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Sem turismo, vila do bordado em Maceió sobrevive do amor de rendeiras

Lojas fechadas e pouco fluxo de turistas viraram a rotina em Pontal da Barra, em Maceió - Beto Macário/UOL
Lojas fechadas e pouco fluxo de turistas viraram a rotina em Pontal da Barra, em Maceió
Imagem: Beto Macário/UOL

Carlos Madeiro

Colaboração para o TAB, de Maceió

28/05/2021 04h01

Maria José dos Santos Rocha, a dona Zezé, 75, senta-se todo dia na mesma cadeira de plástico branca, na porta de sua casa, para bordar. A rendeira usa as mãos marcadas pelo tempo para fazer o filé, tipo de artesanato de mais de um século, tradicional no pequeno bairro do Pontal da Barra, em Maceió.

Pontal da Barra fica entre a lagoa Mundaú, o mar e a fábrica da Braskem. É na beira da lagoa que vivem pescadores e as famosas rendeiras que produzem esse tipo de bordado colorido único das Alagoas —e que já ganhou o mundo em peças de casa e roupas.

Hoje, entretanto, com turismo paralisado devido à pandemia, quem vivia da venda de peças já não sabe o que fazer. Agora, é pelo amor a uma tradição que passa de mãe para filha que muitas delas seguem bordando e sobrevivendo, com ajuda de doações.

Artesãs e artesãos vivem da venda em 220 lojas locais. "Ver esse local vazio, como nesses meses, eu nunca vi na vida. É muita tristeza, mas a gente mantém a arte viva, mais pelo amor", desabafa dona Zezé.

Maria José dos Santos Rocha, 75, dona Zezé: deste os sete anos trabalha com bordado - Beto Macário/UOL - Beto Macário/UOL
Maria José dos Santos Rocha, 75, dona Zezé: deste os sete anos trabalha com bordado
Imagem: Beto Macário/UOL

Todo dia na mesma cadeira

Dona Zezé abre seu ateliê pela manhã e senta-se à porta. Sob um vento cheio de maresia, ela faz vagarosamente o entrelaçar das linhas. Espera também as pessoas que vão comprar as peças para revenda. Desde os 11 anos ela borda, ofício que aprendeu com a mãe.

Em 19 de maio, quando TAB visitou o local, estava com uma camiseta na rede de tecelagem, onde produz o filé. Cada uma era vendida a um comerciante de loja por R$ 50, mas ela espera vender por mais, a partir de agora, porque tudo aumentou. "Até a linha grossa está em falta. Eu mesmo não tenho hoje a branca, que é vendida por um distribuidor e fabricada em São Paulo. Espero que chegue na próxima semana", conta.

Por causa da idade e de problemas no punho, uma peça de roupa demora cinco dias para ser produzida. Antes, Zezé conseguia fazer em dois dias. "Minha vida toda foi sentada aqui fazendo peças, mas hoje o corpo não aguenta mais o que aguentava antes", relata, mostrando como o movimento do braço está mais lento.

Lojas sem clientes e ruas vazias no Pontal da Barra, um dos berços do artesanato de Maceió - Beto Macário/UOL - Beto Macário/UOL
Lojas sem clientes e ruas vazias no Pontal da Barra, um dos berços do artesanato de Maceió
Imagem: Beto Macário/UOL

Rede de pescar, rede de vestir

O Pontal da Barra é tombado pelo patrimônio histórico desde 1988 e guarda uma das histórias mais antigas e ricas de Alagoas. Em 1826, já era citada a existência de 80 moradores, entre eles três escravizados deixados no local por D. João 6º. Era então uma vila de pescadores.

Segundo a Secretaria de Cultura de Alagoas, a origem do filé é desconhecida, mas sabe-se que surgiu a partir da rede de pesca. "O filé consiste num trabalho de tecelagem manual disposto sobre uma base em rede", conta, em seu memorial.

O pacato bairro tem 6,8 mil moradores e, sem o turismo, não se sustenta. Além das tradicionais rendeiras, o bairro reúne restaurantes à beira das águas e oferta passeios às nove ilhas da lagoa Mundaú (que têm embarque no local).

Todos sentiram os impactos da pandemia e a ausência de visitantes. Mas é o artesanato o motor do Pontal. As lojas vendem produtos feitos de filé e de outros tipos de bordado, como a renascença e o bilro. São mais de 800 pessoas que produzem algum tipo de artesanato, em especial o filé no bairro.

"Se a gente tinha 400 turistas por dia, hoje são 40. Passamos muitos meses fechados em 2020 com zero turista, então tudo ficou muito difícil", lamenta a artesã e presidente da Associação de Moradores do Pontal, Lígia Minin de Lins, 58.

Adriana Gomes, 43: rendeira borda desde os 6 anos de idade, em Pontal da Barra, em Maceió - Beto Macário/UOL - Beto Macário/UOL
Adriana Gomes, 43: rendeira desde os 6 anos
Imagem: Beto Macário/UOL

Para evitar a fome, a assistência social foi fundamental. Lins conta que desde o início da pandemia a associação distribui cestas básicas entre as famílias mais necessitadas. Várias vezes a entrevista era interrompida para o atendimento a moradores — um deles querendo informação de quando vai chegar mais alimento.

No Pontal, conta, praticamente toda casa tem gente produzindo filé. Mesmo os que não têm loja fazem para vender e completar renda. "Aqui só não sabe fazer quem não quer", relata.

Não é difícil andar e ver mulheres, muitas delas jovens, fazendo o filé. Lins é uma das rendeiras. Sua rotina é extensa: pela manhã, cuida dos afazeres da casa e da associação; à noite, faz peças em casa.

"Aqui todo mundo faz vendo a novela das 21h, mas na pandemia eu fiquei viciada em série, assisto ao 'Grande Guerreiro Otomano'. Fico assistindo e bordando o filé. Tirei até a televisão do quarto, montei o ateliê na sala, porque no quarto eu ficava cochilando", conta, aos risos.

O peixeiro e ex-pescador Moisés de Oliveira, 54, em Pontal da Barra, em Maceió - Beto Macário/UOL - Beto Macário/UOL
O peixeiro e ex-pescador Moisés de Oliveira
Imagem: Beto Macário/UOL

Movimento fraco

Dois ônibus com turistas hospedados nos bairros da orla chegam diariamente à vila. Antes, esse número passava de 30. Além disso, há limite de passageiros (50%) imposto pelo decreto de contenção do novo coronavírus, em vigor no Estado.

Ela lembra com saudade do tempo em que o turismo de Alagoas bombava com a chegada dos cruzeiros no porto de Maceió. "Eles vinham do navio para cá, coisa de 2.000 turistas por cada um deles. Chegamos a vender mais de R$ 3 mil em um dia. Era maravilhoso, todo mundo dormia feliz", lembra Lígia.

O resultado desse longo período de abstinência é que muitas lojas estão fechadas. Bordadeira, Adriana Gomes dos Santos, 43, preside a Associação de Artesãos do Pontal da Barra, e conta que, com menos visitantes, precisou fechar uma das duas lojas que mantinha.

"Mudou muita coisa nesse período. Hoje, a gente não tem renda nenhuma", conta ela em sua pequena loja, vazia à espera dos ônibus marcados para chegar às 15h. "É assim quase o dia todo, só muda mesmo quando esses turistas chegam."

Adriana conta que, antes da pandemia, o bordado era responsável direto do sustento de 850 pessoas da comunidade. Manter o ofício do filé, diz, é uma missão que não pretende abrir mão na vida. "Para quem nasceu e se criou aqui, é fácil fazer. Aprendi com a minha mãe aos 6 anos, e não vou parar, não, já passei para as minhas duas filhas", diz.

Difícil para ela é conciliar a rotina de mãe, microempresária e bordadeira. Às 6h, ela já está de pé para arrumar as coisas da casa. Às 10h, todos os dias, abre a loja de artesanato e lá mesmo faz o bordado. "À noite, é hora de arrumar as coisas de novo em casa e voltar a fazer peças", diz.

O filé é o orgulho da comunidade. "Já vestimos Ana Maria Braga, Eva Wilma, Dira Paes; até o Martinho da Vila fez música para gente", diz. "Só em Maceió" começa citando Teka Rendeira, que morreu de câncer em março, aos 78 anos. "Precisamos que o público alagoano venha nos visitar nesse momento difícil, porque tá impossível viver do artesanato", desabafa.

A pesca também é fundamental para a renda da comunidade no Pontal da Barra, em Maceió - Beto Macário/UOL - Beto Macário/UOL
Imagem: Beto Macário/UOL

Rendeiras casam com pescadores

Pescadores e artesãs formam a maioria dos casais do Pontal. Uma das bordadeiras mais antigas do local, Maria Rita Bispo, 89, é viúva de pescador e mora em uma pequena casa no bairro.

Ela lembra com saudade do tempo em que podia bordar — não sabe dizer quantas peças tem. "Hoje minhas netas fazem peças e vendem, seguiram a arte. Tenho muita vontade ainda de fazer, mas não tenho mais condição, tanto pela vista como pela velhice", conta.

Foi com a renda do filé, somada à da pesca, que ela conseguiu criar os sete filhos. "Foi minha única renda, antes de me aposentar. Hoje vivo bem, graças a Deus, mas hoje vejo como a situação está difícil", relata.

Em março, a comunidade perdeu um dos maiores nomes do bairro, mestre de um folguedo típico e existente apenas no Pontal: o fandango. Ronaldo Costa, o Mestre Pancho, 69, foi mais uma vítima da covid-19. Segundo a Associação de Moradores, pelo menos cinco moradores do bairro morreram da doença.

Pesca sobrevive

O único setor que passou imune à crise foi a pesca, que não parou e hoje é capaz de manter, sem sustos, a vida de quem trabalha no ofício. Quando a reportagem do TAB esteve no local, o dia era de festa: quase 200 quilos de peixes foram pescados, maior volume de 2021. "A maré estava boa, faz tempo que não tem um dia tão bom", conta o peixeiro e ex-pescador Moisés de Oliveira, 54. "Não é história de pescador, não, se você viesse cedo ia ver", diz, aos risos, quando perguntado "cadê os peixes?".

Ele atua em uma pequena banca de madeira, cercado de bacias, em frente ao pequeno porto, onde compra o material pescado. Lá, trata e vende o peixe inteiro por valores que variam de R$ 13 (tainha) a R$ 25 (carapeba). Com uma pequena faca nas mãos, conversa ao mesmo tempo em que lida com as tainhas frescas. Sem olhar — e mesmo assim sem medo de se machucar —, eviscera e descama o peixe.

Alvacir José dos Santos, 73, pescador aposentado, costura a rede rasgada durante a última pescaria em Pontal da Barra, em Maceió - Beto Macário/UOL - Beto Macário/UOL
Alvacir José dos Santos costura a rede rasgada durante a última pescaria em Pontal da Barra, em Maceió
Imagem: Beto Macário/UOL

Na beira da água, o pescador Alvacir José dos Santos, 73, costurava a rede rasgada durante a última pescaria. O trabalho é parecido com o das bordadeiras: com uma agulha, ele une os fios novamente. "Siri é campeão em rasgar redes, mas tem outros peixes também, como o xaréu e o camorim, que rasgam. E têm os tocos de árvore ainda. Sempre precisamos costurá-la", explica.

Ele é apontado como uma lenda viva da pesca do Pontal. Pela idade já avançada, hoje pesca menos: vai no encontro da lagoa Mundaú com o mar de quatro a cinco vezes por semana. "Fico de duas a três horas e só. Tem vez que pesco uns 5 quilos, tem vez que pesco nada, depende", relata.

Rendas e redes, entrelaçadas, dão sentido à vida dos moradores de Pontal. Até mesmo a violência urbana parece distante. "Aqui o problema da polícia é que não tinha ocorrência. Isso aqui, mesmo com a crise que for, ainda é o melhor lugar do mundo para viver", diz Lígia Lins.