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Matheus Pichonelli

Bacurau, Coringa, Boyhood: quais filmes vão nos fazer lembrar desta década?

Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

30/12/2020 04h00

Daqui a algumas horas a década termina, e ainda não li por aí qualquer consenso sobre quais filmes vamos guardar dos anos 2010. Arrisquei uma enquete, no começo de agosto, e a galera só faltou se estapear.

Tenho alguns para chamar de meus. Questões pessoais, algumas inconscientes.

Daqui a alguns anos talvez me lembre de uma tarde de domingo em que, já em quarentena, e depois de algumas cervejas, comecei a ouvir músicas das trilhas sonoras de alguns filmes favoritos. Fui encontrado algumas horas depois largado no sofá revendo, no repeat, o trailer de "Boyhood - da infância à juventude". Foi estranho, porque o filme de Richard Linklater não estava nos meus favoritos nem entre os concorrentes ao Oscar de 2015, quando foi indicado a melhor longa, melhor diretor, melhor ator coadjuvante, melhor montagem, roteiro original e melhor atriz coadjuvante — a única estatueta que levou no fim. Meu favorito era "Birdman", longa de Alejandro González Iñárritu que fazia troça de seu herói.

Mas assistir ao trailer de "Boyhood" ao som da música-tema, "Hero", da banda "Family of the Year", me fez perceber que o filme tinha deixado mais marcas do que supunha. O pequeno vídeo mostrava a compreensão do tempo na vida de um garoto filmado ao longo de 12 anos.

Meu filho tinha só dois anos quando assisti ao filme. Revendo as cenas, vi como nosso menino andava parecido, ao menos de relance, com o pequeno Ellar Coltrane, o Mason do filme. A vontade quase súbita de estancar o tempo me fez cair num choro profundo, desses que precisamos torcer para que ninguém apareça à porta para perguntar se estamos vivos.

Aquele choro não era só por perceber que o tempo também passava por mim sem que me desse conta. Ou por saber que, em breve, meu filho encararia os mesmos conflitos do jovem que nas primeiras cenas está deitado, olhando para o céu, como se contemplasse com um gosto especial um pedaço de mundo ainda a ser decifrado. A pontada de aflição veio também pelo fato de que a mensagem daquele filme, se havia, estava datada.

O filme transformava numa grande história a vida de uma família comum. Ninguém ali foi alistado para a guerra nem enfrentou batalhas épicas; não fugiu com o carro acelerado de bandidos, nem da polícia; não passou fome nem apanhou nas ruas em protestos contra a ditadura. Os indícios de que os afetos migraram de lugar estavam na música-tema de quem não queria ser herói, nem grande; queria assumir e vivenciar seus "sonhos americanos" num fim de semana qualquer e terminava dizendo: "o bebê precisa de um pouco de proteção. E eu sou uma criança como qualquer outra".

Rá.

O que era a afirmação do próprio desamparo trazia um certo alívio ao espectador, cansado de guerra e dos filmes de guerra.

Em vez de conflitos externos, poderíamos descobrir por nós mesmos, como Drummond, que no universo em volta do lar nossa história poderia ser mais bonita que a do aventureiro Robinson Crusoé. Poderíamos nos preparar, física e psicologicamente, para um mundo mediado por máquinas e seus encantos.

Não deve ser por acaso que "Ela", de Spike Jonze, encabeçava a lista dos amigos quando citavam os filmes que mais os marcaram ao longo da década. Da mesma safra dá para lembrar também de "Nebraska", um drama familiar sobre envelhecimento e desilusão, e "A Grande Beleza", um drama italiano sobre um escritor que atinge o auge da carreira muito jovem e passa o resto da vida escorregando no vazio e na frivolidade. Se fechar os olhos, ainda consigo ouvir as Beatitudes do Quarteto Kronos na cena final.

Mas errou feio, errou rude, quem imaginou que esta era uma década da introspecção, da varanda gourmet e da contemplação em direção à velhice. Que nossa selvageria estava domada e que direitos constituídos eram conquistas dadas, que dali ninguém tirava.

Em 2016 Donald Trump foi eleito presidente dos EUA e criou uma espécie de jurisprudência mundo afora, inclusive no Brasil. Como resumiu um tuíte: chegamos ao final da década com saudade de chorar pelo crush, e não pelo Estado democrático de Direito.

De 2018 para cá, uma espiadela na lista dos filmes mais falados e comentados mostra que eles capturaram um outro espírito. O espírito de um mundo acelerado e em acelerado processo de decomposição. De tiro, porrada e bomba, enfim.

A história de um jovem negro cercado e marcado para morrer em uma roda da elite americana falsamente desconstruída em "Corra", de Jordan Peele, ganhou com o tempo o selo de obra que conseguiu captar este espírito da nova velha era. Também de 2018 o improvável acordo entre justiça e justiçamento já mostrava os dentes, e as balas, nos "tuítes" impressos nos outdoors de "Três Anúncios Para um Crime".

Naquele mesmo ano, saímos da sessão assombrados com as consequências históricas de conflitos pessoais mediados pelo ódio em "O Insulto", concorrente libanês ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Quem foi dormir com medo de acordar em uma teocracia também recebeu do cinema a fritura dos ventos autoritários vindos do Irã de Asghar Farhadi, diretor de "A Separação" (2012) e "O Apartamento" (2016), clássicos sobre a incompreensão humana em um país que reprimiu os corpos, trancafiou a fala de seus personagens e sequestrou a noção de verdade.

Para quem não queria ser herói, não foi difícil entender como "Pantera Negra" foi surgir na lista dos grandes filmes da década já na curva final. O destino do herói estava desenhado até a última célula de seu protagonista, Chadwick Boseman, que já enfrentava um câncer que o levaria à morte, pouco depois — mas não se dobrou antes de se tornar uma referência num mundo que gritava por representatividade.

Spike Lee botou o porrete na mesa com "Infiltrado na Klan", uma resposta ao recrudescimento de delírios supremacistas que asfixiam pessoas negras nos EUA de Trump e seus pastiches mundo afora. Pequenas obras-primas sobre conflitos familiares, como o japonês "Assunto de Família" e "Roma", teriam deixado o nome na pedra, e não na areia, se já não fossem outros tempos. Tempos em que era necessário levantar a voz. Tempos em que a sanidade era o primeiro direito surrupiado em Estados que jogam seus habitantes na estrada da loucura e os deixam por sua conta e risco, à espera da disrupção encarnada por "Coringa", o personagem que assumiu a feição de uma década retaliada e fora de controle.

É neste mundo debelado que a fúria explode não só nas ruas, mas nas casas das melhores famílias que se acreditaram protegidas em edificações de alto padrão em cidades alagadas e impactadas por tragédias humanas e naturais (não muito) longe dali. Em "Parasita", filme sul-coreano que emoldurou os anos 2010, o conflito está no centro da cena e grita para mostrar que a história da humanidade é, ainda, a história da luta de classes. Entre escadas e subterrâneos, as guerras intestinas se movem, sob o pânico de sermos destroçados. Mas com quem estamos brigando? Como nos infiltramos nestas mansões para servir? Quais são as armas? Quem ocupa o quê? Quem tem direito à cidade e quem deixou a cidade alagar?

(E eu que achava, até pouco tempo, que o protótipo de vilão contemporâneo era o professor obcecado de "Whiplash - em busca da perfeição", outro filme que merecia ser lembrado para além de uma sessão).

Não, esta não foi a década dos pequenos grandes perrengues pessoais, da incomunicação entre máquinas e humanos incapazes de crescer. Era a década de trincheiras, de uma guerra a um vírus e da insanidade que já mataram 190 mil compatriotas, que debocha dos mortos, que se arma contra o vizinho, que já se trancafiava muito antes de qualquer quarentena.

O horizonte limpo dos namorados na cena final de "Boyhood" era ilusão. Mesmo por aqui, os filmes que passaram a fazer mais sentido e dialogar, de igual para igual, com uma época de conflagração e exigência de posição, antifascista, antirracista, anticolonial, consagraram a década do terror nacional em futuros clássicos como "Animal Cordial", "Bacurau", "Aquarius", "As Boas Maneiras". A Jéssica de "Que horas ela volta" virou um quadro na parede de uma década que não durou um trote de faculdade. Saiu de cena e viu entrarem no palco personagens dispersos em outros planos de fuga, ou sem plano algum, como os de "Arábia" e "No coração do mundo", retratos de um Brasil profundo produzido por jovens cineastas de Minas Gerais.

Não teve posição que não se acirrou. As conquistas ficaram por um fio. Sob ataque, começamos a elaborar nossas reações estéticas que anteciparam o momento histórico — e ele não estava na "Melancolia" de Lars Von Trier nem no olhar da noiva interpretada por Kirsten Dunst esperando a salvação por um meteoro vindo do céu. Estava nos "Relatos selvagens", de Damián Szifron.

Chegamos ao fim da década vendo o mundo desabar e sem chance de morrer em paz. Fechamos a década falando sobre carnificinas, genocídios, devastação, queimadas, aquecimento global e seus negacionistas. Isso sem falar na fratura exposta da crise dos refugiados.

Ser herói não é escolha, é destino. Talvez sejamos. Mesmo que só por um dia.

Como diria o provérbio que com o tempo se tornou também clichê: "Se queres paz, se prepara para a guerra."

O cinema, este espaço que já não podemos frequentar a lazer, virou trincheira.