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Projetada por Niemeyer, 'Brasília libanesa' é obra em ruínas e saqueada

Parte do complexo projetado por Oscar Niemeyer em Trípoli, no Líbano - Fernanda Ezabella/UOL
Parte do complexo projetado por Oscar Niemeyer em Trípoli, no Líbano Imagem: Fernanda Ezabella/UOL

Fernanda Ezabella

Colaboração para o TAB, de Trípoli (Líbano)

14/12/2019 04h00

Quando tinha oito anos, o arquiteto libanês Wassim Naghi gostava de escorregar pelas paredes externas de um prédio redondo bastante parecido com a Oca do Parque Ibirapuera, em São Paulo. O lugar fora desenhado por Oscar Niemeyer na cidade de Trípoli, ao norte do Líbano.

Assim como no parque paulistano, era algo proibido, mas por motivos diferentes: as crianças chegavam para brincar escondidas e eram afugentadas com tiros de fuzil.

Na época, o espaço planejado para ser o Teatro Experimental de Trípoli estava ocupado pelo Exército da Síria. O Líbano vivia uma Guerra Civil (1975-1990), desencadeada pelos conflitos da Palestina e que deixou cerca de 120 mil mortos no país.

Fernanda Ezabella/UOL
Imagem: Fernanda Ezabella/UOL

Hoje, marcas de tiros ainda são visíveis na "Oca libanesa", assim como grafites e bitucas de cigarro. Centenas de vergalhões pendurados no teto, instalados para a criação de um avançado sistema acústico, agora parecem prontos a cair como lanças na cabeça dos raros visitantes. A luz vem apenas das portas minúsculas, e o som é dos morcegos que vivem no subsolo.

A guerra de 1975 estourou meses antes da abertura da Feira Internacional de Trípoli, da qual o Teatro Experimental fazia parte. Há também uma dezena de outras estruturas assinadas por Niemeyer, espalhadas por um terreno de 670 mil metros quadrados, equivalente a 165 campos de futebol. Hoje, a maioria está abandonada, algumas caindo aos pedaços.

Projeto de Oscar Niemeyer em Trípoli, no Líbano - Fernanda Ezabella/UOL
Projeto de Oscar Niemeyer em Trípoli, no Líbano
Imagem: Fernanda Ezabella/UOL

Hoje com 51 anos, Naghi cresceu e ainda vive a 150 metros do Teatro Experimental. Nos anos 1970, ele e seus amigos davam um jeito de entrar na feira para brincar. "Os soldados não queriam ninguém por lá porque transformaram algumas partes em prisão e havia muitas armas no subsolo", disse ao TAB.

"Brincávamos de escorregar, mas dependíamos do ânimo dos soldados de guarda. Se estavam irritados, davam tiros para cima."

Mobiliário saqueado

A maior estrutura da feira é um pavilhão em forma de bumerangue de cerca de 700 metros de comprimento, feito para abrigar a exposição permanente dos 40 países convidados. Há também um heliporto, uma torre com um restaurante, um teatro ao ar livre e uma residência, todos com as curvas e concreto armado típicos de Niemeyer, que visitou o país nos anos 1960.

Depois de diversos atrasos e problemas de orçamento, os prédios estavam quase prontos para a estreia e assim ficaram, interrompidos, em 1975. Os primeiros a invadi-los foram grupos de palestinos rebeldes e depois o Exército da Síria, que ficou no lugar até 1998. O mobiliário e diversos equipamentos foram logo saqueados.

'Oca libanesa', teatro construído por Oscar Niemeyer em Trípoli - Fernanda Ezabella/UOL
'Oca libanesa', teatro construído por Oscar Niemeyer em Trípoli
Imagem: Fernanda Ezabella/UOL

Enquanto se preparava para ir à escola, o jovem Naghi ouvia os soldados em treinamento militar às 6h. "Da varanda de casa, via centenas de caminhões e tanques indo e vindo da feira."

Painel com a imagem de Oscar Niemeyer no prédio da Feira Internacional, em Trípoli - Fernanda Ezabella/UOL
Painel com a imagem de Oscar Niemeyer no prédio da Feira Internacional, em Trípoli
Imagem: Fernanda Ezabella/UOL

Da mesma varanda, o arquiteto toma seu café e contempla os prédios vazios de Niemeyer. "O que podemos fazer? Me pergunto isso todos os dias", diz. "Estamos perdendo um enorme privilégio ao deixar esses prédios abandonados."

Ele explica que boa parte dos habitantes de Trípoli não entende o propósito do lugar. "Apenas consideram lixo abandonado dentro de um grande parque", diz. "Mas eles não entendem porque nunca viram funcionando e porque têm memórias da guerra, da ocupação."

Pista de boliche desabou

Em agosto de 2019, junto com outros cinco especialistas e entusiastas, Naghi criou a Fundação Patrimônio Niemeyer Trípoli (niemeyertripoli.org, site em construção) para levantar fundos para a consolidação dos prédios. O objetivo é apenas estender a vida útil das estruturas, um projeto estimado em cerca de US$ 20 milhões.

Parte da estrutura do Teatro Experimental de Trípoli desmoronou - Fernanda Ezabella/UOL
Parte da estrutura do Teatro Experimental de Trípoli desmoronou
Imagem: Fernanda Ezabella/UOL

Já para dar uma nova função ao complexo todo, uma vez que não interessa mais uma feira internacional, ele acredita que seriam necessários US$ 300 milhões.

Presidente da divisão de arquitetos da Ordem dos Engenheiros e Arquitetos de Trípoli, Naghi também finaliza um livro e sua tese de doutorado sobre a feira. Ele reuniu suas pesquisas, fotos e entrevistas, além de ter descrições detalhadas das tentativas fracassadas de reabilitação do espaço, uma das quais ele participou nos anos 1990.

A versão em português do livro "A Lenda de Niemeyer em Trípoli" deve ser lançada em julho de 2020, durante o Congresso da União Internacional dos Arquitetos, no Rio de Janeiro.

Parte do complexo projetado por Oscar Niemeyer em Trípoli - Fernanda Ezabella/UOL
Parte do complexo projetado por Oscar Niemeyer em Trípoli
Imagem: Fernanda Ezabella/UOL

"Virou uma obsessão na minha vida. É meu destino", riu o arquiteto, mexendo sem parar nas contas de sua masbaha preta, o rosário dos muçulmanos. "Se algum prédio cair, não tenha dúvida de que o governo vai mandar uns bulldozers para acabar com tudo de uma vez."

De fato, algumas estruturas da feira começaram a ruir, em parte por erros na construção original e em parte pela falta de manutenção que vem provocando a carbonatação do concreto armado.

O teto da Pista de Boliche, instalada debaixo de uma plataforma para os assentos do Teatro ao Ar Livre, veio abaixo em 2016. As ruínas estão lá para quem conseguir entrar na feira, cercada por barreiras de concreto e guardada por funcionários de humor instável.

Um Ibirapuera apocalíptico

Um guarda se animou com a presença de uma jornalista brasileira e permitiu a visita da reportagem de TAB por dez minutos. Mais tempo, teria que molhar a mão de alguém, ele avisou. Duas horas depois, não havia mais ninguém no posto, e o acesso estava liberado.

A entrada é por um enorme estacionamento vazio, seguido por uma leve rampa de concreto, que desemboca no pavilhão principal. Quem nos recebe é o rosto de Niemeyer, num mural de grafite.

A cobertura em curva do pavilhão, ao lado de um gramado com palmeiras, lembra logo a marquise do Ibirapuera. Em seguida, avistamos um prédio de arcos vazados e espelho d'água seco, que seria o espaço expositivo do Líbano. A estrutura ainda tem resquícios do carpete vermelho original, além de pichações, latas de cerveja e vigas corroídas.

Meia dúzia de locais fazem caminhadas e passeiam com seus cachorros sobre algo parecido com um parque esvaziado, apocalíptico. O complexo é um oásis repleto de passarinhos e árvores no coração da caótica Trípoli, uma cidade que sofre com um trânsito pesado, praias sujas e um aumento descontrolado da população de refugiados da Síria, cuja fronteira fica a meros 30 km.

O arquiteto Wassim Naghi e seus filhos, no complexo desenhado por Oscar Niemeyer em Trípoli - Fernanda Ezabella/UOL
O arquiteto Wassim Naghi e seus filhos, no complexo desenhado por Oscar Niemeyer em Trípoli
Imagem: Fernanda Ezabella/UOL

Hoje, seu nome oficial é Rachid Karami International Fair e funciona de forma precária, com menos de 10% da capacidade. O pavilhão principal recebe alguns eventos em sua metade fechada por paredes de vidro, enquanto maratonas, desfiles de moda e gravações de comerciais acontecem ocasionalmente por ali.

A estrutura mais impressionante é o teatro a céu aberto, que recebeu apresentações no passado, como "O Lago dos Cisnes", da companhia de balé russa. Mas o desabamento de 2016 o fechou de vez. Suas cadeiras brancas foram instaladas nos anos 1990, numa das tentativas de reabilitar o espaço (no projeto original, os assentos eram de concreto).

Outra mudança mais radical, classificada de criminosa por arquitetos, foi na Habitação Coletiva, um espaço com apartamentos. Em 2000, as fachadas modernistas foram destruídas para dar lugar a um hotel, hoje em funcionamento.

"Cada estrutura aqui tem uma irmã no Brasil, as raízes estão lá", disse Naghi, citando o Palácio da Alvorada, em Brasília, a Casa das Canoas e o arco do Sambódromo, ambos no Rio.

O arquiteto fez uma peregrinação por cidades brasileiras em 2016 para ver as obras de Niemeyer e ficou arrepiado ao visitar o Ibirapuera. "Fiquei tonto, em choque. Vi a arquitetura funcionando, o ritmo das pessoas, os eventos. Foi quando entendi o potencial da feira de Trípoli. Seu futuro é esse, um parque como o Ibirapuera."

No Brasil, projetos de Niemeyer também sofrem com abandono. A Casa das Canoas, um marco do modernismo brasileiro, está fechada ao público faz mais de um ano. Em Brasília, o Teatro Nacional Cláudio Santoro vive a mesma situação desde 2014, enquanto um mirante em um parque de Natal, esquecido por dez anos, foi reaberto e fechado recentemente para manutenção.

O brasileiro temido

Em suas pesquisas, o arquiteto libanês conta que os engenheiros responsáveis pela construção da feira tinham receio de fazer qualquer comentário na frente de Oscar Niemeyer.

Parte do complexo de Oscar Niemeyer em Trípoli, no Líbano - Fernanda Ezabella/UOL
Parte do complexo de Oscar Niemeyer em Trípoli, no Líbano
Imagem: Fernanda Ezabella/UOL

O brasileiro visitou a cidade pela primeira vez em 1962, quando foi de navio desde do Brasil. Na segunda e última visita, em 1966, havia no ar uma confusão sobre um restaurante que ele havia projetado para o topo de uma torre do parque. Não havia previsão de janelas.

Um egípcio com jogo de cintura teve coragem de levantar a questão, e Niemeyer prontamente desenhou aberturas verticais enfileiradas. Mais tarde, a torre seria usada por snipers sírios.

"Diziam que Niemeyer estava sempre com uma jovem assistente ao seu lado. Muitos acreditavam que era sua musa inspiradora", conta Naghi em seu escritório em Beirute, capital a 85 km de Trípoli. "Na segunda visita, ele estava triste com o andamento do projeto, espera já ver algo funcionando. E também o achava 'démodé', que tinha ficado fora de moda."

Protestos de 2019

O arquiteto acredita ser ainda muito cedo para prever o impacto dos protestos que tomaram conta do Líbano desde outubro e derrubaram o primeiro-ministro do país. "Mas são promissores", acredita Naghi, que participou de alguns atos.

"Corrupção e falta de governança estiveram por trás dos fracassos da feira. Se eliminados pela revolução, a feira será um dos mais importantes projetos em desenvolvimento no norte do país."

Em um tablet, ele mostra algumas das milhares de fotos que coleciona do complexo, além de imagens de seus quatro filhos pequenos andando de bicicleta no local. "Todas as manhãs vou lá passear", diz. "Não pode bicicleta, mas tenho esse privilégio, todo mundo me conhece."

Seu espaço favorito continua sendo o arredondado Teatro Experimental, projetado para receber mil pessoas e ter um palco giratório. Quando tem tempo livre, ele mesmo faz suas experimentações: leva uma caixa de som para ouvir solos de guitarra de David Gilmour, do Pink Floyd. "Tenho músicas certas compatíveis com os ecos, não fica desconfortável", explica.

"É algo mágico. Apenas sento ali e fico curtindo o som, sonhando. Imagino que há muitas pessoas se divertindo, que há uma banda ao vivo, luzes especiais... Quem sabe um dia?"

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