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Protestos no Rio tiveram ‘pixuleco do bem’ de Lula e ‘Judas’ de Bolsonaro

Manifestação contra o governo de Jair Bolsonaro, no centro do Rio. Na foto, a ambulante Rose de Britto, 41 - Zô Guimarães/UOL
Manifestação contra o governo de Jair Bolsonaro, no centro do Rio. Na foto, a ambulante Rose de Britto, 41
Imagem: Zô Guimarães/UOL

Matheus de Moura

Colaboração para o TAB, do Rio

30/05/2021 04h01

Às 9h de sábado (29), panfletos passavam de mão em mão, blusas combinavam com bandeiras esvoaçantes enquanto faixas de três a quatro metros levavam os últimos retoques para serem içadas do chão ao campo de visão.

Poucos eram não-filiados a partidos e movimentos sociais, que davam cores às camisetas — roxo, amarelo, vermelho e preto com branco compunham a maioria visível. Algumas siglas são familiares — PSTU, PT, PSOL; outras ganham espaço, como Rua, Movimento Correntezas, Unidade Popular. Eram jovens, a maior parte conhecia-se do meio acadêmico. Viviam um clima de camaradagem entre si e de hostilidade a Jair Messias Bolsonaro (sem partido), contra quem o ato se dirigia.

Junto aos protestantes estava uma kombi de som do sindicato de servidores da UFF (Universidade Federal Fluminense). Tomando-a como base, os manifestantes fizeram uma roda com microfone, assim podiam injetar energia e indignação nos presentes.

A vez de um jovem de camiseta verde chegou. Mal começara a falar e foi cortado pelos gritos fanhos de "Fica Bolsonaro!". Todos olharam ao redor em busca da voz. Uma moradora de rua de pele retinta e cabelos presos segurava abaixo dos seios um top tomara-que-caia amarelo, desnudando-os sem pudor.

Com olhar perdido noutra dimensão, ela, que até então se apoiava contra a porta de entrada do prédio da barca de Niterói, atravessou a multidão e esticou o braço para pegar o microfone do garoto, que a ignorou calmamente e continuou sua fala contra o presidente.

"Ela está transtornada", alguém gritou.

Ninguém tocou um dedo nela sequer.

A moça estava a ponto de chorar, perdida em sua angústia, até que Ian Aguiar, 40, a acolheu. De porte físico avantajado e alguns fios brancos no cabelo crespo, ele integra o movimento Vidas Negras Importam, que teve início em 2013. Por meia hora, Aguiar a abraçou e se dispôs a ouvi-la. "Eu moro no morro. Eu sei o que é uma pessoa que não tem saúde mental", explica ele. Segundo ele, a moça vive da prostituição e sofre de depressão aguda. É conhecida pelas ruas de Niterói.

Manifestantes no centro do Rio, em protesto contra o governo de Jair Bolsonaro - Zô Guimarães/UOL - Zô Guimarães/UOL
Manifestantes no centro do Rio, em protesto contra o governo de Jair Bolsonaro
Imagem: Zô Guimarães/UOL

Batida do tambor

Aguiar explicava tudo isso quando já estava na cidade do Rio de Janeiro, atravessando a Praça XV junto à multidão. Nas mãos carregava um tambor, batido de tempos em tempos.

Muitos manifestantes conectaram-se pela música, em especial aos batuques que acompanhavam os gritos rimados. "Por comida no prato e vacina no braço."

No percurso da Candelária até o Monumento Zumbi, carros e motos buzinavam em apoio. Uma mulher pôs o torso para fora da janela do automóvel e sacolejou os braços, como se estivesse num show drive in. Ao final do trajeto, já havia ficado claro que a maioria dos motoristas estavam a favor da manifestação.

Vendedores de água, coca-cola, cerveja e espetinho de carne andavam lado a lado aos manifestantes, empurrando carrinhos de metal com isopor em cima. Figuras frequentes de qualquer ação na rua (carnaval, manifestação, show gratuito), eles foram perdendo o bom humor com o passar das horas, acometidos pelo calor e o cansaço.

Rose de Britto, 41, dispunha salsichas na grelha de carvão e explicava que, hoje em dia, manifestação não dá mais tanto dinheiro quanto antes, e ainda assim, é a melhor opção para tirar uma grana.

"Antigamente a gente fazia R$ 1.000, R$ 2.000 num dia como esse. Hoje, se fizer R$ 500 é muito", lamenta. Com 20 anos no ramo, percebe algo interessante quanto ao tipo de consumo de cada lado do espectro político: "A esquerda come mais e a direita bebe mais".

Manifestantes em ato contra o governo de Jair Bolsonaro, no centro do Rio - Zo Guimarães/UOL - Zo Guimarães/UOL
Imagem: Zo Guimarães/UOL

Pixuleco do bem

Um gigante Lula inflável, vestindo terno e faixa presidencial, contabilizava centenas, senão milhares de assinaturas em suas pernas fofas. O responsável pela atração conversava com colegas. Levando no peito a camiseta do Flamengo, Alexandre Teixeira, 62, é morador de Vila Isabel, na zona norte do Rio. Ele conta que já viajou o Brasil quase todo com esse boneco, e que chegou a levá-lo a Buenos Aires, para a posse de Alberto Fernández.

"R$ 8 mil o boneco, mais R$ 1.500 o gerador, que dura até oito horas e é 220V", explica, apontando para os objetos. Ele relata que o Lula inflável nasceu em 2019, fruto de um crowdfunding que contou com a ajuda financeira de pouco menos que 300 pessoas. Filiado ao PT desde 1982, Alexandre protege o boneco como dá.

O movimento seguiu em direção à rua da Candelária. O Lula inflado de ar não pôde acompanhá-lo, pois estava fincado ao chão por cordas. A marcha seguiu atravessando a avenida Presidente Vargas.

Alexandre Teixeira, responsável pelo 'pixuleco do bem' de Lula - Zô Guimarães/UOL - Zô Guimarães/UOL
Alexandre Teixeira, responsável pelo 'pixuleco do bem' de Lula erguido no protesto contra o governo de Jair Bolsonaro
Imagem: Zô Guimarães/UOL
Manifestantes percorrem as ruas do centro do Rio, em protesto conta o governo de Jair Bolsonaro - Zô Guimarães/UOL - Zô Guimarães/UOL
Imagem: Zô Guimarães/UOL

Na linha de frente, alguém de vestido branco, chapéu de bruxa e luvas brancas até o cotovelo chama atenção, ao caminhar sobre pernas de pau. A pessoa, de óculos brancos e grandalhões, abria os braços e caminhava com graça, apesar dos trancos do calçado anormal.

Mais adiante, ao fim da avenida Passos, na lateral do Teatro João Caetano, cerca de 15 policiais militares observavam os manifestantes atentamente. Carregavam cassetetes nas mãos. A tensão pesava o ar.

Desde o início do ato, manifestantes confabulavam um possível ataque da polícia. "O governador apoia o presidente", disse um. "Eles [os policiais] querem nos encurralar, estão nos levando para lugares sem saída", supôs outro.

Mas havia uma rota acordada com as autoridades e, enquanto isso não fosse desafiado, nada de ruim aconteceria. Um boneco com a cabeça do Bolsonaro em isopor e o corpo de plumas, feito para levar chutes na região da bunda, era jogado para lá e para cá, sem interferência da PM.

O ato seguiu para a Cinelândia com transeuntes e trabalhadores do comércio local batendo palmas e filmando — senhores e senhoras de meia-idade, na maioria. Quase todas as bandeiras se aglutinaram numa escadaria e levantaram poeira, com urros e gritos de ordem.

O quinto e catártico ato estava dedicado à cabeça de isopor de Bolsonaro, aquela que tinha o corpo em plumas. Manifestantes a tiraram do torso e começaram a chutá-la violentamente, ensandecidos. A energia de cada chute equivalia a uma sessão de terapia coletiva. Qualquer um poderia pisotear o decapitado boneco, bastava querer.

O ato foi se dissipando em diferentes áreas, até acabar de vez. Organizadores calcularam 50 mil pessoas pelas ruas do Rio.