respeito dos rumos tomados durante a pandemia e as relações nebulosas com partidos fisiológicos colocam a defesa do presidente numa posição, no mínimo, complicada.

Enquanto as fissuras em sua imagem aumentam e os índices de aprovação caem, cresce um certo tom de "eu avisei" por quem não votou 17 em 2018. Esse "eu avisei" ronda as redes sociais, insere-se nas conversas familiares e, mesmo quando não aparece explicitamente, se faz presente, ora com um olhar maroto, ora com a sobrancelha arqueada. Dois tipos de postura "eu avisei" parecem existir: aquela com tom de superioridade e a outra marcada por profunda mágoa.

Sobre o primeiro tipo, quem fala costuma enunciar com uma enorme satisfação: um grito de vingança. Ao dizer a expressão — ou mesmo pensar —, o sujeito destaca sua leitura política no período eleitoral de 2018. Isto é, destaca ter avisado, com antecedência, a incompetência de Bolsonaro e ter antevisto suas posturas. Para quem escuta o "eu avisei", a reação costuma ser outra: há quem se recolha na vergonha ou no silêncio e quem reaja com raiva ou repulsa.

Esse tipo de "eu avisei" no debate público é compreensível, mas interrompe parte da discussão. Quem tem essa postura pode soar como um ser iluminado dotado de um conhecimento singular que prenunciou algo que outros ignoraram. Quem recebe a reprimenda, por sua vez, pode alegar que, em 2018, não havia alternativa política, ou ainda, repetir que era impossível prever o caos pandêmico, como também sair em defesa do presidente e de seu governo.

Aqui, a postura do "eu avisei" cria uma espécie de barreira entre "racionais" e "ignorantes", "astutos" e "ingênuos" ou, ainda, entre "humanitários" e "inescrupulosos".

Não quero dizer com isso que devamos interromper a discussão a respeito de candidatos, propostas e projetos políticos. Nossos votos não são mera delegação de responsabilidade, muito pelo contrário, somos responsáveis por quem elegemos — precisamos fiscalizar e, também, parabenizar. Mas, esse "eu avisei" está para além da cobrança e entra numa chave de satisfação (individual): vingar-se, superar o outro numa "batalha" e expor o erro alheio na praça pública. Com esse tipo de "eu avisei", corremos o risco de deixar o debate republicano de lado e ingressar numa esfera da provocação.

Em paralelo, não se podem descartar as mágoas, concretas, de quem não apertou 17. No discurso do candidato Bolsonaro, em 2018, já estava explícito o desprezo pela democracia (e suas instituições) e o ódio às minorias (em particular povos indígenas, pessoas negras, população LGBTI+ e mulheres).

Nesses casos, emerge um outro tipo de "eu avisei", mais dolorido. Nele, as pessoas quererem dar vazão ao fato de que tais aspectos (centrais numa república) foram desprezados por quem votou no "messias".

Quiçá, a democracia seja algo muito abstrato ou inexistente, quando temos um Estado violento. Quiçá, para parte da população, o ódio às diferenças é mero "mimimi" ou vitimismo, algo desprezível diante de uma eventual pujança econômica. Nesses casos, o "eu avisei" irrompe como lembrança da dor — por ter suas vidas e pautas ignoradas ou, no mínimo, colocadas como secundárias.

Foi preciso uma pandemia para que ficasse patente o desprezo de Bolsonaro com a vida alheia — quando antes ele comparava pessoas negras a arrobas, vociferava que levaria a esquerda para a ponta da praia ou que preferia filho morto a ser gay. Parecia que seu desprezo à vida dos outros era abstrato. Ou, ainda, que esses outros eram muitos distantes. Mas o outro, para Bolsonaro, é qualquer pessoa que extrapola sua família — não é zero 1, zero 2, zero 3 ou zero 4 — e, assim, se resume a zé-ninguém.

Nesse itinerário, em que as palavras ainda sofrem para ganhar significados, cabe levar a sério o que dizem e o que não dizem os políticos. Vale, ainda, ultrapassarmos o "eu avisei" da superioridade, reconhecermos o "eu avisei" magoado e avançarmos para um debate sério sobre o que queremos de nossa democracia em 2021 e nos próximos anos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL