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Vitória da samambaia: hipsters dominam Instagram com movimento urban jungle

A produtora de conteúdo Stephanie Salateo - Reprodução/Instagram
A produtora de conteúdo Stephanie Salateo Imagem: Reprodução/Instagram

Letícia Naísa

Do TAB

16/01/2020 04h00

Quando Deus criou Adão e Eva, colocou suas criações para viver no Jardim do Éden, cercados de plantas e natureza. Milhares de anos se passaram e a espécie humana criou o Instagram. Na rolagem do feed, a nostalgia com os primeiros tempos da Terra rola solta: o chão de taco e as samambaias voltaram com tudo e são tendência. Depois da saturação das fotos de xícaras de café, é a vez do movimento urban jungle dominar as telas.

Dona de 75 plantas em um apartamento de 65m², a produtora de conteúdo Stephanie Salateo, 33, tem seu perfil no Instagram (@salateando) dedicado às folhas e flores. "Cresci na Serra da Cantareira (SP) e minha mãe sempre teve muita planta", conta. "Quando eu me mudei para um apartamento em São Paulo, senti falta de ter verde por perto, de mexer com terra, então fui comprando." Quando se mudou, Salateo só tinha 30 plantas e muito menos seguidores.

De tanto postar, uma de suas fotos foi parar no perfil "oficial" do movimento, o próprio Urban Jungle Blog. Assim, ganhou muitos seguidores amantes da samambaia no apê. "Todo mundo me perguntava nos comentários como eu cuidava das plantas, pediam dicas, então eu criei a #terçaterracota e comecei a pensar no conteúdo do meu Instagram", diz ela.

Há um ano, Salateo também transformou as plantas em profissão no mundo offline e aprendeu a fazer peças de macramê. Fundou sua marca, a Bossa e Flor. Entre as peças de maior sucesso estão as que seguram vasinhos de plantas. Hoje, com 11 mil seguidores em seu perfil pessoal, Salateo trata as plantinhas como um hobby, uma renda e um estilo de vida.

Para além da foto

"As plantas estão relacionadas com um movimento de reconexão da gente com coisas menos mundanas", afirma Bia Granja, fundadora do YouPix, um dos principais eventos de criadores de conteúdo online. "Tem um excesso de consumo nas redes sociais, então tentamos usar as ferramentas para trazer um pouco da natureza para o dia a dia", diz. Para além do meme, o post da samambaia passa uma mensagem.

Uma pesquisa da Global Web Index apontou que 7 entre 10 adultos já tentaram moderar o consumo digital de alguma forma. Para Granja, o movimento Urban Jungle vem a reboque do cansaço com as telas e surfa na onda do mindfulness digital. "A gente não aguenta mais a vida filtrada, vejo isso como as pessoas querendo trazer o universo das plantas mais pra perto, para o nosso mundo", afirma.

Para Henrique Diaz, head de tendências da consultoria Box 1824, é uma tendência paradoxal. "As pessoas postam plantas na internet, mas continuam andando de carro, consumindo uma série de coisas nocivas e têm um estilo de vida destrutivo", explica. "Mas a gente chegou num momento no mundo em que boa parte da população vive em centros urbanos e está vendo o quão nocivo eles podem ser."

Em centros urbanos, no entanto, as plantas quase que "fazem bem para a saúde", segundo a bióloga Letícia Figueiredo Candido: "Ajuda a deixar um espaço bonito, ajuda na alimentação saudável, melhora a temperatura e umidade do ambiente, e pensando uma questão ecológica, estamos ajudando a manter as espécies na Terra", diz.

Na internet, a postagem da jiboia em cima da estante parece inocente, mas tem uma mensagem clara de vontade de mudança, seja do mundo ou de si mesmo. "A internet trabalha com a construção da identidade, então isso se conecta", afirma Diaz. Para ele, também há um fator geracional no interesse pelo verde no Instagram. "A bandeira dos millennials é a sustentabilidade. Quem puxou essa pauta para o mundo foi essa geração, que hoje tem um bom poder aquisitivo e está ativa no mercado de trabalho."

"Acho muito legal as pessoas se interessarem cada vez mais por plantas, porque isso significa que elas se interessam cada vez mais pela natureza, por questões relacionadas a meio ambiente. Porém, vai muito além da estética. Não dá pra esquecer que é uma árvore, que tem raízes e não pode ser plantada em qualquer lugar", alerta Salateo.

Sunday night pool party! ?? by @escuelabotanica #urbanjunglebloggers

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O consumo responsável das plantas instagramáveis é tema de debate entre especialistas. "Essa onda na rede social facilita a divulgação científica", afirma a bióloga Letícia Candido. "A botânica não é uma das áreas favoritas pelos biólogos pela dificuldade, mas geral reconhece a importância. Acho que essa ideia de que ter plantas traz um contato maior com a natureza é ótimo porque facilita a população entender a importância disso", diz.

Ela mesma é dona de mais ou menos 35 plantas em sua casa em Maringá (PR). Além das decorativas, Candido mantém mudas para a despensa. "O mais difícil é lembrar as necessidades de todas, porque cada uma tem algo específico, tipo gostar muito de sol ou sombra ou de muita água ou pouca água. Se você confunde e regra muito a que não gosta, a planta não fica bem."