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Bernardo Machado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Apertem os cintos, falta um ano para as eleições de 2022

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Bernardo Machado

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Colunista do TAB UOL

01/11/2021 04h00

Ano que vem, ao final de outubro, o Brasil já conhecerá o presidente para o mandato entre 2023 e 2026. Isso, é claro, se tudo correr na lógica eleitoral prevista. Desde já, as forças políticas estão se realinhando, organizando a base, definindo as estratégias, traçando os eventuais cenários e tomando fôlego.

Preparativos

A última pesquisa do Poder 360 captura uma diminuição na diferença entre Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em eventual segundo turno. De um lado, o governo se movimentou para aprovar o Auxílio Brasil e garantir a proteção social para reduzir a situação catastrófica em que parte significativa da população se encontra. No lugar do que estava funcionando, o governo extingue o Bolsa Família e o Programa de Aquisição de Alimentos e propõe um programa mal desenhado, com funcionamento pouco claro e recursos incertos, conforme explica artigo no Nexo Políticas Públicas. Em breve, os resultados da mudança prometem se apresentar.

O presidente também organiza sua base com os partidos fisiológicos tradicionais — que devem apostar no atual mandatário dado o fluxo de recursos disponíveis pelo orçamento paralelo. Essas figuras, presentemente ausentes, seguirão fingindo ser figurantes num espetáculo em que atuam como protagonistas.

Enquanto isso, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) monta uma base teórico-científica para antecipar os riscos que irá enfrentar. Em recente decisão, a corte optou por não cassar a chapa de Bolsonaro, ao contrário decidiu estabelecer jurisprudência contra eventuais disparos em massa com desinformação. Em poucos meses saberemos se a corte está disposta a aplicar os novos parâmetros.

Os partidos políticos que não querem participar da campanha de Bolsonaro também ambicionam garantir uma melhor posição. Enquanto João Doria e Eduardo Leite disputam as prévias do PSDB, Sérgio Moro sinaliza que poderá ser postulante. Ciro Gomes aposta na oposição frontal ao PT para demonstrar-se como alternativa viável. As peças do jogo ainda oscilam e ensaiam.

Comparação e imaginação

De toda forma, dois aspectos estarão no centro dos discursos e na maneira como o debate se dará nos próximos 12 meses — a comparação e a imaginação. Isto é, de um lado, estará em jogo o confronto entre candidatos e suas administrações: o que entregaram? Como entregaram? O que não realizaram e como se comprometeram politicamente? De outro, implicará avaliar o que projetam para o país: o que prometem? O que imaginam para os próximos anos?

Desde já, contudo, vale anotar uma preocupação. Nessa antessala eleitoral há uma repetição comparativa definindo o debate público. Isto é, boa parte da imprensa e parcela de comentaristas políticos costumam aproximar certos pares de figuras: Lula e Bolsonaro, Doria e Leite, Ciro e Lula. Embora compreensíveis pela conjuntura e pela praticidade, esses procedimentos reforçam enquadramentos já manjados e interrompem outros ângulos.

Por exemplo, há quem estipule correspondências rápidas — "Lula e Bolsonaro são iguais". O procedimento aposta em eventuais semelhanças de postura ou em resultados das políticas realizadas. Quaisquer diferenças na trajetória, na forma de pensar ou nas ações) são rifadas em nome do pressuposto estabelecido: a equivalência.

Valeria testar outras aproximações a título de escapar desses ângulos que estão viciando o debate político e pouco contribuindo para a discussão de projetos de país. Promissor seria estipular uma comparação (e um futuro debate), por exemplo, entre Lula e Doria, ou Ciro e Leite. Quem sabe até uma acareação entre Bolsonaro e Moro. Dessa forma, ao invés das rinhas características, as colunas e comentários poderiam discutir ações, políticas e projetos, além de redirecionar o debate em eventuais entrevistas com os políticos.

O segundo aspecto no páreo diz respeito à proposta de futuro de Brasil, isto é, de agora em diante, estará em jogo o país que as candidaturas projetam para os próximos quatro anos. Em 2018, Jair Bolsonaro explorou o imaginário de um país livre da corrupção, mais conservador nos costumes e mais liberal na economia — segundo ele, a antítese do PT. Hoje sua capacidade de projeção encontra-se limitada pela experiência vivida de três anos de governo, sem avanços claros nas áreas estruturantes. Além disso, ele carrega um ônus doloso na negligência diante de uma pandemia, algo documentado no relatório da CPI. É possível que sua campanha seja guiada pelo teor de que a pandemia impediu seus planos e que nos próximos quatro anos ele realizará suas promessas. O discurso pode colar dependendo da forma como for embrulhado.

Quanto aos outros postulantes, suas imaginações ainda não foram apresentadas. A partir delas, o eleitorado poderá avaliar, comparar e projetar o que deseja.

O ano que entramos — de agora até o final do segundo turno — será bélico, repleto de desinformação, correria e confusão. A política, a economia, o convívio cultural afetarão a vida cotidiana, seja no campo financeiro ou nas relações pessoais. Apertemos os cintos e respiremos fundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL