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'Contra ele, voto em qualquer um': ex-eleitores de Bolsonaro saem às ruas

A biológa aposentada Clarice Fujihara e sua família, em protesto pedindo o impeachment de Jair Bolsonaro, em São Paulo - André Porto/UOL
A biológa aposentada Clarice Fujihara e sua família, em protesto pedindo o impeachment de Jair Bolsonaro, em São Paulo
Imagem: André Porto/UOL

Mateus Araújo

Do TAB, em São Paulo

03/07/2021 20h04

Quando a bióloga aposentada Clarice Fujihara digitou 1 e 7 e confirmou, no segundo turno das eleições de 2018, acreditava que Jair Bolsonaro era um antídoto para encerrar a gestão de 14 anos do PT na presidência do Brasil. A foto do então candidato aparecia na tela como uma símbolo da aversão ao voto que a aposentada jamais deu aos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff.

"Eu não queria o PT", explica. Mas Bolsonaro não respondeu à altura. O presidente, diz ela, "destrói tudo" — do meio ambiente à saúde pública, pautas importantes para a bióloga.

Acompanhada do filho e do marido, a ex-servidora da USP (Universidade de São Paulo) sustentava uma placa que dizia "Sócios da morte. Fora Lira, fora Bozo. Impeachment já."

Neste sábado (3), milhares de pessoas se reuniram no vão livre do Masp, na avenida Paulista, para mais um ato contra o presidente. Além da capital de São Paulo, outras 289 cidades brasileiras e sete estrangeiras tiveram eventos semelhantes, de acordo com os organizadores.

As manifestações endossam pesquisas recentemente publicadas no país, mostrando rejeição crescente ao presidente. Na última sexta-feira (2), um levantamento da Exame/IDEA mostrou que para 54% dos entrevistados, o atual governo federal é ruim/péssimo. Outros 23% o consideram ótimo/bom, e mais 21%, regular.

'A gente resolve na rua'

"Como bióloga, fico revoltada", reforça Clarice Fujihara, que conta ter perdido uma tia para a covid-19.

Em anos anteriores, ela já ocupou as ruas para reivindicar mudanças políticas. Protestou contra a ditadura militar, endossou as Diretas Já, pediu o impeachment de Fernando Collor de Mello e de Dilma Rousseff e agora sai de casa para pedir a deposição do presidente.

"Tudo a gente resolve na rua. Não tem esse negócio da abaixo-assinado", destaca. É o terceiro ato seguido de que ela participa.

"Sempre votei no PSDB, porque sou da geração de FHC e do controle da inflação", conta. "Mas contra Bolsonaro eu agora voto em qualquer um, até no PT. Entre ele e um ladrão, prefiro o ladrão", garante. "Para mim, ele é um psicopata."

André Ceresa, dirigente municipal do PSDB, em protesto pela saída de Jair Bolsonaro, em São Paulo - André Porto/UOL - André Porto/UOL
André Ceresa, dirigente municipal do PSDB
Imagem: André Porto/UOL

Tucanos contra Bolsonaro

Em frente ao Conjunto Nacional e ao lado de uma faixa enorme nas cores do Brasil com o texto "Impeachment Já", André Ceresa posava para uma foto acompanhado de outros militantes do PSDB. Ceresa, que é dirigente do partido em âmbito municipal, ladeava pessoas que gritavam frases de ordem pedindo impeachment.

Há três anos, a cena beirava o impensável, já que em São Paulo o slogan "BolsoDoria" selou com barulho a aproximação de Bolsonaro e o governador João Doria — hoje uma amizade indigesta para ambos.

Pela primeira vez, no entanto, os tucanos aderiram às manifestações que pedem a saída de Bolsonaro. Na capital paulista, levaram para a rua faixas com o nome do ex-prefeito Bruno Covas, morto em maio, e o lema da campanha dele: "força, foco e fé".

"Votei em Bolsonaro no segundo turno e me arrependi", afirma Ceresa. No combo do arrependimento, conta ele, estão as ameaças do governo ao meio ambiente e ao laicismo no país e as declarações contra negros e a comunidade LGBTQIA+. Falas anteriores, explica, mostravam uma opinião pessoal, mas não esperava que o radicalismo fosse levado para a política. "Ele também não colocou em prática nenhuma política liberal", destaca.

"Bolsonaro disse que 'Brasil acima de tudo, e Deus acima de todos. Mas não é isso, Deus está entre todos."

Cristina Szabo, presidente estadual do PSL Mulher, no protesto pedindo o impeachment de Jair Bolsonaro, em São Paulo - André Porto/UOL - André Porto/UOL
Cristina Szabo, presidente estadual do PSL Mulher, no protesto pedindo o impeachment de Jair Bolsonaro, em São Paulo
Imagem: André Porto/UOL

Sou uma arrependida

Com a mesma bandeira que usou em manifestações a favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e nas campanhas eleitorais de Jair Bolsonaro em São Paulo, Cristina Szabo vestiu-se para gritar pelo impeachment.

"Eu sou uma arrependida", contou Szabo ao TAB. "Organizei os atos de campanha dele aqui em São Paulo, no estado todo, e me arrependo", explica efusiva, enquanto ajusta a máscara no rosto.

Presidente estadual do PSL Mulher, ela se sente traída. A solução que achou para "tirar a esquerda do poder" parece não ter correspondido às suas expectativas.

"Quando engavetou a lava-toga [CPI que iria investigar a atuação possíveis irregularidades no poder Judiciário], quando traiu Sérgio Moro, quando tirou o Coaf da Polícia Federal, quando ele passou a governar para a família dele em vez de governar para o Brasil", enumera, aceleradamente e sem titubear, as razões que a fizeram mudar de ideia sobre o governo.

Szabo era uma das várias pessoas que se reuniram perto do cruzamento entre a rua Augusta e a avenida Paulista para ouvir discursos de lideranças partidárias de centro e centro-direita — por ali, onde ela estava, falaram nomes como a deputada federal Tabata Amaral (PDT).

Que saída ela espera para o Brasil, nas próximas eleições? "Uma terceira via", diz. A possibilidade entre escolher Bolsonaro ou Lula num eventual segundo turno, como apontam pesquisas, não há. "Esse é momento de mostrar que há terceira via. Um nome como Sergio Moro, por exemplo."

Uma pesquisa do Ipec divulgada em 25 de junho mostra Lula com 49% de votos, Bolsonaro com 23%, Ciro com 7%, Doria com 5% e Mandetta com 3%. Moro, por enquanto, não aparece.

Mulher em manifestação pedindo o impeachment de Jair Bolsonaro, em São Paulo - André Porto/UOL - André Porto/UOL
Imagem: André Porto/UOL