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Repaginado por games e séries, faroeste segue vivo em sociedades violentas

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Dolores (Evan Rachel Wood) e Teddy (James Marsden) em cena da segunda temporada de "Westworld" Imagem: Divulgação

Kaluan Bernardo

Do TAB, em São Paulo

2019-01-09T04:00:00

09/01/2019 04h00

Em uma época na qual o espírito do tempo é tomado pela polarização, com direito a proposta de flexibilização das regras de posse de arma, debates intensos sobre segurança pública, pedidos de justiça a qualquer preço e pessoas cada vez mais isoladas, chega a ser natural que a cultura pop, com obras como "Red Dead Redemption 2" e "A Balada de Buster Scruggs", jogue para a sociedade, e vice-versa, a retomada do culto a um estilo de vida e a ícones que fizeram do faroeste praticamente um sinônimo da história da América e do cinema.

"Algumas características e convenções narrativas do faroeste atendem a anseios sociais em alta", afirma Rodrigo Carreiro, professor de cinema da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e cuja pesquisa de doutorado foi sobre faroestes italianos. "Há uma percepção de violência generalizada e vontade de controlá-la, seja pelos 'justiceiros' ou até pela discussão do controle de armas, com a ideia de o cidadão querer ser ele o herói se tiver os meios à disposição. E isso é uma grande ilusão. Não estamos em um filme", completa.

O gatilho do gênero identificou rápido essa tendência. "Red Dead Redemption 2" foi um dos games que mais bombaram em 2018 e segue a sê-lo neste ano. Lançado em outubro último, a saga que conta o fim da linha de um bando de foras da lei vendeu 17 milhões de cópias em duas semanas. Em novembro, foi a vez dos celebrados irmãos Coen lançarem pela Netflix "A Balada de Buster Scruggs", um longa cheio de paródias sobre faroestes tradicionais. O canal de streaming, aliás, já havia entrado na dança em 2017, com "Godless", uma saga protagonizada por mulheres. Ainda em 2018, "Westworld", série da HBO que mistura o universo do bangue bangue com ficção científica, levou ao ar sua incensada segunda temporada. 

Tempos de crise

Em meio a essa repaginada pop de formatos e conceitos do Velho Oeste, há quem leve adiante o contexto colocado por Carreiro e diga que o retorno do faroeste representa tempos de crises. Em entrevista ao britânico "The Guardian", Antoine Fuqua, diretor do remake de "Sete Homens e um Destino", coloca o gênero como um espelho da sociedade americana quando ela quer se reimaginar. "O faroeste realmente te diz onde o mundo está. Ainda estamos lidando com pessoas aterrorizando outras. Ainda estamos lidando com pessoas abusando de outras, queimando igrejas, matando gente nas ruas", afirma.

Alex Vidigal, professor de audiovisual na UCB (Universidade Católica de Brasília) e com mestrado que investiga imaginário no faroeste, também vê ressonância entre esse universo e o momento contemporâneo. Para ele, ambos se refletem na barbárie. "Há essa coisa de existir a lei do xerife, mas de eu também querer ser portador da lei. Há a selvageria do espaço. Mesmo com o espaço urbano, de concreto, ainda vivemos em uma selva", afirma. 

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Red Dead Redemption 2, game que se passa no faroeste Imagem: Divulgação

Mas, mesmo em tempos "de paz", o contexto para a criação da atmosfera do faroeste sempre esteve por perto. "A ideia de um mundo a ser desbravado sempre existiu. Ciclicamente, vamos nos reconectando com diversas estéticas, enquanto as ressignificamos para tempos contemporâneos", afirma Flávia Gasi, doutora em semiótica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e pesquisadora de mitos na cultura pop. "A violência do Bope, em 'Tropa de Elite', é quase equivalente à da cavalaria no faroeste. As pessoas apenas ressignificam esses bastiões de violência", concorda Vidigal.

Para Gasi, é natural que os faroestes dialoguem com os valores sociais. "A mídia sempre vai refletir, enquanto cultura, o momento em que vivemos. Porque os criadores estão inseridos na sociedade. Mas não podemos dizer que quem está criando aquilo é a favor ou contra. Ele só está levantando um questionamento", afirma. "Sempre tem uma parte da população que se identificará com justiça com as próprias mãos. Essas ideias não morrem. O que muda é o quão polarizada a discussão se torna", completa.

Era uma Vez no Oeste

O faroeste, porém, sobrevive não apenas como um diálogo com nossa época, mas também na forma de um conjunto de ícones que remetem a tempos selvagens e bárbaros - mesmo que não sejam fiéis à história dos Estados Unidos. Pense em Velho Oeste e logo você irá visualizar caubói, terra batida, saloon, prostitutas, cavalos e armas. 

Embora ganhe nova roupagem nos videogames, seriados e filmes autorreferenciais, o faroeste é, antes de tudo, um conjunto imaginário comum ao cinema. Apesar de as ideias e valores defendidos e representados no Velho Oeste mudarem a cada geração, aqueles ícones continuam os mesmos. "O que estamos fazendo é pegar a mitologia do faroeste básico, a Jornada do Herói, e travestindo com outra roupa, atualizando essa mitologia. O gênero torna-se uma celebração nostálgica de um passado idealizado, que nem é verdadeiro", comenta Carreiro. 

Mas resistir a essa mitologia é tarefa árdua, até porque a história do faroeste se confunde com a do próprio cinema. "O Grande Roubo do Trem", de 1903, não é apenas a primeira obra do gênero, mas também um dos primeiros filmes feitos. Para Carreiro, o gênero é o encontro entre uma mitologia e um meio de expressão audiovisual. "O momento histórico que surge o faroeste é o mesmo do cinema enquanto linguagem. Por isso, mitologias clássicas, como a Jornada do Herói, são transportadas para aquela iconografia que se consolida na cultura pop", afirma. 

Não só o gênero foi pioneiro, como também foi dos mais populares nos Estados Unidos. "Na década de 1930 e 1940, quase um terço de todos os filmes produzidos por Hollywood eram faroestes", afirma Vidigal. Durante mais de um século, o faroeste mudou junto com o mundo. Se o gênero começa de forma maniqueísta, fazendo do caubói sempre alguém bom, um herói cavaleiro com super poderes contra um homem mau, entre as décadas de 1940 e 1950 o enredo torna psicológico, colocando o herói solitário contra o coletivo. O protagonista passa a ser alguém com conflitos internos, não mais um rascunho de ser humano que aparece para salvar a sociedade do perigo.

A força do "spaghetti"

Uma das maiores mudanças no bangue bangue veio com a produção europeia de faroestes, em um momento no qual o gênero começava a se desgastar nos Estados Unidos, principalmente pelo excesso de reprises na TV. No fim da década de 1950, alemães, franceses e principalmente italianos que ficaram conhecidos como "faroeste spaghetti" -, acrescentaram uma generosa dose de ironia e violência explícita. "Os italianos primaram por uma representação visceral e paródica, embaralhando os papéis de mocinho e vilão", afirma Carreiro. O expoente dessa fase foi o diretor Sergio Leone, autor de filmes como "Três Homens em Conflito", "Por um Punhado de Dólares" e "Era uma Vez no Oeste". "Nos filmes do Leone, o herói não hesita em roubar, algo que jamais aconteceria no filme norte-americano", comenta Carreiro.

Passada a moda dos faroestes italianos, entre 1970 e 1990, o gênero se torna revisionista. "Passa a dar mais importância a minorias, principalmente os índios, mas também mulheres e negros", diz Carreiro. No entanto, o gênero perdia cada vez força e se tornava residual, se misturando a outros. É assim que, mais tarde, surgem faroestes misturados com ficção científica, como "Cowboys vs Aliens" e "Westworld", por exemplo. 

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Django Livre, de Quentin Tarantino Imagem: Divulgação

Outro sinal do faroeste como um resíduo a ser recuperado estão nos diretores que brincam com a linguagem do gênero. "As iconografias e estruturas narrativas continuam ali, mas reorganizadas pelos diretores que tentam imprimir sua marca autoral", afirma Carreiro. Ele cita como exemplo "Django Livre", de Quentin Tarantino, que antes de ser um faroeste é essencialmente um filme estético desse diretor. O mesmo acontece com "A Balada de Buster Scruggs", dos irmãos Coen, e "O Regresso", de Alejandro Gonzáles Iñárritu.

Segundo Vidigal, o retorno do faroeste misturado a outros gêneros, com marcas autorais de diferentes diretores e revestidos de novas estruturas narrativas e personagens, incluindo minorias, é uma forma de usar um mito clássico do cinema para questionar a sociedade. "O faroeste é um mito de eterno retorno da sociedade moderna, por isso sempre é posicionado como questionamento", afirma. Mais do que uma discussão sobre violência, a mitologia do faroeste questiona o desconhecido, o que está por ser desbravado e como as pessoas vão resistir a hostilidade dessas mudanças.

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