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Fumaça e ostentação: o "boom" das tabacarias nas periferias de SP

André Lucas/UOL
Cenas da tabacaria "Levitate Hookah Lounge" em Itaquaquecetuba, região metropolitana de São Paulo Imagem: André Lucas/UOL

Giacomo Vicenzo

Da Agência Énois, em São Paulo

2019-02-05T04:00:00

05/02/2019 04h00

O bairro é Jardim Amanda Caiubi, em Itaquaquecetuba, região metropolitana de São Paulo. Por lá, é comum estar sempre "embrazando", ou seja, tentar ser melhor ou chamar mais atenção que qualquer um. A rua começa a encher de carros e motos perto das 23h. Em um dos sobrados funciona uma tabacaria. Na porta, um segurança revista todos que querem entrar. É preciso passar por um longo corredor e subir dois lances de escada até chegar ao lounge da casa, que divide o espaço térreo com uma autopeças de motos.

Na parte superior é onde os narguilés são levados às mesas. O som predominante é o funk. Um cheiro forte de melancia, que vem justamente da fumaça do fumo, toma conta da sala. Para andar poucos metros naquele espaço você pode levar uns bons minutos - afinal, já estão no Levitate Hookah Lounge, nome da tabacaria, cerca de 150 pessoas.

"Temos mais de 111 sabores diferentes, incluindo um importado da Turquia de melão com melancia", diz Cleiton Oliveira, 28, proprietário do local. Ele mostra as caixinhas com tabaco que serão levadas aos clientes. Oliveira começou a administrar o local há dez meses, junto com seu sócio e amigo de infância, Joewerton Lopes, 28.

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Cleiton Oliveira, proprietário do "Levitate Hookah Lounge", posa ao lado do cliente assíduo, Marcilio Santos Imagem: André Lucas/UOL

Uma questão de acesso

Hoje em dia, em qualquer periferia de São Paulo ou da região metropolitana, é possível encontrar o mesmo tipo de diversão noturna: o fumo árabe, consumido em narguilés que vaporizam o tabaco. Antes usados no Norte da África, Oriente Médio e Sul da Ásia, se tornaram moda entre a juventude da classe média alta da cidade. Não demorou muito para chegarem nas periferias e darem forma a uma série de negócios na região.

A expansão desse tipo de negócio é uma maneira de suprir a ausência de de lazer. O caso de São Paulo, por exemplo: dos 96 distritos da cidade, 52 não têm sala de show ou concerto, 42 não têm teatros e 54 não têm cinemas, de acordo com o Mapa da Desigualdade 2018. Além do baixo acesso a aparelhos culturais públicos, faltam também opções de lazer noturno, como baladas e outras atrações que, fosse no centro expandido, seriam facilmente encontradas.

O operador de máquinas Marcilio Santos, 26, diz frequentar o Levitate até cinco dias na semana. "A gente é jovem, gosta de curtir e a opção de lazer noturno que temos é aqui. É periferia, cê tá ligado?", afirma. O custo também é uma questão que explica esse crescimento. Santos ganha R$ 1,7 mil por mês. Em seu orçamento, o teto mensal para diversão é de R$ 200. "Não ganho muito, trabalho em firma. Para ir nesses rolês do centro preciso economizar por três meses. Aqui é mais em conta e também tem muita mulher bonita, né?", explica, aos risos.

A vendedora Larissa Lourenço, 20, gasta cerca de R$ 150 por noite. O valor, segundo ela, é metade do que habitualmente gasta quando vai a uma balada no centro de São Paulo. Além disso, ela diz se sentir mais segura curtindo a noite dentro da região onde mora. "Ter algo perto é bom. Acho que dentro do bairro é menos perigoso de sofrer algum tipo de violência ou assédio, pois conheço mais pessoas e geralmente venho com um grupo grande de amigas", afirma.

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A vendedora Larissa Lourenço, 20, é uma das frequentadoras da tabacaria Imagem: André Lucas/UOL

A garagem agora é gourmet

A Tabacabar é um espaço improvisado em uma garagem no bairro de Cidade Tiradentes, no extremo leste da capital paulista. De um lado, há um balcão com um videogame Atari; do outro, uma minúscula cozinha. "Algumas tabacarias da região estavam fechando por falta de alvará de funcionamento e outras por má administração. A ideia foi fazer algo bem calmo que unisse cervejas artesanais e narguilé", explica Cleber Santos, 32, proprietário do local.

Diferentemente de outros bares e tabacarias da região, a Tabacabar não toca funk. A casa tem como principais ritmos o rock e o rap. "Se você coloca um som funk muito alto, acaba que vira bagunça, e quem quer vir com a esposa, com a família, acaba não vindo por causa disso. Essas pessoas ficam sem um espaço mais calmo para curtir", afirma Santos.

Apesar de não lucrar diretamente com o funk, Santos admite que alguns frequentadores passam no local para conversar, fumar e beber antes de ir aos chamados "fluxos", que ocorrem regularmente na região. "Aqui é mais calmo, o ambiente que só toca funk é mais agitado. Escolho vir aqui também por estar entre amigos e não ser tão assediado pelos fãs que me reconhecem", afirma Lucas Silveira, 20, dançarino do grupo de funk NGKS.

Entre as alternativas de lazer no bairro, a tabacaria também é a melhor opção para Diego Augusto, 26, promotor de vendas e frequentador do espaço há dois anos. "O ambiente é mais calmo, mais familiar. Não sai briga. Todo mundo se conhece", afirma.

A diferenciação das opções de ambientes dentro da própria periferia é um ponto importante a ser analisado quando pensamos na expansão desse tipo de negócio, segundo Fábio Mariano Borges, doutor em Sociologia do Consumo pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Ele explica que esse tipo de estabelecimento é diferente do boteco, por exemplo. "O bar continua sendo na periferia o lugar do risco, que pode ter briga, o lugar que pode ser assaltado, que tem o perigo do alcoolismo eminente. A tabacaria ainda não é vista dessa forma, mas sim como um lugar despojado e seguro pelos jovens", analisa.

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Empreendedorismo periférico?

A possibilidade de oferecer opções acessíveis de diversão nas quebradas também criou oportunidades de negócios. Antes de empreender e criar a Levitate Hookah Lounge, Cleiton Oliveira era cobrador de ônibus e ganhava R$ 1,6 mil mensais. Seu sócio, Joewerton Lopes, era auxiliar administrativo e tinha o salário de R$ 3 mil.

A experiência de Lopes em seu antigo trabalho e o curso superior em Administração foram os fatores que, combinados com a visão de negócios de Oliveira, alavancaram a tabacaria. Hoje os sócios têm dez funcionários e faturam, em média, até R$ 16 mil mensais.

Cleber Santos também viu na saída do emprego formal na área de tecnologia da informação a oportunidade para abrir uma tabacaria. Com o dinheiro da rescisão de contrato ele montou a Tabacabar.

O estabelecimento existe há dois anos, tem em média 70 clientes por noite e funciona como um misto entre tabacaria e bar. Mas seu lucro mensal é pequeno, varia em R$ 1 mil e R$ 2 mil. "Tenho que pagar três funcionários. E nem sempre os clientes consomem muito em valor", lamenta o proprietário, que investiu cerca de R$ 40 mil no negócio e agora cogita encerrar as atividades.

Um dos fatores que fizeram com que os lucros caíssem foi a forte concorrência na região. No bairro, não é preciso andar muitos metros para encontrar outras tabacarias, a maioria adaptadas nos terrenos em frente aos prédios da Cohab (Companhia Metropolitana de Habitação). Antigo bairro dormitório, Cidade Tiradentes reúne o maior conglomerado de conjuntos habitacionais da América Latina.

Empreender na quebrada tem sido uma saída para muita gente, seja por meio das tabacarias ou dos tradicionais salões de cabeleireiro. No entanto, Tiarajú D'Andrea, professor e autor da tese "A formação dos sujeitos periféricos: cultura e política na periferia de São Paulo", explica que a expressão "empreendedorismo periférico" muitas vezes oculta as atuais dificuldades do mercado de trabalho no país.

Para ele, as pessoas, na verdade, inventam formas de sobreviver por uma questão de necessidade e pelo desmonte do mundo do trabalho com carteira assinada. "Se todo mundo na periferia decidir abrir um negócio, uns vão falir e outros prosperar. No capitalismo é assim. Todos terão que consumir de todo mundo e não existe esse dinheiro circulando dentro da periferia", analisa.

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O fluxo da rua

Perto da uma hora da manhã, um carro da Força Tática da Polícia Militar para a poucos metros da Tabacabar, com os faróis apagados. Segundos depois, arranca derrapando os quatro pneus e segue na direção oposta. Simultaneamente, o dono do comércio abaixa o som, coloca as cadeiras e mesas para dentro e desce a porta do estabelecimento.

"A Prefeitura fecha locais com som muito alto ou que ultrapassam a uma hora da manhã. Mas como não faço nada disso, nunca tive problema. É importante também não deixar a galera fechar o fluxo da rua. Senão complica também", diz Cleber Santos, dono da Tabacabar.

Em Itaquaquecetuba, com uma rotina bem diferente, a Levitate Hookah Lounge incomoda alguns vizinhos com o som alto e o grande fluxo de veículos na rua. Para tentar não entrar em atrito com os vizinhos, seus proprietários colocaram cones na porta da garagem da casa da frente para ninguém estacionar por lá. "O segurança fica de olho se alguém descumpre isso. Mas não posso mandar nos motoristas que vêm aqui, né?", diz Cleiton Oliveira.

Sem alvará de funcionamento, a tabacaria já foi alvo da fiscalização por três vezes. Em uma delas chegou a ser lacrada. "Corremos com alguns papéis e conseguimos deslacrar. O plano é tentar regularizar tudo nos próximos dois meses. Mas o que queremos de verdade é tentar um outro espaço, maior e mais afastado das residências para não criar desentendimentos com a vizinhança", comenta o sócio da Levitate, Joewerton Lopes.

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Fumaça ostentação

O operador de máquinas Marcilio Santos, que frequenta a Levitate, diz que, embora vá muito à tabacaria, tenta fumar com moderação. Mas já repara a preferência dos amigos e conhecidos. "Muitos que não gostam de cigarro, buscam algo diferente. E o narguilé tá pegando muita gente. A juventude não fuma cigarro, fuma narguilé", diz.

Para quem não é fã de cigarros, ou já conhece seus malefícios, o uso do narguilé pode parecer uma alternativa viável, com menos riscos à saúde e até mais aceitável entre os pais. No entanto, segundo o documento produzido pelo Grupo de Estudo da OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre a Regulação de Produtos de Tabaco, apesar de o cigarro ser a forma predominante de uso de tabaco em quase todo o mundo, o uso de narguilé é responsável por uma parcela significativa e crescente do tabagismo global.

Nesse sentido, ao contrário do que pode parecer, a fumaça aromatizada que deixa gosto de frutas na boca e no ar não tem nada de refrescante para a saúde. "Os males do narguilé são semelhantes aos do tabaco comum, já que ambos proporcionam inalação crônica de resíduos de queima inorgânica", alerta Caio Fernandes, pneumologista do Instituto do Câncer de São Paulo.

As principais doenças decorrentes de seu uso são respiratórias, como asma e enfisema; cardiovasculares, que aumentam risco de infarto e derrame, bem como doenças neoplásicas, como câncer de boca, pulmão e bexiga. Além disso, o especialista alerta que o compartilhamento de piteiras pode ocasionar disseminação de doenças infectocontagiosas, como a tuberculose.

O documento da OMS, intitulado "Uso de narguilé: efeitos sobre a saúde, necessidades de pesquisa e ações recomendadas para legisladores", foi traduzido pelo Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA) e publicado como nota técnica pelo Ministério da Saúde.

No texto, a organização elenca alguns dos fatores responsáveis pela disseminação global de um comportamento de dependência, como fumar narguilé. Entre eles estão a introdução do tabaco aromatizado, a aceitabilidade social e os avanços na comunicação em massa e nas mídias sociais, além da falta de políticas e de regulação específicos para o narguilé.

No Brasil, a regulamentação do produto é de responsabilidade da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Comercializar marcas que não constam na lista de registro do órgão é proibido e caracteriza infração sanitária, estando sujeito o infrator à multa, apreensão, inutilização ou interdição do produto, entre outras penalidades. Também de acordo com o órgão, a comercialização de produtos proibidos acaba "estimulando a iniciação e dificultando a cessação do tabagismo".

De acordo com a pesquisa Impostos sobre o tabaco e políticas para o controle do tabagismo no Brasil, México e Uruguai, desenvolvida pelo Cetab (Centro de Estudos sobre Tabaco e Saúde), indivíduos de baixa renda ainda se encontram em situação de vulnerabilidade ao tabagismo em relação ao alcance de políticas de controle. Os mais pobres estão mais expostos à substância e têm menor percepção das mensagens de alerta à saúde, além de apresentarem mais vulnerabilidade às doenças relacionadas ao tabaco.

Sendo assim, embora o Brasil tenha reduzido o tabagismo em quase 50% após implementação de políticas de controle desenvolvidas no período entre 1989 e 2008, o bom resultado parece que ainda não foi capaz de abranger as desigualdades econômicas do país.

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Imagem: André Lucas/UOL

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