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Não há vontade política de acabar com as enchentes em SP, dizem urbanistas

Pessoas tentam atravessar trecho alagado da Marginal do Tietê, em São Paulo, por cima de canteiros - CELSO LUIX/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Pessoas tentam atravessar trecho alagado da Marginal do Tietê, em São Paulo, por cima de canteiros Imagem: CELSO LUIX/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Letícia Naísa

Do TAB

16/02/2020 04h00

O amanhecer da última segunda-feira (10) foi caótico para o cidadão paulistano. A cidade acordou chuvosa e, como de costume, parada. As marginais dos rios Pinheiros e Tietê, principais vias de acesso que ligam a metrópole de ponta a ponta, ficaram alagadas. Em mais um verão, pessoas perderam casas, objetos de valor e até mesmo a vida por causa da chuva que caiu ininterruptamente por mais de 24 horas. O volume pluviométrico bateu recorde, foi o mais alto dos últimos 77 anos.

No corre-corre das notícias, especialistas apontavam causas meteorológicas para as chuvas torrenciais, e indicavam que o ocorrido é mais um efeito das mudanças climáticas no planeta. A explicação era seguida de um alerta: é melhor nos acostumarmos, pois todo ano o roteiro seguirá idêntico, com trânsito, vias alagadas, carros cobertos pelas águas, casas inundadas e pessoas lutando para escapar da enchente.

O cenário é trágico e, no verão de 2020, repetiu-se no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte (MG) e em Vitória (ES). Mas não há nada de novo. A chuva em São Paulo castiga os paulistanos desde os anos 1920, pelo menos. O que indica que a questão vai muito além do aquecimento global — fato inelutável, mas não a única explicação. Para especialistas em planejamento urbano ouvidos pelo TAB, o problema dos alagamentos na maior metrópole da América Latina é político e social.

"Nós nos vemos nessa situação, na minha opinião, por ausência de uma vontade política real e não por incompetência ou incapacidade técnica de resolver o problema", afirma Ciro Pirondi, arquiteto e professor da Escola da Cidade. As questões políticas e as disputas partidárias tomaram conta do debate, opina o especialista.

É pior que só a água que cai

"O problema dos rios urbanos não estão no âmbito técnico ou hidráulico", afirma Alexandre Delijaicov, arquiteto e professor da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo). "Esse passado colonial que persiste na injustiça social e na péssima distribuição de rendas e de terras faz o problema ser de âmbito social."

Apesar das diversas tentativas de diferentes gestões, o problema das enchentes e as tragédias persistem. Em nota, a Prefeitura de São Paulo afirmou que vem realizando trabalhos de prevenção a enchentes, como os piscinões e canalização de córregos. No total, o investimento feito nas obras é de R$ 107,8 milhões. Já o prejuízo com as chuvas da última semana foi de R$ 110 milhões. Além disso, gastos com o desassoreamento e limpeza do rio Tietê caíram pela metade em 2019.

Martinal Tietê, sentido rodovia Ayrton Senna, sobre a ponte Júlio de Mesquita Neto -
Martinal Tietê, sentido rodovia Ayrton Senna, sobre a ponte Júlio de Mesquita Neto

Para Pirondi, é preciso relativizar os custos de manutenção da cidade. "Estamos construindo uma civilização, então esse discurso de que 'é muito caro' é caro com relação a quê? Ao desastre de matar pessoas, acabar com a alimentação e perder milhões de reais em um dia? Precisamos aprender que uma cidade não tem custo."

A resolução do problema, para ele, é possível com um projeto de drenagem da cidade, que seria simples de ser feito, mas levaria tempo. "Em quatro anos ninguém consegue solucionar a drenagem de uma cidade. Precisaria de 20", diz Pirondi. "Não adianta ficar divergindo e encontrando desculpas, não tem mais como encontrar tanta desculpa. São lugares de alagamento [em São Paulo] que historicamente todo o mundo sabe que vai acontecer quando chover, são erros históricos."

Culpa do rei

A origem do problema, afirma Delijaicov, está na chegada da família real portuguesa no Brasil, em 1808. Quem ajudou a pagar a viagem foram os ingleses. Da metade do século 19 para o final, a conta chegou: em 1850 foi criada a Lei de Terras no país e uma companhia inglesa construiu a São Paulo Railway, primeira ferrovia do estado paulista, que ligava o porto de Santos até Campinas. Os trilhos foram feitos às margens dos rios paulistas. Ali, explica Delijaicov, começaram os problemas de planejamento da cidade. O primeiro parque industrial de São Paulo foi todo construído às margens do rio Tamanduateí (que se encontrava com o rio Anhangabaú onde fica hoje a avenida São João).

Até então, São Paulo era uma cidade que se desenvolvia no alto de uma colina, entre os rios principais. Esse era o "jeito português" de construir, como uma fortaleza. "Fizemos três ações rumo ao desastre: invadimos, loteamos e vendemos o leito maior dos principais rios de São Paulo, que são Tietê, Pinheiros, Tamanduateí e Aricanduva, rios de planície sedimentar."

Enchente de 1929 - Reprodução/Arquivo Folha de S.Paulo
Enchente de 1929
Imagem: Reprodução/Arquivo Folha de S.Paulo

Durante o final dos anos 1920, em rápida industrialização e recebendo migrantes saídos do campo, a cidade sofreu com enchentes históricas. E outra empresa estrangeira esteve envolvida nas tragédias. A pior delas foi a que atingiu o bairro do Bom Retiro, em 1929. Na época, a Light expandia suas obras e foi acusada de provocar alagamentos na cidade. As áreas mais atingidas seriam desapropriadas e entregues à empresa.

Nos anos seguintes, o uso do carro trouxe a necessidade de mais obras pela cidade, e assim surgiram as marginais e as principais avenidas paulistanas. O projeto fez parte do plano urbanístico de Prestes Maia, que data do final dos anos 1930. O plano era voltado para desenvolvimento de rodovias, já que os automóveis se tornavam cada vez mais populares na capital paulista. "Foi feito um urbanismo extremamente mercantilista, a serviço do mercado e dos carros", afirma Delijaicov. "Só poderia dar no que deu", diz.

Para colocar o projeto de Prestes Maia em prática, os rios paulistas e seus afluentes foram sendo enterrados, um a um, para virarem asfalto. Os canais dos rios que vemos hoje na paisagem da cidade, como o Pinheiros, Tietê e Tamanduateí, foram criados artificialmente. Ao longo dos anos, São Paulo apenas foi acontecendo. E de forma selvagem.

Enchente no rio Tamanduateí de 1983 - Reprodução/Acervo Folha de S.Paulo
Enchente no rio Tamanduateí de 1983
Imagem: Reprodução/Acervo Folha de S.Paulo

Havia uma alternativa possível. O engenheiro Saturnino de Brito, responsável pelo projeto dos canais da cidade de Santos, apresentou uma ideia de criação de um parque no entorno do Tietê, ao invés das rodovias como as conhecemos que sufocam as margens. "Não precisa ser um gênio da engenharia para saber que não se pode impermeabilizar as margens de um rio", diz Pirondi. "Mas, economicamente, era mais fácil fazer a marginal num lugar já plano, como são as margens do rio. Por uma visão mesquinha e momentânea, se fez dessa maneira", lamenta.

Apesar de olharmos para outras grandes metrópoles, como Paris, Londres, Barcelona, Nova York e Chicago, de forma deslumbrada, não aprendemos com o que vem de fora, opinam os arquitetos. "Elas são desenhadas parte por parte. Estão sendo desenhadas ao longo de décadas", diz Pirondi. "Nossos governantes são fascinados por governos exteriores. Acham que aquilo é o máximo. É uma visão colonizada mesmo. No entanto, nós já demos exemplos ao mundo em muitas áreas de que temos capacidade de ter uma identidade própria e construir um saber."

Para ambos, é preciso que haja uma nova mentalidade ao pensar as cidades brasileiras. "As cidades são obras de arte de autoria coletiva", diz Delijaicov. "Elas são a principal obra de arte da humanidade. Não são as músicas nem a literatura nem as esculturas, mas as cidades que sobrevivem."

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