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Gentrificação: o que é e quais as consequências para a paisagem urbana

Vista aérea de São Francisco, na Califórnia, Estados Unidos - Getty Images
Vista aérea de São Francisco, na Califórnia, Estados Unidos
Imagem: Getty Images

Tiago Dias

Do TAB

10/07/2020 04h00

De uns tempos pra cá, o termo "gentrificação" passou a povoar discussões sobre a ocupação humana nos bairros das cidades. Virou praxe encarar a mudança de frequência em determinadas regiões como "ocupação hipster". O termo pode parecer novo — e é —, mas seus efeitos são velhos conhecidos, muito antes da banquinha de fanzines e aquele café (que também é uma floricultura) abrirem perto de sua casa.

Em São Paulo, seus efeitos podem ser vistos desde o início do século 20, com a transformação do Vale do Anhangabaú em via ou a inauguração do Theatro Municipal e do Jardim da Luz, na região central.

"Dependendo do impacto, ocorre o que eu chamo de remodelação do lugar, e isso já impacta diretamente na valorização imobiliária. O primeiro vínculo que a elitização tem é com a valorização imobiliária", explica Eulalia Portela Negrelos, professora-doutora na área de Teoria e História da Arquitetura e do Urbanismo do IAU - Instituto de Arquitetura e Urbanismo, da USP.

A gentrificação está presente toda vez que se anuncia um grande projeto urbano, na construção de novos edifícios ou na chegada de novos pontos comerciais e moradores à determinada região. Mais do que um processo, gentrificação é uma consequência, com efeitos diretos em toda a cidade, em especial entre a população mais pobre.

Saiba tudo sobre gentrificação

O que é gentrificação?

É um fenômeno de transformação urbana que promove a elitização de um espaço, através da alteração da composição social de uma região ou bairro.

No processo de valorização desse espaço — ou na implementação de grandes projetos urbanos —, é natural ocorrer alterações no ambiente: os mais comuns são o aumento nos custos de bens e serviços e a mudança na composição populacional da região, afetando especialmente pessoas de baixa renda. A gentrificação é consequência de uma ação pública ou privada (ou em parceria) que modifica a cara de um lugar, mesmo não sendo explícita na origem do projeto.

Como funciona a gentrificação?

Há muitas ações possíveis. A gentrificação pode acontecer nos assentamentos precários, geralmente informais, em espaços onde o Estado tem interesse em colocar em prática algum projeto urbano, mas também ocorre em bairros antigos que estejam deteriorados, empobrecidos.

"No geral, são bairros que perderam vitalidade econômica, que foram se formando, por exemplo, em torno de uma grande indústria e, com toda a reorganização produtiva, empobreceram", explica Negrelos. Outro caso bastante comum acontece em zonas que mudam de função com a chegada (ou a saída) de fábricas, indústrias e comércios.

Nem sempre a gentrificação se dá pela construção de um tipo novo de moradia. Ela pode ser impulsionada pela chegada de um grande equipamento urbano, como um shopping center. "Com essas mudanças, o metro quadrado naquela região passa a ser mais valorizado", explica.

Quais são as consequências da gentrificação?

Todo mundo, de alguma maneira, é afetado pela gentrificação. "Os projetos são localizados, parece que é só ali que estão acontecendo as coisas, mas a cidade toda é articulada", observa Negrelos. Para os pobres, no entanto, as consequências são mais dramáticas, porque a valorização imobiliária intensifica a gentrificação, "expulsando-os" para localidades pior servidas de infraestrutura e, portanto, menos valorizadas.

Para Negrelos, esse tipo de incidente está atrelado ao conceito de valorização, de elitização de um espaço. Embora o processo imobiliário seja muito invisível, áreas vão encarerendo até que as pessoas que ali moravam não conseguem mais bancar viver ali. "Então, elas vendem suas casas. Com essas mudanças, vem outra classe que pode bancar o espaço por um tempo", observa Negrelos. "Expulsão de classe social é um termo muito usado quando a gente fala de gentrificação. É a expulsão econômica."

Isso, de alguma maneira, vai mudar a oferta imobiliária na cidade — e afetar diretamente a dinâmica de deslocamento das pessoas mais pobres.

Qual é o problema da gentrificação?

Isso vai depender de quanto o Estado, no seu nível municipal ou estadual, está considerando mais inclusão ou menos inclusão social naquele projeto. Com a valorização imobiliária e a chegada de novos serviços e produtos (mais caros), a região passa a ser frequentada por uma nova classe. O problema para os pobres é que se tem muito pouca alternativa. Nos casos de desocupação, muitos acabam realocados para conjuntos habitacionais ou áreas periféricas — que, por sua vez, também podem sofrer um processo local de gentrificação.

Negrelos estuda alguns desses conjuntos e vê uma mudança de padrão social, com o passar dos anos. "Quem conseguiu pagar até o fim, pagou. Quem não conseguiu, fez contrato de gaveta e deixou para outro, e esse outro registrou como seu e aí outra pessoa mais capitalizada, com um pouquinho mais de renda, passou a ocupar aquele lugar".

De onde vem a expressão?

O termo em português foi desenvolvido na língua inglesa, gentrification. Gentry significa elite, classe social com mais poder aquisitivo.

Quais cidades passaram pela gentrificação?

Grandes projetos urbanos de "revitalização" acontecem em todo o mundo, mas um caso que facilita o entendimento é a cidade norte-americana de Boston, em Massachusetts, onde houve duas camadas de valorização. O primeiro foi na década de 1950, quando uma rodovia atravessou a cidade e toda a parte central foi ocupada por trabalhadores. No final dos 1990, outro processo: a rodovia passou a ser subterrânea. A antiga estrutura se transformou em parques, novas habitações, comércios e serviços, mudando a dinâmica e a composição populacional. Esse processo ficou conhecido como "big dig" (em tradução livre, "grande escavação").

Na Argentina, ficou famoso o caso do projeto de Puerto Madero, que teve como objetivo a transformação de uma grande área ferroportuária subutilizada. É um exemplo importante sobre a mudança de padrão de classe, porque houve uma valorização espetacular em função da âncora do projeto, o próprio porto remodelado. Esses projetos-âncora (um parque, shopping, ponte de acesso, entre outros) são as pontas de lança do processo de gentrificação.

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A gentrificação é um processo de segregação?

É um efeito que está imbuído de segregação, porque, em função de algumas obras que o Estado banca, seja como normativa, seja com recursos econômicos ou projetos, famílias daquela região podem empobrecer e não conseguem bancar a vida ali. Então, mudam-se para outros bairros.

Foi o que aconteceu em São Paulo, com a Operação Urbana Águas Espraiadas, na zona sul da cidade. Hoje, a região é reconhecida por cortar um dos polos financeiros da capital, com grandes shopping centers e centros comerciais, mas, em 1992, cerca de 15 mil famílias estavam assentadas à beira do projeto. Essas famílias foram todas desalojadas ou realocadas.

A única favela onde houve reassentamento foi a do Jardim Edite — que passou a ter um conjunto habitacional de linguagem moderna, perto dos shoppings.

"Os moradores do Jardim Edite resistiram anos e anos. Mas há uma série de estudos sendo feitos para checar se eles estão aguentando morar lá. Há relatos de trabalhos de pesquisas sobre pessoas do Edite que ainda resistem, mas elas cruzam outros lugares para fazer a quitanda, porque eles não aguentam comprar 1 kg de tomate na região", explica Negrelos.

O que é horizontalização e verticalização?

São dinâmicas do processo de expansão urbana, não diretamente vinculadas à gentrificação — embora os efeitos estejam também presentes."Depende do padrão de renda à qual se destina o novo projeto", explica Negrelos.

As cidades crescem de várias maneiras. Pelo menos até a década de 1970, havia um crescimento contínuo horizontal mais contínuo, mas a verticalização, em algumas cidades, passa a ter mais força com a chegada de muitos prédios e edifícios. Entre eles estão os grandes condomínios, que surgem nos anos 1970 e se expandem de forma dispersa a partir de 1990.

Fonte: Eulalia Portela Negrelos, professora doutora na área de Teoria e História da Arquitetura e do Urbanismo do IAU - Instituto de Arquitetura e Urbanismo, da USP