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Instagram cria geração de poetas das telas

Os poetas Isaias Magiezi Junior e Wally Wilde conversam na sacada do apartamento que dividem - André Lucas/UOL
Os poetas Isaias Magiezi Junior e Wally Wilde conversam na sacada do apartamento que dividem Imagem: André Lucas/UOL

Giacomo Vicenzo

Colaboração para o TAB, em São Paulo

11/06/2019 04h01

"Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo" poderia ser uma reflexão atual diante das redes sociais, mas é um verso de Fernando Pessoa (1888-1935) no "Poema em Linha Reta". O Instagram, habitat virtual de "semideuses" e "príncipes na vida", cada vez mais tem virado palco para a figura nada poética dos poetas.

As poesias saíram das estantes empoeiradas e hoje cabem nas telas brilhantes dos celulares. Isaias Magiezi Junior, 35, não imaginava que as fotos das poesias curtas, de no máximo uma página, batidas em uma velha máquina de escrever e postadas em suas redes sociais como hobby poderiam ter o poder de parar os dedos ágeis dos usuários em seus versos, que de seus celulares rolam os feeds violentamente em busca fácil de distração e interação. Dos olhos que pararam surgiram seguidores, likes e compartilhamentos, ao ponto de fazer com que Magiezi pedisse as contas do cargo administrativo em uma escola particular em que trabalhava há 4 anos para investir por completo na carreira de escritor.

Natural de São Paulo, ele vivia em Salvador, e retornou à cidade natal cerca de 15 anos depois, quando assinou o contrato do seu primeiro livro 'Estranheirismo'. Os versos falam sobre amor, relacionamento e sentimentos indefinidos que só podem ser descritos na prosa poética. "Eu tinha cerca de 50 mil seguidores. E foi pelas redes sociais que a editora me encontrou e fez a proposta da publicação. Senti que era hora de cair de cabeça nessa carreira", lembra ele.

Hoje, Magiezi reúne um milhão de seguidores no Instagram, mais de 600 mil no Facebook e três livros publicados. Ele posta nas redes com a mão tatuada com a frase 'carne, osso e caos', o aforismo marcado na pele também dá título a uma de suas curtas poesias.

Mas o poeta sabe diferenciar quem é quem no meio da multidão da era da hiperconectividade. "Há quem me siga apenas para encontrar uma legenda para suas fotos nas redes. Talvez tenha uma diferença entre seguidor e leitor." Dos três livros que tem publicado cerca de 30 mil exemplares foram vendidos.

Uma garrafa de uísque e uma velha máquina de escrever o conectam com os leitores e seguidores. Sua produção é feita em frente a uma larga janela do velho apartamento em que mora junto com mais dois amigos no Cambuci, zona central de São Paulo.


Pronto para encarar o horário do rush no metrô paulistano, Lucas Lins, 21, troca as telas em que atende dezenas de clientes diariamente em uma central de callcenter pela tela de seu celular. Ele encontrou inspiração para escrever o seu livreto de poesias "Declínio e Esplendor da Bicicleta" em um momento complexo no relacionamento de seus pais, em que chegaram a ficar separados por algum tempo em 2016.

O livro é costurado à mão com barbante e cola, que unem as frágeis folhas de uma impressão econômica. Mas é na tela do smartphone que ele encontra o espaço para vender e divulgar o seu trabalho poético. É lá que sai da multidão de anônimos e torna-se o poeta.

"Não existiria Lucas Lins sem as redes sociais. Foram nelas que tive meu primeiro contato com a poesia lendo nomes como Sérgio Vaz e Victor Rodrigues", explica.

As páginas de Lucas Lins nas redes sociais caminham em passos tímidos, são pouco mais de 800 seguidores no Instagram e menos de 300 no Facebook. Mas com a divulgação e venda de seus livretos (que custam 15 reais) feita nessas redes ele consegue até um terço dos 900 reais líquidos que recebe mensalmente trabalhando como telemarketing.

Foi no letreiro "Cabaré dos radiadores", que estampa o nome de um comércio automotivo de peças usadas e na abertura de quiosque do McDonalds em Cidade Tiradentes, distrito da extrema Zona Leste em que reside, que ele se inspirou para entrar ainda mais de cabeça nas redes com seus versos e apostou em seu primeiro 'vídeo-poema'.

Cenários da periferia, a dificuldade para conseguir emprego e os sentimentos fraternos que nutre pelo pai também fazem parte da inspiração do poeta. Lins diz que irá investir cada vez mais nas redes sociais, porque sente que o futuro está nelas e comemora que seu 'vídeo-poema' tenha alcançado 20 mil visualizações em uma página do Facebook sobre o bairro Cidade Tiradentes que o compartilhou. No entanto, segue na esperança de que alguma editora o encontre pelas redes.

Longe do número milionário de seguidores de Magiezi, Wally Wilde , 29, natural de Belo Horizonte, é amigo de longa data dele e divide com ele o mesmo apartamento.

Mais de 13 mil seguidores estão no Instagram de Wally, que também aposta em textos curtos e em pequenos vídeos em que recita poemas. Diz ter certeza que seus escritos são em sua maioria 'devorados' na hora do almoço por aqueles que rolam a tela para espiar o feed e acabam se deparando com seus versos que transbordam até onde os algoritmos e o espaço curto da tela permitem.

Sempre um exagero enorme...

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"Meu papel como artista é falar e ser ouvido. E eu sei que minhas poesias estão sendo lidas entre garfadas no horário do almoço. Esse é o melhor período para postar nas minhas redes. Nesse pouco tempo que existe, eu preciso estar lá", diz de forma direta Wally ao falar do seu estilo de texto e seus leitores na internet.

Foi nas redes que Wally encontrou sua primeira maneira de sentir que existe como poeta. Como 'mensagens na garrafa', por muito tempo seus versos se perderam nas solitárias e desconectadas folhas de papel. "O Instagram criou um público para me ler. Antes o que eu escrevia era visto apenas por amigos próximos. Hoje mais de centenas de pessoas leem o que escrevo, o que seria difícil se fosse depender apenas do papel", confessa.

Um dente de prata completa um dos incisivos que faltou à boca de Wally por quatro anos. Ele o tatuou na pele enquanto ainda o faltava na dentição e ilustra a capa do seu primeiro livro "Versos Cravados na Pele", produzido de forma independente em 2017, em que narra de forma poética o significado de 25 das suas mais de 40 tatuagens.

"No livro sou mais completo. É onde posso ir além, escrever mais. Nas redes sociais uso outra linguagem, tenho que ser mais rápido. Mas tudo está relacionado principalmente ao Instagram, as vendas presenciais que fiz foram em eventos em que usei meu perfil virtual para promover", lembra.

Lucas Lins trabalha em uma central de telemarketing, mas se realiza como poeta do Instagram - André Lucas/UOL
Lucas Lins trabalha em uma central de telemarketing, mas se realiza como poeta do Instagram
Imagem: André Lucas/UOL


Essa também é uma questão de contexto histórico e evolução. No mundo, cerca de 1 bilhão de pessoas estão no Instagram e mais de 2 bilhões no Facebook e criam um novo espaço social, ainda que virtual.

Para José Luís Landeira, doutor em Educação pela USP e pós-doutor em Letras pela Universidade de Coimbra, aquilo que construímos como poesia hoje talvez não soasse muito poético há cem ou duzentos anos, e crê que eventos como a industrialização e a invenção da internet mudaram radicalmente o modo de ver e estar no mundo.

"A poesia se deseja eterna, superando o movimento do clichê e se realiza em um ambiente social. O poema é então jogo, movimento, deslocamento, diálogo. Essas características da linguagem poética, na sociedade atual, inundam outras linguagens, como a publicitária, por exemplo, embora sem as mesmas pretensões. O leitor de poesia de hoje deve abrir-se ao diálogo com novas realidades e linguagens", acredita Landeira.

Poetas graças às telas

O poeta e crítico Octavio Paz escreveu em 1964 em seu ensaio "Signos em Rotação" que "A poesia pertence a todas as épocas: é a forma natural de expressão dos homens. Não há povos sem poesia, mas existem os que não têm prosa."

Entrar na tela dos celulares, talvez seja uma das formas da poesia resistir e acompanhar os avanços na época em que quase tudo também pode ser virtual. Zack escreve e deixa o suplício para aqueles que rolam seu feed enquanto perambulam pela cidade.


Versos por cobre

Wally conseguiu vender todas as 500 unidades de sua primeira e única tiragem do livro e é convicto sobre a importância de estar nas redes. "Ninguém compraria meu livro sem antes ler meus poemas no feed", diz.

Viver exclusivamente da poesia, ainda não é uma realidade para ele. A atividade literária lhe proporciona alguns eventos remunerados como saraus e shows poetizados, mas ele precisa fazer trabalhos como designer digital para conseguir complementar sua renda e por vezes até gerar alguma.

me contaram meias verdades...

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Magiezi não vive somente do que escreve, peças teatrais poetizada, concessões de seus versos de forma publicitária a um shopping e outros eventos artísticos e comerciais, são o que complementam sua renda, que segundo ele é instável. "Em um ano bom é de R$ 70 mil, em um ruim R$ 20 mil", revela.

O poeta e editor Eduardo Lacerda da Editora Patuá afirma que poucos escritores vivem exclusivamente do que escrevem. "Mesmo autores reconhecidos e premiados vivem de atividades paralelas aos livros, mas que dependem da existência deles", pontua.

O futuro não é em linha reta

Se antes os autores mandavam os calhamaços de originais às editoras na esperança de serem publicados, essa lógica também parece estar mudando com a presença digital.

"Quase todos os autores que publicamos pela editora eu li antes em plataformas digitais, principalmente pelo Facebook. É natural esse trânsito entre plataformas, do digital para o impresso, do impresso para o oral, do oral para o digital. A cultura ganha muito com isso", afirma Eduardo Lacerda, da editora Patuá, que funciona desde 2011 de forma independente e reúne prêmios importantes da literatura como o Jabuti.

Lacerda também aponta que outro fator muito importante na cena da literatura foi o ressurgimento, com outro perfil, dos saraus: em slams e batalhas de poesia.

A poetisa e professora cuiabana Ryane Leão, também desponta no mercado literário da poesia e do Instagram. Os versos curtos e impactantes postados na sua conta do Instagram ondejazzmeucoracao, trazem histórias de relacionamentos abusivos, feminismo e ancestralidade. Com mais de 400 mil seguidores na rede, algumas publicações chegam a marca de 35 mil curtidas. A maioria dos comentários dos posts são feitos por mulheres que recebem uma dose de força com suas palavras rápidas no feed.

Ryane, teve o livro 'Tudo Nela Brilha e Queima' publicado em 2017, pela editora Planeta e está 49º lugar entre os 100 mais vendidos no gênero poesia no site da Amazon, junto com Rupi Kaur, escritora indiana radicada no Canadá e autora do best-seller 'Outros jeitos de usar a boca' (ed. Planeta), com quem Leão tem o estilo comparado. Kaur narra em seus textos histórias de abuso, sobrevivência e traumas.

Quem também surgiu nas telas dos usuários de Instagram com seus textos é o poeta Augusto de Campos. Aos 87 anos, um dos pais da poesia concreta no Brasil tem mais de 16 mil seguidores no Instagram e continua a experimentar as poesias visuais que são sua marca na carreira.

GREVE *corrigido

Uma publicação compartilhada por Augusto de Campos (@poetamenos) em

Na manhã de 15 de maio, em que protestos pelo corte de verbas na educação superior estavam anunciados, ele se fez presente com seus versos escritos sobrepondo a palavra "greve" escrita com letras gritantes.

"É próprio dos artistas ocuparem espaços e como as redes sociais não são nada mais que um espaço, foram e estão sendo ocupadas", afirma o editor e poeta Eduardo Lacerda.

Se as telas dos celulares conectadas às redes sociais trazem luz e movimento aos versos concretista do clássico e premiado poeta Augusto de Campos, ela preocupa em termos de liberdade de criação o jovem Wally Wilde.

"Antes o poeta dependia da crítica de um jornal, por exemplo, hoje eu as recebo pelo direct. É bom, mas ao mesmo tempo assustador. Escrever a linguagem rápida e clara é uma linha tênue entre falar o que quero e o que as pessoas querem ouvir", explica Wilde que é categórico ao afirmar que ninguém deveria viver só de arte. "É limitador. Um dia sonho em escrever sem me preocupar com dinheiro", completa.

Lacerda lembra que é sempre direito do leitor escolher o que quer ler. "Um influenciador digital por exemplo, pode ou não ser um bom escritor. Ninguém tem mais a última palavra sobre o que é ser um escritor. A liberdade de produção existe e é boa. O tempo, os leitores e as leituras é que acabam filtrando o que é uma boa literatura. Um livro que vende pouco na estreia, pode mudar a força na literatura dez anos depois", pontua.

A produção literária exige o leitor, e o leitor brasileiro é esquivo ao texto literário, assim acredita Landeira. "A arte é mutável, mas se deseja eterna. Não dá para apenas pensarmos em nós mesmos e nos simpatizantes. A literatura não pode ser apenas o desabafo do momento. Ela é o encontro entre formas e conteúdo e deve superar o aqui e agora sem desmerecê-lo', contextualiza.

A poesia e os autores que apostam nas redes sociais hoje, encararam o obstáculo de vencer o entretenimento rápido que prende a atenção dos potenciais leitores desses espaços virtuais e os algoritmos que levam os versos, ou os fazem morrer sem serem lidos, como nas páginas amarelas de um livro esquecido.

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