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Cheia histórica no Rio Negro faz parte de feira de Manaus mudar de lugar

Pessoas caminham sobre pontes de madeira improvisadas em área comercial, no centro de Manaus, devido à cheia do Rio Negro - Nelson Antoine/Folhapress
Pessoas caminham sobre pontes de madeira improvisadas em área comercial, no centro de Manaus, devido à cheia do Rio Negro
Imagem: Nelson Antoine/Folhapress

Jullie Pereira

Colaboração para o TAB, de Manaus

27/05/2021 04h01

A artéria principal da Feira de Manaus Moderna é o Rio Negro: por ele trafegam barcos trazendo todo tipo de mercadoria da terra e da água, de frutas a pescados. Funcionando na orla da cidade, o local amanhece abarrotado de feirantes, carreteiros, flanelinhas, agenciadores de viagens, motoristas, condutores de embarcações, gente fazendo bico.

Caminhões e carros formam filas. Frutas lançadas de mão em mão até chegar à banca de destino podem atingir quem passa de maneira distraída. O local é considerado a entrada e a porta de saída da cidade de Manaus.

Mas a modernidade fica só no nome: embora milhares de pessoas dependam do fluxo da Feira de Manaus Moderna para sobreviver, ela parece ter sido abandonada há anos. A última vez que recebeu reforma foi em 2015. Arthur Virgílio Neto (PSDB), prefeito à época, investiu R$ 950 mil em estruturas que já se deterioraram.

Sobre os remendos de um lugar pouco cuidado vieram mais avarias. Desde o final de abril, o Rio Negro, sempre tão calmo, começou a engolir a cidade. É normal que o nível da água suba por esses tempos, mas em 2021 a rapidez da cheia impressionou. Na quarta-feira (26), o rio estava 29,92 m mais alto. Esta já é a segunda maior cheia da história do Amazonas desde 1902, ano em que os dados passaram a ser coletados.

Enchente em Manaus: visão de dentro da Feira de Manaus Moderna - Jullie Pereira/UOL - Jullie Pereira/UOL
Enchente em Manaus: visão de dentro da Feira de Manaus Moderna
Imagem: Jullie Pereira/UOL

Companheiro traiçoeiro

As mulheres e os homens do Amazonas estão acostumados a ter a vida afetada pelo Negro — um amigo desejável e ao mesmo tempo perigoso.

No livro "O rio comanda a vida", do paraense Leandro Tocantins, essa associação é descrita como "quase mística", vínculo que transforma os humanos e o rio em seres indissociáveis. "Amados, odiados, louvados, amaldiçoados, os rios são a fonte perene do progresso, pois sem ele o vale se estiolaria no vazio inexpressivo dos desertos. Esses oásis fabulosos tornaram possível a conquista da terra e asseguraram a presença humana, embelezaram a paisagem, fazem girar a civilização — comandam a vida no anfiteatro amazônico."

Pessoas caminham sobre pontes de madeira improvisadas na Feira de Manaus Moderna devido à cheia do Rio Negro, no Amazonas - Nelson Antoine/Folhapress - Nelson Antoine/Folhapress
Passarela de madeira na Feira de Manaus Moderna
Imagem: Nelson Antoine/Folhapress

Com a perspectiva de que os picos de água aconteçam nos meses de junho e julho, o que se pode esperar é uma devastação ainda maior.

Essas perturbações não são vistas da mesma forma por todos os manauaras. Alguns consideram o momento histórico algo digno de ser contemplado.

Famílias, jovens e adultos começaram a frequentar o centro da cidade para fazer selfies, fotos de comparações de "antes" e "depois". Chamam a cidade de "Veneza dos Trópicos".

Em um desses casos, a drag queen Pablo Lima resolveu se vestir de sereia e fazer um ensaio fotográfico deitada na água. Usando máscara, ela disse que estava fazendo fotos para as redes sociais e foi entrevistada por jornalistas. Pablo Lima conseguiu mais de 10 mil seguidores no Instagram após a performance.

Paletes de madeira foram instalados dentro da Feira de Manaus Moderna após a cheia do Rio Negro - Jullie Pereira/UOL - Jullie Pereira/UOL
Paletes de madeira foram instalados dentro da Feira de Manaus Moderna após a cheia do Rio Negro
Imagem: Jullie Pereira/UOL
José Mariano, vendedor na Feira de Manaus Moderna - Jullie Pereira/UOL - Jullie Pereira/UOL
José Mariano, vendedor na Feira de Manaus Moderna
Imagem: Jullie Pereira/UOL

Água pelos joelhos

A enchente inundou a feira, as praças, as ruas e todo o comércio do centro de Manaus. É impossível andar sem ter água pelos joelhos. A prefeitura está construindo pontes de ferro nas zonas mais visíveis, mas dentro da feira o chão de concreto se transformou em madeira. Para acessar o local é obrigatório passar por pontes feitas com tábuas e pregos.

A sensação é de pisar em falso. As estruturas improvisadas não suportam o peso de tanta gente e balançam quando os clientes caminham. O lugar é grande, mas cheio de corredores que parecem labirintos.

Era de se esperar que o local fosse interditado, mas paralisar o funcionamento da feira é quase impossível. A água só assusta a quem não trabalha ali.

José Mariano, 60, feirante que vende legumes e frutas, passou por quase todas as grandes enchentes de Manaus. Saindo do Maranhão para procurar trabalho, chegou à cidade em 1985 e em 1990 se instalou no entorno da feira.

Com esforço, consegue tirar R$ 3 mil por mês. Por isso, mesmo com o espaço alagado, não quer sair. "Ainda vai encher mais um pouco, mas fazer o quê? Não tem para onde ir. Até tem, mas nosso comércio é aqui, tem que permanecer aqui."

A estimativa do Serviço Geológico Brasileiro é que José enfrente mais água. Ele teme, resignado. "A gente tem que se conformar pelo menos até agosto com essa situação. Todo ano infelizmente é isso."

Cristina Avelino vende frutas e legumes na Feira de Manaus Moderna, que sofre com as cheias do Rio Negro - Jullie Pereira/UOL - Jullie Pereira/UOL
Cristina Avelino vende frutas e legumes na Feira de Manaus Moderna
Imagem: Jullie Pereira/UOL

Feira flutuante

A Prefeitura de Manaus construiu uma balsa para transferir 200 comerciantes que não terão condições de permanecer na feira. A maioria deles vende peixe e produtos processados. A balsa funciona a poucos metros do local e divide opiniões.

Quando o nível da água aumentar, os clientes deverão sentir mais dificuldade para acessar o local, o que preocupa os vendedores. A banca de Andreza Cristina Traude, 32, deve ser transferida. Ela trabalha há oito anos vendendo frango. Enquanto atendia a clientela, conversou com a reportagem de TAB. "Tem muito feirante que não quer [sair]. Por causa da distância, pode ser que as pessoas não queiram ir pra lá. Eu nunca saí daqui, talvez esse ano eu tenha que sair por causa dessa alagação."

Envergonhada, não permitiu ser fotografada. Para manter seu trabalho sem sofrer assédio, busca vestir roupas que não exponham seu corpo e mantém postura firme para não ser intimidada pelos homens. "A mulher que trabalha na feira tem que se dar muito respeito, porque somos minoria."

A cheia no Centro Histórico de Manaus - Josemar Antunes/TheNews2/Folhapress - Josemar Antunes/TheNews2/Folhapress
A cheia no Centro Histórico de Manaus
Imagem: Josemar Antunes/TheNews2/Folhapress

Não pode parar

Todos os dias as águas invadem mais um pouco da cidade. Ruas e avenidas estão sendo interditadas e os igarapés estão transbordando de lixo. A crise sanitária se agrava com o material sendo jogado na cidade, pelo rio que sobe. Já foram retiradas mais de 600 toneladas de lixo do Rio Negro.

Quem ainda não foi atingido pela água quase não encontra forma de fugir. O Rio Negro é inescapável. Cristina Avelino, 40, trabalha como feirante há dez anos e há seis está na Manaus Moderna. Ela paga um aluguel para o dono do ponto em que trabalha vendendo legumes.

Avelino está acostumada com a água, mas esse ano a velocidade da cheia surpreendeu. "Dessa vez tá diferente, tá muito rápido e ainda falta muito para acabar. A gente tá aqui trabalhando e de repente pode ter que parar."

Cristina tem quatro filhos — dois deles, adultos, ainda moram com ela. Trabalhando três vezes por semana no local, ela consegue tirar uma renda de R$ 300 por dia. O fim do mês é o momento mais aguardado, quando as vendas crescem e ela consegue lucrar melhor.

Em meio à pandemia, com a grande falta de emprego, é impensável para ela deixar seu trabalho. Ela não cogita outra hipótese a não ser ficar. "Temos que estar preparados para tudo. Se encher mais, não tem o que fazer, tem que trabalhar, não pode parar, né? Tem família pra sustentar, tem que vir trabalhar."