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Bernardo Machado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Movimento de filhos pela via da adoção cresce e reivindica novas discussões

empatia, dar as mãos, apoio, resiliência, família - iStock
empatia, dar as mãos, apoio, resiliência, família Imagem: iStock
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Bernardo Machado

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Colunista do TAB

08/08/2021 04h00

"Infelizmente a narrativa dos filhos adotivos é muito incipiente no Brasil", destaca Fernanda Tuna. Ela faz parte de um novo movimento que lança luzes para as dores e as demandas de quem se tornou filho ou filha pela via da adoção. "Quando se trata do assunto, o discurso dominante é aquele enunciado pelos pais adotivos", destaca a ativista.

O fenômeno só pode ser compreendido com os 31 anos de publicação do Estatuto da Criança e do Adolescente. "Somos a primeira geração adulta pós-ECA, o que nos dá segurança para falar sobre adoção de uma maneira institucionalizada", explica Alexandre Lucchese, autor do livro "Vida de Adotivo" que entrevistou 12 pessoas adotadas e, com elas, contou a respeito de suas experiências pessoais como filho por adoção.

Apesar de diverso e não necessariamente coeso, o grupo coloca em discussão os referenciais mais comuns a respeito do que seria a adoção. "É muito importante que os filhos adotivos se encontrem, se reconheçam, se organizem. Isso está começando agora", destaca Fernanda, "a primeira coisa que conseguimos identificar é um preconceito imenso com a nossa existência — que é pouco falada e invisibilizada". O debate importa não apenas para as famílias adotivas, mas para todas as famílias, para a escola e a própria imprensa.

Definições

Antes do ECA, havia a percepção da adoção como forma de oferecer filhos para casais inférteis. Após o Estatuto entrar em vigor e com o surgimento de grupos de apoio, a perspectiva de preocupação se modificou, retirou-se a ênfase nos desejos de adultos e se passou a privilegiar as necessidades das crianças e de adolescente. Isto é, a adoção hoje tem como objetivo garantir uma família adequada para os menores.

Nessa direção surgiu o Doulas de Adoção, um grupo que vem elaborando uma metodologia com objetivo de oferecer apoio emocional às pessoas interessadas em adotar e também para filhos que foram adotados. "Nosso maior objetivo é humanizar a adoção e garantir que as pessoas compreendam que adoção não é caridade, é uma via de parentalidade muito consciente", explica uma das fundadoras, Marianna Muradas.

Contudo, quando o tema é adoção, o pêndulo da moralidade costuma oscilar entre a idealização e a condenação. Enquanto as famílias adotivas são enquadradas como "iluminadas", "corajosas" ou, quando muito, "loucas", as crianças e os adolescentes emergem como "potencialmente problemáticos", já as famílias genitoras são percebidas como necessariamente "perversas". Essa forma de entendimento achata as nuances da vida e condena, com facilidade, sujeitos a determinados comportamentos.

As origens

No que toca os genitores, há uma tendência em sentenciar suas atitudes sob rubricas negativas. "Algumas discussões sociais não entram muito em pauta no dia de hoje, como a mãe que doa" destaca Leila Donaria, filha e mãe pela via da adoção. "Enquanto a mãe que adota é tida como a maravilhosa, a salvadora, e a mãe que doa é vista como a pecadora, a pior pessoa".

Há uma profunda dificuldade em compreender como uma mulher pode abandonar o próprio filho. Sobre isso, Leila costuma responder: "Eu sei por experiência própria. Eu sou uma filha que foi doada recém-nascida, ainda no hospital. Essa mãe que doa faz isso por amor àquela criança, por inúmeros motivos ela não tem condições de criar. Ou pelo simples fato de que ela não nasceu para ser mãe". A doação, por sinal, não ocorre sem luto. "Nenhuma mãe carrega um bebê por nove meses no ventre e doa esse bebê sem dor. A gente tem que colocar o lugar dessas mulheres com muito respeito".

Isso não quer dizer que não existam situações de violência e negligência, entretanto cabe evitar as generalizações que encapsulam uma variedade de experiências numa condenação pejorativa que costuma infligir nova dor às crianças e adolescentes.

É comum que, em algum momento de sua história, os adotivos se voltem para seu passado e se perguntem a respeito de sua origem. Quando o tópico emerge, ele costuma ser lido como ingratidão (fruto do não reconhecimento dos "sacrifícios" prestados por quem adotou) ou como uma falta que a família de adoção não sanou.

"A busca por origens não é uma questão de biologia, mas uma questão de biografia", sinaliza Alexandre ao citar a antropóloga Claudia Fonseca, autora da expressão. "Tenho um vínculo muito grande com a minha família adotiva, e não é por isso que fui buscar a minha família biológica", destaca e completa: "quando gente deprecia a família biológica, a gente deprecia a própria criança, ela se sente desvalorizada, como se o lugar de onde ela vem não tivesse valor"

As crianças e adolescentes

O universo de significados que rondam as crianças e os adolescentes para adoção também esbarra em concepções excludentes e violentas. "Há um mito de que filhos adotivos sempre têm problemas e vão dar muitos problemas", grifa Leila. Sugere-se que as dificuldades virão no processo de aprendizado ou no comportamento, "a verdade é toda criança apresenta algum tipo de dificuldade em algum aspecto da vida, as adotadas vão ter outros tipos de dificuldade".

A psicóloga Aline Santana, especializada no tema, explica: "Algumas pessoas acreditam que todas as crianças que são adotadas são agressivas. Mas na verdade a agressividade nessas crianças é uma forma de defesa. Elas não têm um controle emocional, uma educação emocional ou alguém que regule suas emoções. Então ela reage da única forma que ela sabe". Conforme expõe a especialista, por trás da agressividade de cada criança reside uma diversidade de sentimentos, como a raiva, a frustração e a tristeza.

A respeito do assunto, Marianna lembra, "a minha vida inteira, quando eu contei que eu era adotada, vinha um espanto: 'nossa, você ainda não matou seus pais, você é uma filha boazinha'". Paira uma espécie de iminência de um colapso, "achar que o filho adotivo é o filho que vai dar trabalho, é o filho que vai cair no mundo das drogas e que não vai estar ali vinculado".

Diante dos "riscos" em adotar e do ato "bondoso" de adotar, há a expectativa de que a criança ou adolescente seja grata aos pais que acolheram. Ou, ainda, espera-se um comportamento em tudo incompatível com uma criança ou um adolescente na mesma idade e situação. "Por que esse filho teria que vir com esse peso da gratidão?", pergunta-se Marianna. Segundo ela, essa ânsia deriva do fato de que a adoção ainda está vinculada à caridade, "a gente luta para que as pessoas compreendam que trabalho social e caridade se faz em outros lugares e não numa relação parental".

O novo lar

Dentre os inúmeros aspectos colocados para os pais por via da adoção, dois merecem destaque. Em primeiro lugar, assumir que a filiação biológica e a adotiva não são iguais. "Isso existiu por muito tempo para oferecer uma segurança para os filhos adotivos não serem tratados de modo diferente, mas temos as nossas especificidades, temos as nossas particularidades", argumenta Alexandre. "Não somos menos filhos, temos o mesmo status, mas temos sim, questões particulares".

Para Fernanda, ao assumir que o filho adotivo é sinônimo do filho biológico isso limita a vinculação. "Recentemente eu vi um vídeo de uma mãe adotiva em que ela relata o momento que o filho adotivo dela fala da mãe biológica dele. A criança chorou e perguntou se a mãe biológica estava bem. Mesmo em choque, a mãe adotiva toma essa oportunidade e fala para fazerem uma oração para que ela fique bem. Ela não apaga a história da criança". O reconhecimento da existência da genitora é fundamental, explica Fernanda: "eu não consigo imaginar uma vinculação mais profunda do que esse acolhimento pleno da história do filho adotivo".

O segundo aspecto a ser abordado reside na adoção inter-racial. "Precisamos discutir o racismo como um todo e como ele afeta as crianças institucionalizadas", ressalta a psicóloga Aline. "Essas crianças são, em sua maioria, negras. Por que a maioria dessas crianças é de uma cor específica?". Dessa forma, as chances de uma adoção inter-racial acontecer são grandes caso os pretendentes não exijam preferência de cor. "Esses pais já precisam se conscientizar e passar a conscientizar todos ao seu redor sobre o racismo. Começar a perceber quais pessoas pretas estão ao seu redor. Os lugares que eu frequento têm essas pessoas? Quando essa criança chegar, ela vai ter qual representatividade?". Não é possível que os pais e a família estendida neguem o assunto classificando o tema como mimimi, "é preciso se engajar e não procurar embranquecer essa criança ou adolescente", alerta Aline.

Responsabilidades sociais

A sociedade civil como um todo deveria conhecer essas pautas e se sensibilizar com a discussão. A escola, por exemplo, precisa acolher as crianças e os adolescentes que chegam pela via da adoção de uma maneira diferente. "Eu sou uma criança que sofreu muitas vezes na escola por ter que fazer um desenho de arvore genealógica, por ter que levar uma foto da mãe grávida, por ter que falar como tinha sido meu nascimento. Eu nem sabia como tinha nascido", relembra Leila. "Eu sofri com essas questões toda a infância e adolescência. E quando adotei, 30 anos depois, eu me deparei com isso, e vi que as coisas não mudaram".

O grupo reforça a necessidade de a escola ampliar a discussão a respeito dos sentidos da noção de família, "as escolas, muitas vezes, fazem um projeto pedagógico que não inclui as crianças adotivas", explica Aline. "Não se considera uma família com dois pais, com duas mães, com mãe solo ou pai solo".

Já a imprensa merece reformular os manuais de redação. É comum encontrar reportagens que colocam os filhos adotivos em contextos negativos e muitas vezes até em práticas ilícitas, destaca Fernanda "Você não fala, 'o filho biológico do fulano cometeu um crime', mas você lê 'o filho adotivo cometeu um crime'. Por que que isso acontece? Por que que o filho adotivo é enquadrado dentro de um contexto de problema que não é uma exclusividade dele?", pergunta a ativista.

Do luto ao vínculo

"Todos os filhos são adotados — primeiro paridos e depois adotados", reflete Marianna. Na adoção mora uma ambivalência de sentimentos complementares e complexos, explica ela. "No dia em que a adoção acontece e a família leva a criança para casa, ele é (espera-se ou pode ser) um dia muito feliz, mas para a criança é um dia de luto. Ela estará sentindo um rompimento, a constatação de que o vínculo com a família de origem foi quebrado".

A família também enfrentará um luto — do filho idealizado para o filho real. "Não pode pensar que essas crianças vão chegar nas nossas famílias e vamos ter uma vinculação imediata. A gente constrói vínculos na medida em que dedicamos tempo, amor, espaço.", complementa Alexandre.

Os filhos e as filhas pela via da adoção querem ir mais longe, "a gente ainda está se organizando no sentido de entender e identificar as nossas dores, os preconceitos sofridos para poder nos organizarmos melhor. A intenção é criar uma associação nacional para ter uma presença e uma voz política influente até para propor algumas alterações na legislação também" detalha Fernanda.

Nesse trajeto rico, noções centrais da experiência social passam por uma reflexão profunda e sensível: a parentalidade, o racismo, a biologia, a biografia e o afeto. A sociedade civil como um todo — com as famílias pela via da biologia, a escola e a imprensa — devem debater o assunto e acolher essa oportunidade para adotar novos futuros.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL