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Vida instagramável perde espaço para fotos mais reais e autênticas

Vida instagramável dá lugar à #vidareal - Omar Lopez/Unsplash
Vida instagramável dá lugar à #vidareal Imagem: Omar Lopez/Unsplash

Luiza Pollo

Colaboração para o TAB, de São Paulo

31/10/2019 04h00

Você já deve ter visto, no feed do Instagram, alguma foto propositalmente "estragada". Filtros que deixam a imagem granulada, que dão a impressão de filme queimado, superexposto ou outros defeitos estão aparecendo por aí, numa estética que vai de encontro às fotos bem posadas e perfeitamente iluminadas que costumam se destacar na rede.

O que pode parecer irônico — "piorar" uma imagem para postar numa rede social de fotos — faz parte de uma tendência mais ampla: tentar parecer ser mais honesto e mostrar a vida real nas redes dá certo. E, ao menos em tese, dá menos trabalho do que ser perfeito.

"Passei tantos meses procurando uma parede que fosse de determinada cor", disse em abril de 2019 a influencer norte-americana Sarah Peretz, em entrevista à revista The Atlantic. "Chegou um momento na minha vida em que tudo o que eu procurava eram paredes, paredes, paredes. Eu fiquei tipo: adivinha que dia é hoje? Outra parede." Ela é um dos maiores exemplos de um feed regrado na rede — desde maio de 2017, a sequência de fotos que a influenciadora posta respeita o gradiente do arco-íris, do vermelho ao violeta (com branco em alguns intervalos). Tudo bem pensado e intencional.

Se antes era preciso uma câmera fotográfica profissional e um editor de imagens como o Photoshop para se diferenciar no Instagram, hoje mais gente tem acesso a celulares com câmeras potentes e os aplicativos de edição estão cada vez mais refinados. A estética instagramável deixou de ser exceção, e acabou virando lugar comum.

Some isso ao movimento de autoaceitação, e temos uma nova fórmula que funciona bem na rede: os posts mais "vida real". Melissa Amorim, head de comunicação da América Latina do Instagram, falou sobre a tendência ao TAB. "Nos últimos anos, percebemos o surgimento e fortalecimento de movimentos no Instagram para influenciar o mundo de maneira positiva, construtiva e inspiracional", afirma.

Melissa destaca o movimento body positive, de positividade em relação ao próprio corpo. "São comunidades que surgem para compartilhar mensagens de impacto positivo e experiências em comum, oferecendo às pessoas um importante primeiro passo para a autoaceitação."

A blogueira Isabella Trad, @todebells, é modelo #bodypositive e conta que desde o início é autêntica em seus posts — piadas, fotos zoadas, tudo entra. "Mas chegou um momento em que eu comecei a pensar mais no que eu queria passar com o meu perfil", conta. Foi aí que ela começou a focar na criação de um espaço voltado à positividade em relação ao corpo.

A fidelidade ao conteúdo começou a aumentar à medida que o número de seguidores crescia. "Tenho desde crianças até gente mais velha me seguindo, então preciso tomar cuidado com o que posto. Não coloco foto bebendo, por exemplo", afirma. Isabella diz ainda que a "vida real" nas redes também passa por curadoria, até para preservar a intimidade.

ó aí, pra vc que tava na dúvida

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Perfis secretos

Mesmo quem se propõe a mostrar a vida como ela é está encontrando outros jeitos de postar sem filtros nas redes. Os finstas (apelido dos fake instagrams) estão proliferando, principalmente entre a geração Z.

São perfis privados, criados para publicar imagens que não combinam com a identidade online daquela pessoa. Fotos espontâneas, vergonhosas e sem edição, mas que o usuário quer compartilhar com os amigos, acabam nos finstas.

A própria Isabella conta que tem um perfil apenas para amigos, onde posta fotos mais pessoais que não necessariamente interessam aos seus seguidores. "A maioria (dos seguidores do perfil oficial) está ali para ver um conteúdo de positividade do corpo, não uma foto do churrasco da minha família", exemplifica.

A ferramenta "melhores amigos" nos stories tem propósito parecido. É possível compartilhar posts apenas com seguidores selecionados, permitindo mais privacidade. "O crescimento da comunidade no Instagram foi bastante expressivo, e entendemos que, às vezes, o que as pessoas desejam compartilhar não é para todo mundo. O recurso 'Melhores Amigos' surgiu justamente para atender essa demanda", explica Melissa.

Pressão pela autenticidade

A onda da #vidareal (mais disseminada por hashtags como #nofilter, #nomakeup, entre outras) se junta à do autocuidado numa época em que já estamos bem mais conscientes dos malefícios das redes sociais para a nossa saúde mental, observa um artigo recente da revista The New Yorker.

Em uma época em que "todo mundo" já sabe que um post nos padrões considerados esteticamente agradáveis dá muito trabalho (e provavelmente esconde a bagunça que ficou de fora da foto), ser verdadeiro nas redes ganha mais espaço, o que se converte em engajamento. Para quem trabalha com redes sociais, esse costuma ser o principal objetivo.

Feed da influenciadora norte-americana Sarah Peretz - Instagram/Reprodução
Feed da influenciadora norte-americana Sarah Peretz
Imagem: Instagram/Reprodução

"Quanto mais real a publicação, maior a probabilidade de identificação do público com o influenciador. A audiência tem a necessidade de se ver nos posts. Certamente a estratégia não funcionará se a audiência não for a primeira coisa a ser levada em conta", observa Carla Dourado, gerente de marketing no Brasil da Socialbakers, plataforma global de soluções para otimização de performance corporativa em redes sociais.

Se as marcas estão atentas à tendência, começamos a questionar: até que ponto a vibe vida real é autêntica, e a partir de quando ela também se transforma em uma fórmula de sucesso a ser seguida?

Tavi Gevinson, influenciadora que lançou a revista online Rookie aos 15 anos de idade (hoje tem 23), conta sua experiência na reportagem de capa da New York Magazine de setembro, intitulada: "Quem eu seria sem o Instagram? Uma investigação". Ela relata que, no Ensino Médio, tinha três perfis: um público, um para amigos, e um só para ela. Esse último servia para postar aquilo que não combinava com a imagem despretensiosa que ela havia criado publicamente.

Selfies mais produzidas e fotos com gente famosa ficavam relegadas ao perfil secreto. "Essas fotos pareciam muito obviamente desesperadas e com objetivo de ascender socialmente para meus outros perfis, mas eu queria saber como seria melhorá-las com filtros, ver a barrinha azul avançar quando eu fazia o upload, ver esses momentos emoldurados — ou abençoados, na verdade — pela interface do Instagram", escreve ela, reconhecendo que a pressão por ser autêntica também gerava dor de cabeça.

No fim das contas, fica difícil traçar a linha de até que ponto a autenticidade vira uma pressão. Sobre isso, Tavi reflete: "Eu acho que sou uma escritora, uma atriz e uma artista. Mas eu não acredito na pureza das minhas intenções desde que também me transformei em minha própria vendedora".

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