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Mesmo em seu pior dia na pandemia, Manaus ainda resiste à própria realidade

Comércio popular de bairro aberto no primeiro dia do toque de recolher em Manaus  - Marcos Dantas/UOL
Comércio popular de bairro aberto no primeiro dia do toque de recolher em Manaus
Imagem: Marcos Dantas/UOL

Marcos Dantas

Colaboração para o TAB, de Manaus

16/01/2021 04h01

Na fila do caixa do supermercado, onde o espaço de distanciamento é marcado por faixas vermelhas já gastas no chão, o burburinho de que pessoas estão morrendo sem oxigênio nos hospitais de Manaus passa de boca em boca depois de alguém ver a notícia no celular. "A coisa tá feia", diz uma mulher de meia-idade a uma jovem que parece ser sua filha, antes de devolver o smartphone ao bolso e começar a contar a história de um conhecido que morreu por complicações da covid-19.

Quase na hora do almoço, na quinta-feira (14), o governador Wilson Lima (PSC) fez um pronunciamento sobre a situação, com semblante tenso e cercado de secretários, enquanto exibia uma apresentação que tentava explicar o colapso na capital do Amazonas. Ao final, quase passou despercebido o decreto mais duro desde o fechamento do comércio na cidade, no começo da pandemia. O toque de recolher, válido das 19h às 6h, foi a grande novidade, restringindo pela primeira vez a circulação de pessoas em Manaus.

No meio da tarde, o trânsito já estava mais pesado que o normal, mas às 18h, quando o cenário habitual é de caos, uma estranha tranquilidade na volta para casa era sinal de que o decreto já havia alterado a rotina.

Alguma rotina, pelo menos.

Mais uma vez, a dualidade de Manaus no enfrentamento à pandemia ficou nítida. Conforme a noite ia caindo e o horário de restrição chegava perto, o esvaziamento natural das ruas não aconteceu. Às 19h, muitos estabelecimentos ainda estavam abertos, se preparando para fechar.

Ambulante no bairro de Coroado, em Manaus - Marcos Dantas/UOL - Marcos Dantas/UOL
Ambulante no bairro de Coroado, em Manaus
Imagem: Marcos Dantas/UOL

Recolhimento e fatalidade

Numa farmácia de rede, o ritmo era intenso. De uma sala atrás das prateleiras, um homem de uniforme saía com uma sacola lacrada nas mãos. Ao chegar perto de um grupo sentado num espaço reservado, pergunta: "Quem é o próximo?". Um dos homens se levanta, pega a sacola e sai para a entrega. Mais uma. Assim, pouco a pouco, os motoboys saem para levar remédios. Para eles, a noite estava só começando.

Quem trabalhava nem sabia direito sobre o que era o decreto. "Os ônibus vão parar?", perguntou uma das atendentes no caixa. "Sim", respondeu a colega na cabine ao lado. "E como vamos para casa?", indagou a primeira. "Vou atar minha rede e dormir aqui mesmo", brincou a amiga, sem deixar de esconder o ar de preocupação enquanto empacotava as compras de um cliente.

A reportagem de TAB passou por 16 bairros diferentes das zonas leste, centro-sul, centro-oeste e oeste de Manaus na primeira noite do toque de recolher. Nos mais nobres, como Adrianópolis, Vieiralves, Parque Dez e Ponta Negra, o contraste era a falta de movimentação típica para o horário, embora essas localidades já sejam naturalmente tranquilas à noite.

A avenida Djalma Batista, conhecida por seus três shopping centers e uma faculdade que deixam o trânsito de pessoas e carros intenso, viu o som dos motores e buzinas dos automóveis serem substituídos pelo de água corrente, vindo do Igarapé do Mindu, que corta uma das vias. Quase um lembrete de que estamos no meio da Amazônia.

Comércio fechado no bairro Grande Vitória, em Manaus, no primeiro dia do toque de recolher - Marcos Dantas/UOL - Marcos Dantas/UOL
Comércio fechado no bairro Grande Vitória
Imagem: Marcos Dantas/UOL

No calçadão da praia da Ponta Negra, movimentação zero e luzes apagadas. Impensável que, 24 horas antes, aquele mesmo lugar estava repleto de gente passeando com animais de estimação e crianças, fazendo exercícios ou batendo papo.

Ao longo do caminho, não raro ambulâncias apressadas nos ultrapassavam. No Hospital e pronto-socorro 28 de Agosto, um dos principais da cidade, o estacionamento lotado que obrigava quem chegou depois a estacionar na parte de fora e equipes de TV de plantão na porta eram indícios de que lá dentro a situação era crítica.

Nos bairros mais pobres, o comércio popular noturno abriu como em dia normal, mas nas ruas havia desconfiança. A cada carro de polícia que se aproximava, pequenos comerciantes esticavam o pescoço para saber se teriam que encerrar as atividades mais cedo. Quando eram ignorados, relaxavam e passavam a se preocupar com o movimento fraco.

Nas ruas, barracas de comida barata, pessoas com máscara no queixo conversando com amigos, jogando baralho na frente de casa ou fumando. Quem está trabalhando, ao saber que conversa com um repórter, franze a testa e direciona um olhar mais desconfiado e pede para não aparecer.

"Se a polícia vier e disser que tenho que fechar, eu fecho, mas não posso deixar de abrir. Isso aqui é o que sustenta minha casa", diz um dos ambulantes instalados na Avenida Beira-Rio, no bairro do Coroado, zona leste. Ele acredita que já teve covid-19 — há cerca de 6 meses, apresentou sintomas leves. Nunca teve certeza porque melhorou sem precisar ir ao hospital e não tinha dinheiro para pagar por um teste rápido, que sai em média R$ 140 nas drogarias.

Pelo menos na primeira noite, a PM, encarregada de fiscalizar qualquer movimentação, pareceu ter assumido um papel mais orientativo. A reportagem passou por várias viaturas enquanto rodava pelos bairros. Não se viu a polícia fechando estabelecimentos não-essenciais, tampouco fomos abordados em qualquer ponto da cidade — o que era esperado —, fosse por uma guarnição avulsa ou blitz.

A dualidade em Manaus é fácil de entender, depois de se percorrer a cidade de uma ponta a outra, dos bairros ricos aos pobres. O papel que a desigualdade desempenha é fundamental para produzir a esquizofrênica imagem de uma cidade que contabilizou mais de 3,8 mil novos casos de covid-19 nas últimas 24 horas, e que deve alcançar nos próximos dias a marca de 6 mil mortos pela doença, mas que resiste a encarar sua tragédia.

Pessoas em ponto de ônibus próximo ao Hospital 28 de Agosto, em Manaus, no 1º dia do toque de recolher - Marcos Dantas/UOL - Marcos Dantas/UOL
Pessoas em ponto de ônibus próximo ao Hospital 28 de Agosto
Imagem: Marcos Dantas/UOL

A segunda onda, por algum tempo tratada como especulação, trouxe a sensação de fatalidade — muitos pensam não ser possível fazer mais nada, e assim, deixam de fazer o básico. O sentimento de impotência parece ter levado embora a esperança do manauara.

Essa falta de esperança também é calcada na desconfiança que a população parece ter em relação ao poder público, que com medidas questionáveis, como a desativação do hospital de campanha e a restrição apenas parcial dos serviços — além de uma crise política que quase culminou no impeachment do governador —, pode ter ajudado a agravar a situação.

As pessoas que movimentam o comércio noturno, as que se aglomeram nos supermercados e drogarias horas antes do toque de recolher e as que optam ir trabalhar até que a PM proíba não são as mesmas que, na metade de dezembro passado, protestaram contra a restrição mais dura antes das festas de final de ano. Boa parte dos manauaras está nas ruas arriscando a vida, ironicamente, para sobreviver.

Assim como a moça do supermercado, em Manaus todo mundo parece ter uma história parecida para contar. A covid-19 já chegou à casa da maioria das pessoas. A cidade que se acostumou a ver tragédia na TV parece não saber lidar com sua própria tragédia pessoal.