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Medo do fracasso e da volta do PT marca cúpula bolsonarista

Rodrigo Bertolotto/UOL
Seguranças na entrada do evento Cúpula Conservadora das Américas Imagem: Rodrigo Bertolotto/UOL

Rodrigo Bertolotto

Do TAB, em Foz do Iguaçu (PR)

11/12/2018 04h01

O resort Recanto Cataratas havia reservado em sua programação infantil uma "gincana maluca" para seus hóspedes mirins no último sábado, às 10h. Nesse mesmo horário, no centro de convenções do complexo, os grupos de trabalho da Cúpula Conservadora das Américas estavam discutindo o que falariam nas palestras da tarde.

As atividades foram intensas nesses dois mundos encerrados dentro do hotel de luxo em Foz do Iguaçu (PR). De um lado, o calor de 32 graus era aproveitado na piscina de águas termais, por crianças na cachoeira artificial, maridos mergulhando em caipirinhas no bar molhado e esposas tomando sol nos gazebos vizinhos. No outro mundo, organizado pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro, tudo era tão refrigerado que seus participantes pareciam saídos da Guerra Fria, vendo comunistas por todos os lados, nas universidades, na mídia, nas artes, no show business e até na elite econômica.

Às 16h, enquanto as senhoras boiavam e faziam seus contorcionismos subaquáticos na sessão de hidroginástica, o guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho, fazia sua ginástica mental para encontrar as futuras manobras da esquerda nos telões. "Vocês não têm ideia do que é a KGB (principal organização de serviço secreto da antiga União Soviética), da magnitude do inimigo. É capaz de fazer picadinho de qualquer partido em dez minutos", disparou desde sua casa, nos EUA, em comunicação cheia de falhas técnicas. 

Sob aplausos, Olavo apareceu no telão e acenou. "Eu não tô vendo vocês. Só tô vendo dois microfones na minha frente que vou fazer de conta que são vocês, tá?" A plateia estava ganha. Ela dava risada quando ele assoava o nariz, quando ele dava um trago em algo alcoólico que estava na mesa ao lado ou quando sua tosse digital atrapalhava a fala dos outros palestrantes.

Falando com sua biblioteca de fundo e pitando um cachimbo, Olavo repetia um figurino e uma cenografia de intelectual, mas sua fala apelava mais ao emocional que ao racional, cheia de pedidos de punição geral a qualquer pessoa que não pense como ele e tentando horrorizar os presentes sobre o que os esquerdistas podem fazer nos próximos anos. Para ele, o governo de Jair Bolsonaro tem que fazer uma "guerra cultural" para banir a esquerda das universidades. 

O tiroteio verbal de Olavo, porém, engasgou na comunicação picotada do Skype. A falha técnica aumentou bastante a incompreensão do discurso dele. Ao final da intervenção via internet, Eduardo Bolsonaro até que tentou disfarçar: "Perfeito, professor, obrigado pelos esclarecimentos."

O filho mais polêmico do presidente eleito foi o mestre de cerimônia do evento, atravessando a locutora oficial em vários momentos. No início, pediu "todos em pé para o hino nacional". Depois agradeceu a presença de lideranças "militares, empresariais e eclesiásticas". Sempre cercado por cinco seguranças, ele conversou com políticos, falou com a imprensa e tirou foto com fãs."Eu amo ele, eu adoro essa gente. Estou feliz de estar viva", disse a inspetora de alunos Maria Helena Rial, após tirar uma foto com o deputado. "Sou uma pessoa tradicional, mas tolerante, afinal, tenho duas filhas esquerdistas. Só o tempo vai ensinar para elas."

Eduardo quer um movimento permanente da direita do continente - estiveram em Foz direitistas do Chile, Colômbia, Venezuela, Argentina, Paraguai e Cuba. Ele até falou em um próximo encontro em Assunção, a capital paraguaia. "Falta organizar, pessoas temos", disse o deputado federal. A previsão inicial do evento era de 3.000 participantes, mas o público não chegou a 600 pessoas.

A fixação por alianças era tanta que o filho do presidente anunciou uma surpresa midiática no palco: ele se ajoelhou, tirou um anel da caixinha e pediu em casamento sua noiva, a psicóloga Heloisa Wolf, que é praticante de tiro e tem uma cachorrinha chamada Beretta. Depois, nas redes sociais, ela classificou o anel de "patriota", com o verde da esmeralda e o amarelo do ouro. 

Rodrigo Bertolotto/UOL
Livros de escritores conservadores vendidos na Cúpula Conservadora em Foz do Iguaçu (PR) Imagem: Rodrigo Bertolotto/UOL

Essa "cena família" aconteceu após outro imprevisto da programação: a participação, também via Skype, de Jair Bolsonaro. De agasalho e sentado na cama de seu quarto na Barra da Tijuca (RJ), o presidente eleito foi aplaudido de pé no auditório. "Ou mudamos o Brasil de verdade ou o PT volta", sentenciou com a imagem balançando, afinal, o cinegrafista era o vereador carioca Carlos Bolsonaro com celular em punho.

O evento bem que poderia se chamar o "Foro de Foz", tanto se fez referência por lá ao Foro de São Paulo, associação de partidos e entidades da esquerda latino-americana que é pintada pelos presentes na Tríplice Fronteira como "a grande ameaça para o Ocidente", "bárbaros contra a família, a religião e a pátria", "organizações perversas" e "entidades maléficas".

Além dos problemas técnicos na conexão digital deixarem os tradutores de libras atônitos, a tradução para o português dos palestrantes de fala hispânica também falhou. A tradutora entendia menos os palestrantes que a própria plateia. O cubano Orlando Gutierrez e o venezuelano Jorge Cuellar tiveram que repetir para ela o que tinha acabado de falar ou tinham que corrigir a versão lusitana de suas frases.

Houve também atraso de uma hora da programação. O pernambucano Luciano Bivar, presidente nacional do PSL, decidiu brincar com a situação. "Nós estamos atrasados 28 anos", discursou, voltando para 1990, quando o então presidente Fernando Collor punha em prática as primeiras políticas neoliberais no Brasil.

Fora os Bolsonaros, um clã coadjuvante também estava roteiro: os irmãos Weintraub, assessores dos novos donos do poder, que eles chamam por Duda, Carlucho, Flá e Jair. Os Weintraub faziam parte da mesa-redonda de economia, mas surpreenderam os sóbrios participantes chilenos (o economista Carlos Gómez e o advogado Francisco Infante mostraram gráficos e análises ponderadas) com um show de sarcasmo em suas intervenções.

"O conservador precisa ser aquele chato que tem um Del Rey e usa terno velho. Tem que ganhar com inteligência e humor. Só assim vencemos a esquerda", disparou de início Abraham, que chamou Fidel Castro e Che Guevara, líderes da Revolução Cubana, de playboys

Ele explicou assim a diferença empreendedora entre norte-americanos e brasileiros: nos EUA, o sujeito até no velório de um amigo leva seu cartão de visita e tenta fechar algum negócio. No Brasil, esse cara só comentaria com outro presente: "a viúva tá inteirona, hein?" Em outra fala, Abraham perguntou se as pessoas se lembravam quando caiu o Muro de Berlim. "As mocinhas não [sabem], porque não tem idade. Mas os marmanjos sabem." 

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Piscina do resort Recanto Cataratas, onde aconteceu a Cúpula Conservadora das Américas Imagem: Rodrigo Bertolotto/UOL


Já seu irmão Arthur se referiu às universidades brasileiras como "madrassas dos comunistas" e dava uma cusparada para o lado cada vez que se referia à USP (Universidade de São Paulo). Os irmãos também revelaram um temor de fracasso e o medo da volta da esquerda ao poder. "Temos que aprovar a reforma da previdência muito rápido ou eles derrubam a gente", sentenciou Abraham, que esteve elaborando um modelo previdenciário que Arthur disse que "está escondido para evitar tiroteio".

O evento ainda exibiu trechos de documentários do site Brasil Paralelo, adepto de um revisionismo histórico que enxerga o mundo como resultado de conspirações da esquerda. Até a canção "We Are The World", com Michael Jackson e dezenas de astros da música norte-americana, apareceu como um exemplo de "comunicação comunista", adjetivo também endereçado para Barack Obama e Hillary Clinton. Ao final, os vídeos foram aplaudidos.

Já o príncipe Luiz Philippe de Orleans e Bragança, eleito deputado federal pelo mesmo PSL dos Bolsonaros, acusou a ONU de ser antidemocrática e contra o cidadão brasileiro. "Essas entidades supranacionais são organizações burocráticas que querem acabar com as nações. Por isso, a ONU vem com essas pautas como direitos humanos e aquecimento global", disse o nobre, que foi abraçado pelos monarquistas presentes.

O nicho liberal não poderia deixar de ter um comércio em seu evento. Havia venda de modelos da grife Camisetas Opressoras (seu slogan "Muito Mais Opressão") com frases estampadas como "Você não vai combater a violência soltando pombinhas", "Previsão do tempo: lágrimas de esquerdosos em todo o território nacional" e "Todas as mulheres são iguais, mas as melhores são de direita".

Tinha também folhetos com cursos online de "introdução ao conservadorismo", referendados pelo guru Olavo. E uma banca vendia livros como "Em Defesa do Preconceito", de Theodore Dalrymple, no meio de livros de economia dos liberais de Viena e Chicago. Outros exemplares falam em abandonar "o humanismo bocó", "o sentimentalismo tóxico" e a "bandidolatria".

Um cartaz na entrada do evento dizia "Conservadores nos costumes, liberais na economia". No painel do hotel com a programação infantil daquele sábado apresentava: "17h30: contação de história". Naquele resort paranaense, cada um acreditava no que mais lhe convinha.

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