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Michel Alcoforado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Maiores em tudo, a cada dia: como os exageros inventaram Dubai?

David Rodrigo/Unsplash
Imagem: David Rodrigo/Unsplash
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Michel Alcoforado

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca, uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Colunista do TAB

26/10/2021 04h01

Reza a lenda que, assim que Lula assumiu a presidência do Brasil em 2003, Chico Buarque o chamou num canto e sugeriu que o petista criasse o Ministério do Vai-Dar-Merda. A pasta teria um papel estritamente consultivo, mas com amplos poderes de intervenção. Diante de uma ideia estapafúrdia, cabia ao ministro a tarefa de se meter em qualquer reunião e intervir com um "Pára, pára, pára! Rapaziada, vai dar merda!"

Lembrei da anedota e tive uma crise de riso sob o olhar atento de Ravi, motorista de turistas abobalhados e homens de negócios há mais de 15 anos em Dubai. Seguíamos por uma avenida que liga o centro nervoso da cidade à marina, onde ricaços matam o tempo em apartamentos com vistas esplendorosas ou em barcos gigantescos, estacionados nos canais, comendo e bebendo em restaurantes de chefs celebrados internacionalmente.

Apesar das mais de 14 faixas, a via tinha intenso fluxo e Ravi ultrapassava os carros e divagava sobre os exageros da cidade. Por vezes, chamou minha atenção para a presença onipotente do Burj Khalifa, o maior prédio do mundo, com mais de 800 metros de altura; para o Burj Al Arab, primeiro hotel 7 estrelas do planeta; e para o Dubai Mall, o maior shopping do mundo. Em outras, me contou detalhes sobre a construção da nova roda gigante, também a maior do tipo, com vista para a ilha artificial Palm Jumeirah. Quando se deu conta das razões da minha visita, lembrou que as autoridades locais investiram pesado para ajudar os países mais pobres a marcarem presença na ExpoDubai 2020 e a fazer do evento a maior edição da feira universal de todos os tempos.

Fui surpreendido por um intervalo, na sequência sem fim de superlativos planetários, mas ainda tinha mais. Ravi tomou fôlego e me veio com mais uma: "Sir, você precisa conhecer a piscina mais funda do mundo".

"O quê?", respondi às gargalhadas. Ele repetiu: "a piscina mais funda do mundo".

Não é possível.

Segundo os jornais locais, a Deep Dive Dubai tem mais de 60 metros de profundidade, 15 milhões de litros de água filtrada por equipamentos criados pela Nasa e é, pelo menos nas contas do Guiness Book, 15 metros mais funda e duas vezes maior que qualquer outra piscina já construída pela humanidade. Nas profundezas, os mergulhadores têm uma visibilidade impossível de ser alcançada em águas naturais — além de terem a chance de jogar totó, andar de bicicleta, levantar pesos de academia, brincar de bilhar, assistir a trechos de filmes e desvendar os mistérios de um império fictício abandonado sob as águas durante o mergulho.

A História é prova de que as loucuras dos emiratis deram resultado. Sabe-se que a região do Golfo Pérsico já contava com populações flutuantes há mais de 3.000 a.C, mas foi em meados do século 19 que os Maktoum, da tribo Bu Flasa, se instalaram à beira do mar e criaram Dubai. Ali, viveram por um século à base de pesca, plantações de tâmaras e da exportação de pérolas. Até que, nos idos de 1960, descobriram o petróleo. As enormes reservas impulsionaram o desenvolvimento do país, mas sobretudo deram gás à imaginação do Sheik Rashid bin Saeed Al Maktoum e de seus sucessores para entrarem de cabeça na onda megalomaníaca.

Na linha do Ministério do Vai-Dar-Merda, anedota entre amigos, aqui em Dubai deve existir uma outra repartição com cargo, vasto orçamento e funcionários. É o Ministério do Bota-Mais. Tudo indica que há, dentro do departamento de obras ou infra-estrutura, algum burocrata responsável por adicionar metros, largura e volume à toda e qualquer criação que se cogite fazer por aqui.

6 mil lustres de cristais Swarovski como este são parte do novo resort de luxo Raffles The Palm, em Dubai - Divulgação - Divulgação
6 mil lustres de cristais Swarovski como este são parte do resort de luxo Raffles The Palm, em Dubai
Imagem: Divulgação

Vamos fazer o maior prédio do mundo? Bota mais uns 250 metros acima do primeiro.

Que tal um hotel 5-estrelas à beira do bar? Bota mais umas estrelas para ficar demais!

E uma piscina para mergulhadores? Bota mais o dobro de água! E assim segue.

É justamente por causa do exagero que Dubai, dos anos de 1990 para cá, entrou no mapa, ganhou destaque e relevância. Sem os superlativos, os Emirados Árabes seriam mais um pequeno país do Oriente Médio com um conjunto de estereótipos ligados à religião, à fortuna do petróleo ou ao clima infernal. O ferro, o concreto e a ambição das autoridades inventaram o país a partir do portfólio de bizarrices exageradas que oferecem aos visitantes.

O projeto de Dubai, sonhado pelas líderes árabes, se alinha a uma reflexão clássica de Marcel Mauss, um dos pais fundadores da antropologia. Em "Ensaio sobre Dádiva", ele cravou que é no eterno dar e receber que se inventam as sociedades. Sem a generosidade, aparentemente desinteressada, de oferecer aos outros o que se tem, os grupos humanos não conseguem estabelecer relações, pactos, conquistar prestígio e ganhar relevância na multidão. Quando damos algo nosso para os outros, mesclamos as almas e estabelecemos novos canais de troca. As pesquisas antropológicas provam que é trocando coisas que trocamos palavras, afetos, dinheiro, firmamos negócios e nos reconhecemos como pares.

A capacidade de "queimar" petrodólares em monumentos, pontos turísticos e outras coisas mais é muito similar ao potlach dos nativos do noroeste norte-americano. Nesses rituais, os chefes tribais queimavam ou ofereciam a populações brasões de cobre ou peles de animais de alto valor. Era sobre a disputa entre as lideranças de cada grupo sobre quem oferecia mais, doava mais ao grupo, que se instituía a rivalidade, a competição e a relevância.

A estratégia de concretizar os sonhos grandiosos da humanidade foi fundamental para que Dubai ganhasse um lugar de destaque no cenário global. Ao contrário dos vizinhos, em Dubai os investimentos pesados garantidos pela cultura do Bota-Mais fizeram do país um celeiro para grandes empresas, investidores, imigrantes e, recentemente, de bilionários. Dubai já é a única economia da região a não depender de petróleo para existir. Dados recentes apontam que apenas 5% da renda per capita é diretamente derivada pelo petróleo (embora o lastro econômico seja a exploração dele) — o restante é garantido pela turismo, ação crescente das empresas de tecnologia e pela intensa movimentação financeira de empresas multinacionais.

O sucesso da estratégia dos Emirados Árabes já colocou os vizinhos no mesmo caminho. Há tempos, o Qatar tenta seguir a mesma jornada, mas a falta de vigor em competir pelos exageros ainda o deixa em uma situação desfavorável.

Já a Arábia Saudita, sob a gestão do príncipe sanguinário Mohammed Bin Salman, vem fazendo fortes investimentos em turismo e se esforçando para abrir o país para o mundo, apesar do peso que islamismo tem no dia a dia do país. Por aqui, a promessa de transformar uma plataforma de petróleo em um hotel e um parque de diversões tem deixado o mundo árabe em polvorosa. Todos se perguntam se Dubai encontrou um concorrente à altura.

Ravi não está preocupado com a concorrência. Ele me recomendou que voltasse ao país o quanto antes para a inauguração do maior museu do futuro do mundo, prevista para os próximos meses. Segundo ele, vai ter tudo que ninguém nunca viu.

Incorporado pela lógica de Dubai e do Brasil, pensei: Pode botar mais! Se não, vai dar merda.